Suplementação de fêmeas na gestação pode influenciar negativamente no desempenho produtivo da 2ª geração de cordeiros

Por Dayanne Martins Almeida (MyPoint Pro)
postado em 17/05/2011

 

A programação do desempenho produtivo do cordeiro desde a fase embrionária é um dos principais objetos de estudo do Centro Internacional de Pesquisa em Ovinos (Sheep International Research Centre) da Massey University liderado pelo professor Hugh Blair e em conjunto com o Centro Nacional de Pesquisa em Crescimento e Desenvolvimento (National Research Centre for Growth and Development) e a Beef + Lamb NZ da Nova Zelândia. O projeto é focado nos efeitos da alimentação, da idade da matriz, da genética e do estresse sobre o crescimento e desenvolvimento pré e pós-natal do cordeiro. Há ainda preocupação em enfatizar economicamente o objetivo deste estudo porém sob a ótica da compreensão biológica do sistema.

Em palestra apresentada aos ovinocultores durante o B+L NZ Science Day for Farmers (o qual consiste em um fórum científico organizado por produtores e que traz as mais recentes pesquisas em produção ovina de forma clara e enfatizando, principalmente, o impacto econômico destas na propriedade) o Professor Hugh Blair falou sobre as diretrizes do projeto e os resultados obtidos pelo primeiro experimento.

Baseado no fato de que o feto se utiliza do ambiente uterino para predizer o ambiente externo bem como processa esta informação de modo a preparar seu metabolismo e fisiologia para as prováveis condições futuras, uma possível intervenção nesse sistema poderia ser ferramenta-chave para a identificação dos efeitos importantes da programação embrionária em animais de produção. Tal ação possibilitaria ainda o descarte precoce daqueles que apresentarem propensão a desempenho insatisfatório durante a vida adulta. Adicionalmente, a programação embrionária é conhecida por se perpetuar por várias gerações subsequentes do animal e durante sua vida produtiva. No entanto, alguns fatores como primiparidade, início precoce da atividade reprodutiva, múltiplos fetos e disparidade genética entre feto e útero podem afetar os resultados durante a programação.

Pesquisas recentes indicam que a nutrição de matrizes à monta e durante a gestação tem efeitos significativos sobre o crescimento e desenvolvimento do(s) feto(s) que elas carregam. Da mesma maneira, o efeito do tamanho corporal da matriz sobre o desenvolvimento do feto demonstra influência significativa no peso ao nascer do cordeiro.

Assim, foi desenvolvida a primeira parte do projeto a qual visa analisar a influência das condições de tamanho corporal e de alimentação da ovelha durante o período de gestação sobre toda a vida produtiva do cordeiro (de feto à idade adulta). Foi analisada, também, a capacidade de transmissão destes efeitos para a geração subsequente (Figura 1).

Figura 1 - Primeira parte do experimento.



A primeira geração de animais nasceu em 2005. Ambos os cordeiros filhos de ovelhas pequenas e daquelas que sofreram restrição alimentar durante a gestação apresentaram peso ao nascer menor do que o de cordeiros provenientes de ovelhas grandes e daquelas que foram tratadas ad libitum (sem restrição alimentar). As fêmeas nascidas da primeira geração de 2005 pariram em setembro de 2007 e foram ordenhadas 1 vez por semana durante 7 semanas consecutivas. Os resultados obtidos na primeira lactação de 2007 demonstraram algo inesperado: as ovelhas nascidas de matrizes que sofreram restrição alimentar durante a gestação produziram mais leite com concentrações maiores de lactose e proteína (Figura 2 e Gráfico 2).

Figura 2 - Segunda parte do experimento.



Gráfico 1 - Curva de lactação e concentração de lactose.



As diferenças em lactação refletiram diretamente na taxa de crescimento da segunda geração de modo que os cordeiros cujas avós foram expostas à restrição alimentar durante a gestação cresceram mais rápido do que aqueles cujas avós não sofreram restrição alimentar. Os resultados das lactações de 2008 e 2009 não indicaram diferenças no que diz respeito à produção e constituição do leite, entre as ovelhas filhas de matrizes de diferentes tamanhos corpóreos e diferentes níveis de alimentação durante a gestação. As ovelhas cujas mães foram alimentadas com restrição durante a gestação produziram cordeiros mais pesados ao nascimento ainda que elas tenham apresentado peso mais leve ao nascer quando cordeiras.

Em 2010 foram realizadas as seguintes atividades: 4ª ordenha da primeira geração de ovelhas durante a primavera, mensuração da capacidade reprodutiva e lactação das ovelhas pertencentes à segunda geração e acompanhamento do crescimento e puberdade dos cordeiros da terceira geração nascidos em 2009 por meio de um novo experimento. Os resultados serão apresentados no próximo encontro da B+L NZ Science Day for Farmers que acontecerá este ano na Massey University.


