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Aspectos da produção de caprinos em pastagens

Por Alda Lúcia Gomes Monteiro , Carina Barros , Claudio José Araújo da Silva e João Ricardo Dittrich
postado em 28/03/2007

6 comentários
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Os sistemas de produção animal baseados em pastagens têm merecido destaque devido ao baixo custo que geralmente proporcionam e, também, pela procura por produto animal ecologicamente correto. Porém, o sucesso desta atividade deve começar com o conhecimento das características da forrageira a ser utilizada na pastagem e do comportamento da espécie animal envolvida, assim como de que forma a interação planta e animal pode afetar a produção.

Este texto trata brevemente dos princípios importantes que envolvem as características de algumas forrageiras e o comportamento de caprinos em pastejo.

Nos sistemas de criação em pastagem há necessidade de se escolher uma espécie forrageira adequada, e realizar manejo condizente com a planta e com as metas de produtividade do sistema. No Quadro 1 há algumas gramíneas forrageiras passíveis de serem utilizadas para caprinos no Brasil e suas características.

Quadro 1. Características de algumas gramíneas forrageiras para pastejo de caprinos


O hábito de crescimento da planta forrageira é fator importante que determina maior ou menor resistência da mesma sob condição de pastejo. Gramíneas com porte baixo do tipo estoloníferas, como Brachiaria decumbens, Digitaria decumbens, Cynodon dactylon (Tifton-85, coast-cross, estrela) dentre outras, apresentam máxima tolerância ao sistema contínuo de utilização da pastagem, em função de seu hábito de crescimento lhes garantir maior oportunidade de preservação da área foliar e dos meristemas apicais, que são os pontos de crescimento normalmente localizados na base da planta. Vale, no entanto, lembrar que a planta responde ao manejo a ela imposto, podendo alterar seu hábito de crescimento e assim, alterar a estrutura da vegetação, quando em utilização pelos animais.

As gramíneas forrageiras de hábito de crescimento cespitoso, principalmente, parecem exigir menor pressão de pastejo para possibilitar crescimento adequado, em função da necessidade de exigirem maior quantidade de material remanescente após o pastejo, para garantir a rebrota. Isso ocorre devido ao fato das mesmas exporem com maior freqüência, seus pontos de crescimento -meristemas apicais- ao pastejo dos animais.

Além da espécie forrageira a ser utilizada, características como quantidade de folhas disponíveis e altura da pastagem devem ser consideradas no manejo das pastagens para os caprinos, uma vez que são indicados como animais de alta seletividade no pastejo.

Destaca-se que quanto maior a quantidade de folhas, melhor a qualidade nutricional no que se refere à proteína e digestibilidade da massa de forragem ingerida e, provavelmente, maior consumo pelo animal. A altura da pastagem tem sido indicada como importante ferramenta no manejo das pastagens, favorecendo também maior consumo do animal em pastejo, e será tema de próxima coluna sobre as pastagens para os caprinos.

O comportamento dos caprinos: preferência e hábitos de pastejo

Quanto ao comportamento dos caprinos em pastagens observa-se que, desde que não haja competição excessiva entre os animais decorrente de lotação elevada, os mesmos têm seu comportamento determinado pela variedade de plantas forrageiras existentes e pela disponibilidade relativa de cada espécie, em áreas com composição botânica heterogênea (Merril e Taylor, 1981).

Nessas condições, os caprinos tendem a mostrar maior ingestão de ramas, preferencialmente incluindo folhas, ponteiros tenros de ramos e frutos, apresentando menor ingestão de gramíneas quando comparados com outras espécies como bovinos e ovinos (Malechek e Leinweber, 1972).

Relata-se 80% de ingestão de outras espécies diversas pelos caprinos em áreas mistas com gramíneas forrageiras. Apesar de não mostrar a mesma aceitação por gramíneas do que pelas plantas arbustivas e herbáceas de folhas largas, os caprinos podem apresentar bons níveis de ingestão desse tipo de forrageira quando dispõem de gramíneas com rebrota nova, ou quando a disponibilidade de ramas na área diminui (Malechek e Leinweber, 1972; Malechek e Provenza, 1983), seja em função das variações nas condições climáticas, seja em função de lotação elevada. Cabe lembrar aqui também o comportamento natural dos caprinos, no qual os mesmos assumem a posição bipedal em até 2 m de altura na busca do alimento.

