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Quanto custa produzir cordeiros?

 

A pergunta "quanto custa produzir..." é muito comum, e o que mais se escuta em eventos, palestras e conversas entre produtores. A questão é: como responder de forma correta e segura???

Em primeiro lugar, para se ter a resposta de qual é o custo de produção há necessidade de coleta de dados na propriedade e de organização dos mesmos para gerarem informações úteis aos cálculos.

Em segundo lugar deve-se ter em mente: o que é o custo de produção! Quando se fala em custos, há diversas classificações: custo variável, fixo, operacional efetivo, operacional total, custo total de produção, etc. Aqui já surge a primeira problemática... Qual desses custos deve ser usado nas análises?

Portanto, tendo em mãos as informações necessárias e a metodologia de cálculo a ser utilizada, pode-se calcular o custo de produção, que pode ser da atividade como um todo, por hectare, por matriz, por cordeiro, por quilo, entre outros.

É muito importante ter em mente que o custo de produção normalmente é feito para uma propriedade, sendo dessa forma, específico para a mesma que cria animais sob determinadas condições específicas. Qualquer alteração no processo produtivo ou em preços acarretará em mudanças no custo produtivo. Por isso, deve-se ter muita cautela ao comparar propriedades diferentes. Isso até é possível, desde que se tomem alguns cuidados e seja avaliada com critério a metodologia de cálculo empregada.

Agora vamos a alguns exemplos, já que os leitores esperam alguns números em reais como base. Os custos apresentados são de sistemas de terminação de cordeiros realizados no Laboratório de Produção e Pesquisa (LAPOC) da UFPR, sendo custo de um ano, com uma estação de monta. O cálculo foi realizado para um rebanho de 150 ovelhas numa área de pastagem cultivada (capim Tifton e azevém) de nove hectares em três sistemas e sete no confinamento. Quatro sistemas distintos foram realizados:

1. Cordeiros terminados ao pé da mãe em pastagem, sem o desmame;
2. Cordeiros desmamados precocemente (45 dias) mantidos em pastagem e suplementados com concentrado com 20% PB em 2% do seu peso por dia;
3. Cordeiros desmamados precocemente (45 dias) mantidos em pastagem e suplementados com concentrado com 20% PB à vontade;
4. Cordeiros desmamados precocemente (45 dias) e confinados em aprisco suspenso com dieta composta por 60% de silagem de milho e 40% de concentrado com 20% PB.

Para o cálculo do custo optou-se por utilizar o Custo Total de Produção, ou seja, aquele que considera todos os itens relacionados à atividade e também os encargos financeiros (juros, custo de oportunidade do capital investido). Os itens considerados foram:

- Alimentação
- Medicamentos
- Pastagem
- Energia elétrica
- Conservação das benfeitorias
- Conservação de máquinas
- Impostos e taxas
- Mão-de-obra temporária
- Mão-de-obra permanente
- Juros sobre capital de giro
- Custo com compra de animais
- Despesas gerais
- Depreciação das benfeitorias
- Depreciação de máquinas
- Depreciação da pastagem
- Custo de oportunidade capital investido

Todos esses itens foram devidamente orçados e organizados no software CUSTARE Carne 2009 para gerar um gráfico (Figura 1).

Figura 1. Percentual de contribuição dos componentes do custo no custo total de produção num módulo de 150 ovelhas.



De todos esses itens, o que apresentou maior representatividade na formação dos custos foi alimentação, por isso, o produtor deve se preocupar em utilizar alimentos de baixo custo capazes de gerar boa produtividade.

O segundo item, custos não-caixa, são aqueles que não representam desembolso para o produtor, mas que em cálculos completos devem ser considerados, tais como: juros, custo de oportunidade do capital investido e depreciação. Deve-se observar que esse custo foi elevado, e se ele não for incluído no cálculo de custo de produção vai apresentar grandes diferenças no lucro obtido. O fato do produtor não considerar esses itens pode levar a uma falsa impressão de lucro, quando na realidade pode estar havendo descapitalização progressiva da empresa rural.

No sistema de cordeiros mantidos em pastagem ao pé da mãe, os custos não-caixa apresentaram maior importância que a alimentação, diferenciando dos demais sistemas.

