Você está em: Radares Técnicos > Sanidade

Parto normal em ovinos e caprinos

Por André Maciel Crespilho
postado em 19/07/2010

 

Para que ocorra o desenvolvimento de um novo ser, os espermatozóides produzidos pelo macho (gametas masculinos) devem ser transferidos para o aparelho reprodutor da fêmea para que ocorra a fertilização do(s) gameta(s) feminino(s) ou ovócito(s), dando origem ao embrião. Durante a fase embrionária ocorre a diferenciação e formação dos órgãos vitais, que irão se desenvolver ao longo do período gestacional ou fase fetal, para que a futura cria tenha condições de sobreviver no meio ambiente após o parto.

Durante todo o transcurso de desenvolvimento que culmina com a parição, muitos fatores externos e até mesmo internos (inerentes à fêmea gestante) podem atuar causando a morte embrionária ou fetal (CRESPILHO, 2009) ou problemas na evolução do trabalho de parto que podem resultar na morte do(s) produto(s).

Mas como identificar anormalidades em um trabalho de parto? Para um diagnóstico preciso dos eventuais problemas que podem acometer cabras e ovelhas durante o trabalho de parto (as chamadas distocias ou parto distócico, tema do próximo radar técnico) torna-se necessário o conhecimento prévio dos principais componentes e características de um parto normal. Nesse sentido, o objetivo dessa matéria é apresentar de forma simplificada as principais características de um parto normal em pequenos ruminantes para que possíveis alterações nos padrões classificados como normais ou fisiológicos, sejam prontamente identificados por técnicos e pecuaristas.

Parto normal

O trabalho de parto pode ser definido como o processo fisiológico através do qual o feto e seus envoltórios fetais são expulsos do útero materno, envolvendo a interação de inúmeros fatores principalmente de origem neuroendócrina, que acarretam uma série de modificações no funcionamento do corpo da fêmea gestante (LANDIM-ALVARENGA, 2006).

A despeito dos inúmeros avanços científicos observados nas últimas décadas, o mecanismo responsável pela manutenção da gestação e início do trabalho de parto sofre uma grande variação (e não é totalmente compreendido) na grande maioria das espécies animais (JENKIN & YOUNG, 2004). O conceito mais atual considera que o "gatilho" inicial para o início do trabalho de parto é deflagrado pelo próprio feto e não pela fêmea gestante (SENGER, 2005).

De acordo com esse conceito, é provável que com o avançar da gestação paulatinamente aumentariam os requerimentos fetais por nutrientes e por espaço dentro do útero para que o feto continue se desenvolvendo. Em virtude da limitação física (incapacidade uterina em se dilatar ainda mais) e fisiológica (aumento da demanda e queda relativa na disponibilidade de glicose e oxigênio) imposta ao desenvolvimento fetal, o novo produto é submetido a um estado de intenso estresse.

Como resultado do estímulo estressante ocorre uma grande produção de cortisol (ou hormônio do estresse) que é responsável por estimular a conversão de progesterona (hormônio envolvido na manutenção da gestação) em estrógeno e prostaglandinas, hormônios que por sua vez desencadeiam o início do trabalho de parto por estimularem o relaxamento e dilatação da cérvix e contração uterina (DAVIDSON & STABENFELDT, 1999). Sendo assim, o aumento da produção de cortisol fetal, iniciado cerca de trinta dias do início do parto, representa o principal mecanismo para o início da parturição em ovinos e caprinos.

Fases do parto

Após o desencadeamento endócrino do parto, inicia-se o processo abrupto que culmina com a expulsão fetal. Nesse sentido, a parturição pode ser dividida em três fases:

Fase prodrômica ou de preparação: A fêmea gestante começa a se preparar para o início do trabalho de parto, apresentando relaxamento de ligamentos e músculos pélvicos e da garupa, edema de vulva e aumento do volume do úbere condizente com a produção de colostro. Tais alterações morfológicas são acompanhadas por mudanças comportamentais que servem de indicativo quanto a proximidade do parto. De acordo com Ramirez et al., (2005), os principais sinais exteriorizados por cabras cerca de 1 hora antes do início do trabalho de parto incluem àqueles relacionados ao progressivo aumento da inquietação como permanência em estação, vocalização e movimentação constante do corpo e cabeça, além do isolamento do restante do rebanho que pode ocorrer prematuramente a partir de 8 horas antes do início do parturição. Os mesmos autores não observaram diferenças no comportamento pré-parto de cabras apresentando gestações únicas ou gemelares, resultados semelhantes aos reportados por Romano & Piaggio, (1999). Esse período apresenta uma duração média de duas a seis horas para cabras e ovelhas, e o seu final geralmente coincide com o início das contrações uterinas expulsivas.