O resumo do trabalho ainda não foi publicado, portanto as informações, figuras e gráfico apresentados aqui foram elaborados, adaptados e traduzidos após participação como ouvinte na palestra 'Foetal programming - Lamb performance programmed from conception' ministrada pelo professor Hugh Blair - Instituto de Zootecnia, Ciências Veterinárias e Biomédicas - Massey University, durante a B+L NZ Science Day em Palmerston North, Nova Zelândia, no dia 23 de junho de 2010.

Avalie esse conteúdo: (5 estrelas)

Comentários:

EDUARDO AMATO BERNHARD

Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Consultoria e Assessoria Veterinária
postado em 18/05/2011

Muito interessante o trabalho. Algumas dúvidas se você puder responder: Após 2005, os cordeiros dos 04 grupos foram mantidos no mesmo sistema de produção, ou mantiveram-se em lotes diferenciados? O peso final destes cordeiros, nas 04 gerações, teve alguma diferença significativa? Do ponto de vista reprodutiva, houve alguma diferença em relação a fertilidade e prolificidade ? Obrigado e parabéns pela iniciativa de dividir estes trabalhos conosco.  

Dayanne Martins Almeida

Waipukurau 4281 - Hawke´s Bay - Nova Zelândia - Zootecnista e Consultora em ovinocultura
MyPoint Pro - postado em 20/05/2011

Olá EDUARDO AMATO BERNHARD,



Primeiramente, gostaria de agradecer pelo incentivo; é sempre motivador. Quanto ao artigo, sim, todos os animais pertencentes aos 04 grupos tanto da primeira geração quanto da segunda geração receberam tratamento semelhante desde o nascimento. Desta forma, somente as ovelhas que foram utilizadas no início do experimento em 2005 sofreram ou não restrição alimentar. Na palestra o professor Hugh enfatizou a diferença na taxa de ganho de peso da segunda geração de cordeiros (nascidos em 2007) a qual colocava à frente aqueles cujas avós sofreram restrição alimentar. Acredito que por crescerem mais rápido muito provavelmente atingiram o peso médio à desmama em um tempo menor quando comparados aos cordeiros cujas avós não foram submetidas à restrição alimentar. O que não foi comentado é o comportamento dos cordeiros da primeira geração quanto ao ganho de peso. Somente foi demonstrado que os cordeiros filhos tanto das ovelhas que sofreram restrição quanto das que eram menores apresentaram peso significativo menor ao nascer.



Quanto ao desempenho produtivo dos cordeiros da terceira geração (nascidos em 2009) e às características reprodutivas da segunda geração, adianto que dia 27 de maio de 2011 haverá apresentação dos resultados dos subsequentes experimentos do projeto por meio da palestra do professor Paul Kenyon (Effects of condition score and nutrition on multiple bearing ewes and their offspring´s performance) durante a Beef   Lamb NZ Science Day em Palmerston North. Irei participar como ouvinte e prometo trazer as informações para a continuação do artigo.  



Espero poder ter ajudado.



Muito obrigada mais uma vez!

José Lopes Lima Pontes

Pindoretama - Ceará - Fazenda Caponga
postado em 23/05/2011

O tema desse trabalho me chamou atenção devido a uma mudança radical que implementei aqui na propriedade,na suplementação de ovelhas durante a gestação, devido a alguns problemas de mastite. A restrição alimentar, me surpreendeu, pois os cordeiros nascidos após os procedimentos, estão se desenvolvendo bem mais do que os das gerações anteriores. Não sei se estou misturando assuntos,se estiver, por favor me corrija, pois uma simples observação, com poucos dados históricos, é muito distante de um trabalho científico.
Obrigado e parabens por essa doação, e por me dar respaldo científico a um procedimento empírico.

Dayanne Martins Almeida

Waipukurau 4281 - Hawke´s Bay - Nova Zelândia - Zootecnista e Consultora em ovinocultura
MyPoint Pro - postado em 02/06/2011

Olá JOSÉ LOPES,

Primeiramente, desculpe-me pelo longo tempo em respondê-lo e, por isso, obrigada pela paciência e pelo comentário. O artigo foca o acompanhamento do desempenho da segunda geração de cordeiros, aqueles nascidos das filhas das ovelhas cujas dietas eram diferentes. Não houve demonstração de desempenho da primeira geração ao não ser pelo fator peso ao nascer. Pesquisas ainda estão em andamento para a conclusão do projeto e creio eu que logo serão anunciadas pela Beef Lamb NZ. Assim, serei capaz de trazer maiores informações sobre o assunto assim que possível. Espero poder ter ajudado ainda que dentro das minhas limitações. Muito obrigada mais uma vez!

Envie seu comentário:

3000 caracteres restantes


Enviar comentário

Copyright © 2000 - 2012 AgriPoint Consultoria Ltda. - Todos os direitos reservados

O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido ou transmitido sem o consentimento expresso da AgriPoint.

Consulte nossa Política de privacidade.