E o terceiro item de peso em todos os sistemas é a mão-de-obra. Ao somar esses três itens mais representativos, observa-se que ultrapassam 80% do custo total de produção, ou seja, o foco para reduzir custos deve ser nesses itens.

Ao analisar os valores em reais por quilo de cordeiro produzido obtém-se o gráfico abaixo (Figura 2).

Figura 2. Custo total de produção por quilo de cordeiro num módulo de 150 ovelhas.



O maior custo de produção foi o de cordeiros confinados, sendo o menor, cordeiros terminados em pastagem ao pé da mãe.

O sistema de cordeiros desmamados terminados em pastagem apresentou maior custo por quilo de cordeiro que o sistema com uso de creep feeding. Isso ocorreu porque a mortalidade no sistema de cordeiros desmamados terminados em pasto foi elevada, o que reduziu a produtividade. Já no creep feeding, como a produtividade foi maior, os custos foram diluídos, e mesmo fornecendo concentrado aos cordeiros o custo por quilo de cordeiro foi menor.

Os cordeiros confinados (sistema 4) apresentaram elevado custo de produção devido aos gastos com alimentação e aqueles ligados às benfeitorias (aprisco e depósito de alimentos).
Nesse caso realizado no LAPOC-UFPR sob condições específicas, o menor custo de produção foi para cordeiros terminados ao pé da mãe na pastagem.

Cabe salientar que esse custo não deve ser considerado como padrão entre os sistemas, conforme comentado, qualquer alteração nos custos implicará em resultados diferentes. Itens como custo da terra, mão-de-obra e alimentação são os mais importantes na maioria das propriedades.

O mais importante é o produtor ter ciência de que deve saber seu custo de produção, tanto para saber onde economizar, quanto para saber se o preço pago ao produtor é justo, tendo ferramentas consistentes para negociação. E para chegar nisso, deve-se coletar dados na fazenda e ter conhecimento de métodos de custo de produção. Controlar o fluxo de caixa, entradas e saídas da propriedade, é tarefa árdua, mas a única forma de conseguir estimar custos. O resultado obtido compensa!

E você, leitor, saber quanto custa produzir um quilo de cordeiro na sua propriedade?


Referências bibliográficas

BARROS, C.S.; MONTEIRO, A.L.G.; PRADO, O.R. CUSTARE CARNE 2009. 1 CD-ROM.

CANZIANI, J. R. F. Uma abordagem sobre as diferenças de metodologia utilizada no cálculo do custo total de produção da atividade leiteira a nível individual (produtor) e a nível regional. In: SEMINÁRIO SOBRE METODOLOGIAS DE CÁLCULO DE CUSTO DE PRODUÇÃO DE LEITE, 1., 1999, Piracicaba. Anais... Piracicaba: USP, 1999.

BARROS, C. S., MONTEIRO, A. L. G., PRADO, O. R. Gestão e controle de custos nos sistemas de produção de ovinos e caprinos In: XIV Simpósio Paranaense de Ovinocultura, II Simpósio Paranaense de Caprinocultura, I Simpósio Sul Brasileiro de Ovinos e Caprinos, 2009, Curitiba-PR. Anais do XIV Simpósio Paranaense de Ovinocultura, II Simpósio Paranaense de Caprinocultura, I Simpósio Sul Brasileiro de Ovinos e Caprinos. Curitiba-PR: LAPOC-UFPR, 2009. v.1. p.1 - 13

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Comentários:

José Roberto Pires Weber

Dom Pedrito - Rio Grande do Sul - Produção de gado de corte
postado em 22/10/2009

Achei interessante o artigo, mas a meu juízo, faltaram alguns parâmetros fundamentais para uma análise de cada sistema de produção, quais sejam, o prazo decorrido desde o início de cada programa até o abate e o peso dos animais.
Mais importante do que saber o custo de produção, é verificar-se a relação custo x benefício.
Cordialmente,
José Roberto Pires Weber