Fase de dilatação da via fetal: Em virtude do início das contrações da musculatura uterina que começam irregulares e pouco intensas passando a rítmicas e enérgicas com a evolução do parto (LANDIM-ALVARENGA, 2006), o feto começa a se insinuar através do canal do parto havendo dilatação da cérvix. Uma vez que a cérvix é aberta e o feto avança em direção ao canal pélvico, as contrações da musculatura uterina tornam-se menos importantes para a expulsão fetal que passa a depender da pressão abdominal expulsiva (DAVIDSON & STABENFELDT, 1999). Essa fase apresenta uma duração média de 30 minutos a duas horas em pequenos ruminantes, culminando com a exteriorização das bolsas fetais.

Fase de expulsão: Iniciada com o rompimento das bolsas fetais que conferem a lubrificação necessária para ocorrência do parto; tem duração média de 30 minutos até 8 horas, sendo caracterizada pela expulsão do produto e dos anexos placentários (LANDIM-ALVARENGA, 2006).

Figura 1 - Exemplos da evolução do trabalho de parto em ovinos. A: Final da fase de dilatação da via fetal com exteriorização das bolsas fetais. B: fase de expulsão do produto.


*Adaptado de www.flickr.com/photos/baalands2008.



A duração do trabalho de parto é variável entre as diferentes espécies animais, sendo o seu conhecimento indispensável para a identificação de partos demasiadamente demorados que configuram a distocia, emergência clínico-reprodutiva com sérias implicações para a saúde e viabilidade do produto, assim como para a matriz (SENGER, 2005). O momento de ocorrência do parto também difere entre as espécies, podendo ocorrer uniformemente ao longo de todo o dia no caso da ovelha, ou apresentando uma maior concentração nos períodos de maior luminosidade (maior incidência de partos concentrados ao meio dia) no caso de caprinos (ROMANO & PIAGGIO, 1999).

Em suma, o conhecimento das principais características relacionadas ao parto de ovinos e caprinos se faz necessário para que técnicos e pecuaristas possam identificar prontamente situações de anormalidade, auxiliando na tomada de decisão pela intervenção ou busca por ajuda especializada em tempo hábil para garantir a preservação da saúde geral e reprodutiva da matriz, atuando decisivamente na sobrevivência de cordeiros e cabritos, foco principal da grande maioria dos sistemas de produção.

Referências bibliográficas

CRESPILHO, A.M. Perda embrionária em caprinos - Parte 1. FarmPoint - Ovinos e Caprinos, 21/09/2009. Radar Técnico de Sanidade. Disponível em: www.farmpoint.com.br/sanidade. Acesso em: 11/07/2010.

JENKIN, G., YOUNG, I.R. Mechanisms responsible for parturition; the use of experimental models. Animal Reproduction Science, v.82-83, p.567-581, 2004.

DAVIDSON, A.P., STABENFELDT, G.H., Gestação e Parto. In___.CUNNINGHAN, J. G. Tratado de Fisiologia Veterinária. [S. L.]: Guanabara koogan, 1999. Cap.37, p.377-384.

LANDIM-ALVARENGA, F. C. Parto Normal. In___.PRESTES, N.C., LANDIM-ALVARENGA, F.C. Medicina Veterinária - Obstetrícia Veterinária, [S. L.]: Guanabara Koogan, 2006, p.82-96.

RAMIREZ, A., QUILES, A., HEVIA, M. et al. Behavior of the Murciano-Granadina goat in the hour before parturition. Applied Animal Behaviour Science, v.44, p. 29-35, 1995.


ROMANO, J.E., PIAGGI, J. Time of parturition in Nubian goats. Small Ruminant Research, v.33, p. 285-288, 1999.

SENGER, P.L. Placentation, the Endocrinology of Gestation and Parturition. In___. Pathways to Pregnancy to Parturition. 2.ed. Washington: Current Conception Inc, 2005, Cap. 14, p.314-334.