A diversidade de plantas que o caprino consome como forragem é bem mais ampla que a aceita por ovinos e bovinos. Outro ponto importante é que o caprino, por natureza, não gosta de se alimentar exclusivamente com única forrageira, notadamente se a mesma for gramínea, preferindo alternar a alimentação entre diferentes tipos de vegetais, selecionando intensivamente as partes mais nutritivas das plantas em quaisquer deles (Gall, 1981; De Simiane et al., 1984).

Morand-Fehr e Sauvant (1984) definiram os caprinos como consumidores adaptativos com seletividade média a alta. A seletividade está relacionada às partes anatômicas de sua boca que permitem ampla mobilidade dos lábios, e pela forma de apreensão do alimento com o uso de lábios, dentes e língua que permitem que estes animais apresentem alta capacidade de seleção.

Em pastejo contínuo em áreas extensas, os caprinos, em razão do seu comportamento seletivo e preferencial por determinados tipos de planta, tendem a deixar excessiva sobra de alimento potencialmente aproveitável, utilizando pouco eficientemente a forragem disponível. Além disso, é espécie animal que utiliza grandes caminhadas na busca do alimento. Segundo Morand-Fehr (1981), o pastejo em áreas menores e em sistema de rotação, pode facilitar o manejo e resultar em consumo mais uniforme e, conseqüentemente, melhor aproveitamento da forragem.

Devido ao crescimento da atividade no Sul do Brasil e ao pouco conhecimento da utilização de espécies cultivadas em pastagens nessa região, estudos vêm sendo realizados na Universidade Federal do Paraná, com o objetivo de compreender o comportamento dos caprinos em pastejo, de modo a oferecer alimento adequado para melhor produtividade. Nessas avaliações foram utilizadas espécies cultivadas de gramíneas em monocultura e/ou consorciadas com outras espécies, a fim de verificar o comportamento animal e as possibilidades de resultados em desempenho.

No caso de gramíneas forrageiras tropicais, estudo realizado com caprinos adultos de corte em pastagem de Brachiaria hibrida cv. MULATO, manejada entre 15 e 25 cm de altura mostrou ótima aceitabilidade dessa forragem pelos animais. Nesse trabalho foram comparadas duas ofertas de forragem aos caprinos (4% e 8% do PV em folhas) que tinham acesso à pastagem das 8 às 18 horas, sendo recolhidos ao aprisco após pastejo, sem suplementação.

Verificou-se que os caprinos despenderam o mesmo tempo com a atividade de pastejo em ambas as ofertas de forragem. Porém, o ganho de peso médio diário foi de 69 g em oferta de 4 %, e de 100 g, em 8%, indicando melhor eficiência de uso do pasto na melhor oferta. Esses dados revelaram maior ganho de peso por área também na oferta de 8%, apesar de haver menor número de animais por hectare nesse caso (Barros et al., 2005), indicando que a massa de folhas disponível teve efeito sobre o desempenho individual e por área.

Em trabalho com o capim Aruana (Panicum maximum Jacq.) e com a Hemártria (Hemarthria altissima cv. Flórida), Silva (2006) observou que os caprinos selecionaram intensamente as duas forragens oferecidas, mostrando-se extremamente hábeis nessa atividade. Vale ressaltar que, embora sejam duas espécies diferentes e com hábitos de crescimento diferentes (Aruana, com crescimento ereto e a Hemártria, com crescimento prostrado) os caprinos demonstraram equilíbrio na escolha entre essas espécies. Novamente, o que interferiu na escolha foram outros aspectos como a altura e a massa de forragem.

São escassos os estudos com caprinos em pastagens de clima temperado no Brasil. No entanto, esses são muito importantes para direcionar o uso das forrageiras e melhorar a produtividade, pois no inverno essas forrageiras são amplamente utilizadas na região Sul do Brasil. Com o crescimento do interesse pela caprinocultura de corte no Estado do Paraná, alguns estudos com forrageiras de inverno têm sido realizados.