Resposta da autora

Prezado José Roberto Pires Weber,

Nós não incluímos todos os parâmetros avaliados e resultados obtidos devido ao espaço, pois ficaria mutio extenso, e optamos por fornecer uma visão geral dos sistemas.
Como temos esse canal de comunicação, podem perguntar o que é mais significante para cada leitor.
Respondendo aos teus questinonamentos:
- todos os cordeiros foram abatidos quando atingiram 40 kg
- o tempo decorrido desde o desmame até obtenção dos 40 kg foi de 73, 102, 64 e 59 dias para os sitemas 1, 2, 3 e 4, respectivamente.
- a análise foi feita para um ano de atividade, considerando todos os custos possíveis

Comumente as pessoas usando custo x benefício, mas financeiramente a fórmula é benfício dividido por custo. Utilizamos a metodologia de divisão entre a soma do fluxo de caixa receitas e despesas. Essa relação foi calculada para cada sistema sendo o valor de: 1,28; 1,17; 1,19 e 0,97 para os sitemas 1, 2, 3 e 4, respectivamente. Nas condições do nosso estudo foi mais vantajoso economicamente terminar cordeiros ao pé da mãe sem desmame e sem suplementação. No entanto sob outras condições e local, o resultado pode ser diferente.

Pretendemos dar continuidade ao artigo discutindo os demais resultados econômicos obtidos no estudo.
Carina Barros

EDUARDO PICCOLI MACHADO

Alegrete - Rio Grande do Sul - Produção de gado de corte
postado em 22/10/2009

Caros autores.

Sem entrar no mérito da matéria, muito bem elaborada, vou relatar a voçês o que eu costumo dizar aos demais produtores, que a ovelha, em termos percentuais é bem mais lucrativa que o gado bovino. Mas é claro. Os valores envolvido são extremamente menores.
Vou dar um exemplo muito simplista da experiência que tenho, sem considerar variáveis como preço da terra instalações de manejo, que já estão imobilizados a dezenas de anos que aqui qualquer propriedade tem, mas dá uma boa noção da rentabilidade.
Aqui na campanha gaúcha, hoje eu posso comprar uma uma ovelha da raça Ideal, por aproximadamente R$90,00 reais. Ponho os carneiros no final do mês de dezembro. No mês de Maio do ano seguinte esta ovelha terá um cordeiro. No mês de outubro eu vou retirar a lã da ovelha que vai me dar aproximadamente 3,8 kilos pelo valor de R$5,50. Ai eu já tirei R$21,00 reais do meu investimento inicial. Se eu esperar até maio do ano sequinte, está ovelha me dará mais um cordeiro, e daquele primeiro cordeiro eu posso tirar a lâ (Um ano de velo) +/- 3kg vezes R$5,50 , ou seja R$16,50. Após tosquiar este cordeiro eu posso vende-lo para abate, com peso aproximado de 28 kilos, em campo nativo, pelo preço hoje de R$2,20, alcançando o valor total de R$61,60.
Então, após um ano e meio eu já auferi R$21 +R$16,50+61,60=R$99,10. Já retirei o valor do investimento, estou com a ovelha e mais um cordeiro.
Assim, particularmente, mesmo considerando um índice de assinalção de 85% e a utilização de carneiros em monta controlada, eu considero uma produção muito rentável e lucrativa, mas é claro, dentro de um universo de valores baixos.

Abraços

Daniel Valerio

Sanntiago de los Caballeros - Santiago - República Dominicana - Pesquisa/ensino
postado em 23/10/2009

Distinguidos autores:

En primer lugar, permitanme felicitarles por el trabajo presentado, sin dudas una herramienta fundamental para garantizar la rentabilidad y continuidad de las explotaciones ovinas y ganaderas en general.

En segundo lugar, aunque los resultados presentados se basan en un ejemplo, considero interesante en el futuro cercano ver la evolucion de estos sistemas y sus resultados economicos a traves del tiempo. Este ejercicion comparando resultados de varios anos podria dar informacion muy valiosa y a la vez permitiria llegar a conclusiones mas precisas.

Finalmente, les reitero mis felicitaciones por el aporte y a la vez les exhorto a continuar realizando trabajos en esta linea tan importante y muchas veces tan marginada en los sistemas de produccion animal.

Saludos.

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