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo:

André Maciel Crespilho    Santana de Parnaíba - São Paulo

Pesquisa/ Indústria Farmacêutica

Avalie esse conteúdo: (5 estrelas)

Comentários:

Guilherme Gerhardt

São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Estudante
postado em 19/07/2010

Somando-se os períodos mínimo e máximo das fazes de parto comentadas temos uma grande variação que varia de 3h a 16h, como saber se o parto está ocorrendo dentro da normalidade?

Att.
Guilherme Gerhardt

André Maciel Crespilho

Santana de Parnaíba - São Paulo - Pesquisa/ Indústria Farmacêutica
postado em 20/07/2010

Prezado Guilherme,
ÓTIMA PERGUNTA, OBRIGADO!

Na verdade os intervalos realmente são muito variáveis o que muitas vezes acaba por dificultar a avaliação de um transcurso normal. Além disso, em muitas situações não conseguimos definir com clareza as 3 fases do parto pois as mesmas podem ocorrer simultanemente (fêmea inicia comportamento de parto apenas no momento em que se inicia a expulsão do produto, por exemplo). Não podemos esquecer que a divisão do parto em fases representa um "guia" mas não uma "regra" para todas as situações! O próximo radar técnico irá abordar os principais problemas que podem ocorrer durante o parto normal, as chamadas distocias, e iremos elucidar com mais detalhes como identificar as situações que fogem da normalidade...O que podemos adiantar é que as duas principais posturas do profissional na interpretação dos achados da parturição correspondem a evolução do parto como um todo (já que iniciado o trabalho ele obrigatoriamente deve evoluir para o parto) e o bom censo indispensável na interpretação dos achados. Por exemplo, se uma fêmea inicia as contrações expulsivas (fase 2) e nenhuma evolução é observada no intervalo de 2 horas é chegada a hora de intervir. Se houve exteriorização dos anexos fetais sem evolução expulsiva não podemos esperar 8 horas (intervalo máximo de tempo da fase 3) para intervir pois a vida do produto está em risco. No próximo radar abordaremos "quando o parto torna-se um problema" para garantir maior clareza para esses e outros exemplos que daremos. Espero que tenha conseguido responder sua questão.
Att.
André

Nei Antonio Kukla

União da Vitória - Paraná - Consultoria/extensão
postado em 28/07/2010

Prezado André:
Tenho observado que algumas ovelhas apresentam inchaço na vulva e aumento considerável do úbere, muitas vezes até com corrimento já o que entende-se o início de trabalho de parto. Ocorre, que um dia após esses sintomas, o inchaço da vulva diminui e não há a expulsão do feto. É momento de fazer uma intervenção?

André Maciel Crespilho

Santana de Parnaíba - São Paulo - Pesquisa/ Indústria Farmacêutica
postado em 05/08/2010

Prezado Nei, Obrigado pela pergunta! Para que tomemos a decisão sobre a intervenção ao parto devemos nos certificar de que realmente a matriz está a termo (salientando a necessidade de um efetivo controle de coberturas, inseminações e realização de diagnóstico de gestação através da ultrassonografia - só assim teremos informação precisas sobre o tempo gestacional e momento esperado para o parto) e que realmente ela entrou em trabalho de parto (início das fases I e II citadas a cima sem que haja nenhuma evolução da parturição). Observadas as condições listadas a cima preconiza-se que o parto seja assisitido e em alguns casos, que receba intervenção. Caso contrário, podemos interpretar o edema de úbere que regride expontâneamente e o corrimento vaginal como um quadro de aborto por exemplo, e não o início de um parto normal, não havendo a necessidade de nenhuma intervenção obstétrica.
Att.
André

josé constantino da silva neto

Aurora - Ceará - criação de ovinos
postado em 29/03/2012

naõ tenho experiência ainda na criação de ovelhas(sta.inês e o carneiro dorper)e uma ovelha de 1 cria pariu dois borregos com intervalo de 01h mais 01h para expulsar a placenta,mas ela continua irrequieta e com pequeno sangramento.e com gemidos é normal?.

Envie seu comentário:

3000 caracteres restantes


Enviar comentário

Copyright © 2000 - 2012 AgriPoint Consultoria Ltda. - Todos os direitos reservados

O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido ou transmitido sem o consentimento expresso da AgriPoint.

Consulte nossa Política de privacidade.