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Caprinos nativos: a raça Graúna e suas potencialidades para enfrentar as mudanças climáticas

Por Bonifácio Benicio de Souza
postado em 11/04/2012

2 comentários
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A preservação das raças mais resistentes ao calor é uma preocupação de todo o mundo, tendo em vista as mudanças climáticas anunciadas, que já veem sendo comprovadas nos últimos anos. Como exemplo dessa preocupação, pode-se citar a Espanha, país em que técnicos e criadores se esforçam para preservar raças antigas, que são parte da história da sua pecuária. São cabras e bois criados desde a antiguidade, que formam hoje rebanhos muito pequenos na região de Estremadura, região montanhosa da Espanha onde chove pouco, o solo é pedregoso e as temperaturas atingem níveis extremos, tanto no verão quanto no inverno. Nos meses de janeiro e fevereiro não é raro observar cenários cobertos de neve. No verão, o calor é escaldante e atinge facilmente 40 graus na sombra.

Há um duplo desafio no processo de preservação dos recursos genéticos animais, em razão de que é notória a necessidade de aumentar a produção animal para atender a crescente demanda, conforme a estimativa da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) a demanda por carne irá dobrar e a por leite será maior que o dobro até o ano de 2030. Em contrapartida, as raças consideradas locais (nativas) estão desaparecendo rapidamente em todo o mundo. Nos últimos 15 anos, 300 das mais de 6000 raças identificadas pela FAO foram consideradas extintas, segundo Cardellino, 2005, citado por Ramos et al. (2011).

Os caprinos existentes no Brasil descendem, na sua maioria, dos tipos étnicos trazidos pelos colonizadores portugueses. Os principais tipos caprinos nativos são a Moxotó, Canindé, Repartida e Marota, Gurguéia, Azul, Graúna e Nambi e um elevado número de caprinos denominados SRD (sem raça definida), oriundos do cruzamento indiscriminado entre as diferentes populações nativas. Porém, ocorre o risco de extinção de alguns grupos raciais por não apresentar um elevado desempenho.

Neste artigo, o enfoque será para o grupo racial Graúna, também conhecida por Preta Graúna ou Preta de Corda. Sua origem é o nordeste brasileiro, mas sua ascendência remete, provavelmente, à raça Murciana, trazida da zona árida da região sul da Espanha. Dentre suas características, destaca-se a rusticidade. São animais com peso corporal entre 35 kg e 40 kg e apresentam dupla aptidão, carne e leite.

Figura 1 - Exemplares da raça Graúna. Fonte: http://stravaganzastravaganza.blogspot.com.br/2011/06/caprinos-principais-racas-brasileiras.html



A Graúna, ao longo do tempo, sofreu uma redução na sua produção de leite, fruto da miscigenação e provavelmente do processo de seleção natural. Manuel Dantas Vilar Filho um preservador de raças de caprinos nativos, infundiu sangue da raça Murciana preta no seu plantel de animais, na fazenda Carnaúba, interior paraibano, para recuperar a aptidão leiteira da Graúna, mantendo as suas características raciais. Com o sucesso obtido, outros criadores passaram a adquirir animais dessa fazenda para melhorar rebanhos leiteiros, no Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Em pesquisas realizadas recentemente, foi demonstrado cientificamente a resistência térmica e a capacidade produtiva desse grupo racial quando comparada com outras raça nativas (naturalizadas) de reconhecida adaptabilidade às condições semiáridas.

De acordo com Leite et al. (2012) ao estudarem a influência de fatores bioclimáticos nos índices produtivos e fisiológicos de caprinos nativos confinados (Figuras 2 e 3) em condições de ITGU variando de 77 para 83, nos horários mais estressantes do dia (9 às 15 horas), verificaram que os animais do grupo Graúna apresentaram frequência respiratória menor do que os da raça Moxotó, raça de reconhecida adaptação ao semiárido. Quanto às temperaturas retal e superficial, a Graúna não apresentou diferença em relação às raças Moxotó e Azul, demonstrando assim sua elevada capacidade de suportar temperaturas elevadas e manter o equilíbrio térmico (Figura 2).

Figura 2 - Frequência respiratória (FR em mov/min), temperatura retal (TR oC) e temperatura superficial (TS oC) de caprinos Graúna, Moxotó e Azul.
Fonte: LEITE et al. (2012)



Com relação ao desempenho produtivo, o grupo Graúna apresentou melhor resultado quando comparado com a Moxotó e a Azul (Figura 3).

Figura 3 - Ganho de peso médio diário (GPMD em gramas) das raças Graúna, Moxotó e Azul. Fonte: Fonte: LEITE et al. (2012)



Considerações finais

Os caprinos do grupo genético Graúna são animais altamente adaptados às condições do semiárido do Brasil. Ademais, apresentam potencial para a produção de leite, de carne e de pele. Dessa forma, devem ser preservados e difundidos, pois trata-se de um patrimônio genético valioso para auxiliar a alcançar os objetivos das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil, principalmente no semiárido, e enfrentar as mudanças climáticas auferindo produtos de qualidade e lucros aos criadores da região.

Referências bibliográficas

LEITE, J.R.S; FURTADO, D.A; LEAL, A. F; SOUZA, B.B; SILVA, A.S. Influência de fatores bioclimáticos nos índices produtivos e fisiológicos de caprinos nativos confinados. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.16, n.4, p.443-448, 2012.

EGITO, A.A; MARIANTE, A.S; ALBUQUERQUE, M.S.M. Programa brasileiro de conservação de recursos genéticos animais. Archivos de Zootecnia, v.51, p. 39-52, 2002.

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Comentários

EGYDIO BIANCHI

São Paulo - São Paulo - Produção de caprinos de corte
postado em 11/04/2012

O autor registra preocupação louvável com a preservação do patrimônio genético representado pela  Graúna, especialmente  se considerarmos sua adaptabilidade ao semiárido do Brasil. Nesse contexto, devem ser aplaudidas as iniciativas bem sucedidas como a do preservador/selecionador paraibano Manuel Dantas Vilar Filho. Registro , entretanto , que o futuro do caprino de corte em todo o País repousa no desenvolvimento intenso da raça Boer, introduzida no Brasil com sucesso há quase duas decadas na região do nordeste e lógo em seguida no sudeste e sul brasileiros. O Boer poderá ter  papel de destaque nos programas de Segurança Alimentar e Nutricional  do País, sobretudo se influenciando genéticamente o imenso rebanho caprino nordestino. O competente artigo do Professor Bonifácio Benício de Souza é merecedor de nossos aplausos e ampla divulgação.

antonio benedito angelo

Nova Odessa - São Paulo - Consultoria/extensão
postado em 16/04/2012

Inicialmente parabenizamos o autor pelo belissimo trabalho, e seguir gostariamos de saber se já houve algum ensaio de cruzamentos e se ocorreu, qual foi o resultado? Qual a raça?

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