Nesse contexto, ao comparar a preferência de caprinos em pastagem de azevém (Lolium multiflorum Lam.) e de aveia preta (Avena strigosa Schreb) em cultivo puro e também quando se realizou a consorciação dessas gramíneas, notou-se que os animais não apresentaram preferência entre essas espécies e nem quanto à consorciação das mesmas. A maior massa disponível de folhas foi o fator que determinou a preferência dos animais, fato que também havia sido observado com as gramíneas de clima tropical, conforme citado para a Brachiaria mulato.

Além das gramíneas, as leguminosas podem ser indicadas, devido às suas qualidades nutricionais, lembrando conforme foi descrito que os caprinos têm acentuada preferência por espécies arbustivas.

Considerando-se a possibilidade de uso de leguminosas na dieta, Bueno (2007) recomendou o uso da soja perene (Neonotonia wightii) de ciclo precoce (Cooper e comum), com florescimento por volta do mês de Abril, o que garante maior produção de sementes e persistência na área, com produção de até 10 ton. MS/ha/ano, sendo que o sistema rotacionado com período de descanso adequado é essencial à persistência da leguminosa na área.

Outro gênero recomendado é a Leucena, de crescimento arbóreo, essa com maior período de estabelecimento, que deve ser mantida em altura que possibilite pastejo aos caprinos e distância entre as plantas que permita o deslocamento dos animais na área. Nesse caso, o pastejo deve ser restrito a algumas horas diárias, sendo que, na literatura há a indicação de que a leucena pode compor no máximo 50% da dieta (Johnson e Van Eys, 1987) devido à toxina mimosina que atua no metabolismo do iodo na tireóide e pode causar bócio, com diminuição do peso ao nascer das crias e queda de pêlos.

Apesar da preferência dos animais por materiais arbustivos, destaca-se que estudos com caprinos em pastejo de leguminosas são escassos no Brasil. Algumas recomendações sobre o uso das leguminosas para o Nordeste brasileiro, tais como feijão guandu, cunhã e leucena, além do uso de leguminosas nativas e de palmas forrageiras e mandioca na alimentação dos caprinos podem ser encontradas em publicações da EMBRAPA Caprinos (www.cnpc.embrapa.br).

Quanto ao horário preferencial para o pastejo dos caprinos, em grande parte dos criatórios o horário destinado ao pastejo destes é por volta das 9:00 às 16:00h. Isso ocorre devido a existir, por parte dos criadores, o receio de furtos ou perdas pela presença de predadores nas áreas de criação. A respeito do tempo destinado ao pastejo, Silva (2006) observou que a maior intensidade de pastejo para caprinos em espécies tropicais ocorreu entre 9:00 e 11:00h da manhã e às 17:00h da tarde.

Roda et al. (1995) em pastagem de coast cross (Cynodon dactylon (L.) Pears) e em pastagem de pangola (Digitaria decumbens, Stent) havia mostrado que a freqüência de pastejo concentrou-se em dois períodos durante o dia, das 7h30 às 11h30 e das 14h30 às 17h30, variando conforme o local e época do ano. O mesmo autor também relatou que os caprinos não pastejam quando a forragem está muito molhada pelo sereno da manhã e acabam retardando o início de pastejo nesses casos. Porém como foi citado, em muitos criatórios o manejo utilizado tem como padrão recolher os animais entre 15:00 e 16:00h, fato que pode comprometer a ingestão diária de forragem, já que os animais apresentam maior intensidade de consumo por volta das 17:00h.

Outro fato importante e pouco estudado é o pastejo noturno dos caprinos, pois normalmente os animais são recolhidos durante a noite. Esse manejo foi observado reduzir o consumo pelo animal. Silva (2006) observou aumento de 17% na atividade de pastejo para os animais que têm acesso à pastagem por 24 horas. Portanto, a restrição alimentar imposta pelo recolhimento dos animais aos capris poderia estar associada ao manejo de suplementação alimentar no período noturno (Parente et al., 2005).

Assim, não existe receita pré-determinada sobre a melhor forrageira a ser utilizada para caprinos. Assim como para outras espécies animais deve-se pensar em forrageiras de bom valor nutricional, com fácil estabelecimento e utilização, sendo bem adaptadas às condições ambientais de cada região. Com relação ao comportamento dos caprinos em pastejo as informações relatadas devem servir como ferramenta importante na determinação de manejo eficiente e lucrativo na caprinocultura.

Clique aqui para ver a literatura citada.

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Comentários

Vitório Manoel Malta Marques

Maceio - Alagoas - Agropecuarista
postado em 07/04/2007

Parabéns pelo artigo, mas nós criadores do semi-árido nordestino, tambem gostariamos de ler artigos que façam referência ao pastejo de ovinos em capim buffel, muito utilizado em nossa região, como tambem, sobre a utilização da palma forrageira, nos seus diferentes tipos e quantitativos por animal.

Muito Obrigado

Vitório Malta
Fazenda Malhador - Maravilha - Alagoas

Fernando Sarmento Favacho

Castanhal - Pará - Pesquisa/ensino
postado em 10/04/2007

Muito bom!

Apesar da Amazônia ainda contribuir pouco com a produção nacional de caprinos temos um potencial imenso para desenvolver esta importante atividade e precisamos de formação e pesquisa nesta área. O presente artigo contribui muito para isso.

Parabéns

Fernando Favacho - Eng. Agr. Prof. médios animais. Escola Agrotécnica Federal de Castanhal - PA. EAFC/PA


Gustavo Fernando Ribeiro de Oliveira

Uberaba - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 02/05/2007

Dr. Alda L. G. Monteiro
Parabéns pelo artigo, essas caracteristicas sobre a escolha da forrageira para caprinos são muito interessantes. A caprinocultura é uma área pouco estudada, deixando a desejar para o desenvolvimento dessa criação, limitando a tecnificação dos criadores de caprinos que levam em consideração as caracteristicas dos ovinos para criação de carpinos sendo que são duas espécies diferentes, de preferências diferentes em tipo de forrageiras consequentemente manejos diferentes.
Parabéns novamente pelo artigo.
Gustavo. Tecnico Agricola. Gestor em Agronegocio

José Antonio Alves Cutrim Junior

Fortaleza - Ceará - Produção de gado de corte
postado em 06/03/2008

Não há um perigo de fotossensibilidade em ovinos quando pastejando em área com Brachiária? Ou tem alguma espécie ou cultivar que não seja susceptível ao fungo promover seu crescimento?


"Prezado José Antonio Alves Cutrim Junior", pedimos desculpas pela demora na resposta à sua consulta.
A Brachiaria decumbens é sem dúvida a espécie de mais alta taxa de fotosensibilização para os ovinos. Em busca de informações que fiz, identifiquei relatos também de ocorrências de casos em Brachiaria ruziziensis.

Profa. Alda

Antonio Adalberto Kaupert Junior

Campinas - São Paulo - Consultoria/extensão
postado em 18/07/2008

Prezada Profa. Dra. Alda.

Parabéns pelo artigo e pelo trabalho, que apenas agora chegou ao meu conhecimento.

Se houver disponibilidade de dados mais detalhados sobre as avaliações, numa versão completa do trabalho, eu gostaria muito de receber uma cópia. É possível?

Atenciosamente,

Claudio José Araújo da Silva

Curitiba - Paraná - Pesquisa/ensino
postado em 21/07/2008

Prezado Antonio Adalberto Kaupert Junior,

O trabalho publicado e parte da dissertação que tem o título "Características Estruturais das Forrageiras Aruana e Hemártria e o Comportamento Ingestivo de Caprinos em Pastejo". O referido trabalho encontra-se disponível em PDF no Portal www.ufpr.br ou digitando o título no google. Outro trabalho também disponível que pode interessar é o "Comportamento Ingestivo de Caprinos em Pastagens Anuais de Inverno do autor Luis Felipe Sperry Bratti. Estes trabalhos encontram-se na versão completa. Também recomendo acessar o site www.lapoc.ufpr.br que contém alguns artigos que abordam a caprino e ovinocultura. Desde já agradeço pela leitura dos nossos artigos e me coloco a disposição para qualquer dúvida.

Atenciosamente

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