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Resistência à mudanças: entrave da ovinocaprinocultura

Por Neyd M M Montingelli
postado em 05/03/2009

5 comentários
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Quando eu fiz o meu primeiro curso de queijos no Cândido Tostes, havia uma história de um rapaz de 18 anos que era do interior da Bahia e que estava aprendendo para poder sair de sua pequena cidade e ir trabalhar em um grande laticínio em uma cidade maior, apesar dos pais serem criadores de cabras de leite.

Ele dizia que os pais jamais iriam mudar o pensamento deles. Jamais iriam fazer um queijo que não fosse naquele saco de algodão lavado no rio. Jamais deixariam de ordenhar as cabras lá no sol, naquelas latas que o próprio pai havia feito de restos de lata de óleo, sem higiene apropriada. Mas a venda daquele leite e dos queijos haviam criado 7 filhos, mandado todos eles para a escola e este, que era um dos mais novos estava agora aprendendo que tudo o que os pais fizeram para os sustentar estava completamente errado. E agora?

Como esse filho vai chegar em casa e dizer para os pais que eles não podem mais tirar o leite naquelas latas? Que o queijo não pode mais ser feito naqueles sacos porque com certeza está contaminado? Como que este filho ingrato vai chegar lá e falar tudo isso?

Por isso, por essa falta de coragem, pela gratidão e amor que sentia pelos pais, ele resolveu que assim que terminasse o curso, iria trabalhar no laticínio na cidade grande, juntar dinheiro para poder comprar uns latões de leite, umas formas de queijo e dar de PRESENTE aos pais e não ENSINAR aos pais, pois isso seria uma ofensa.

Se um técnico rural fosse até esta propriedade e visse a ordenha e a forma de fazer os queijos ficaria horrorizado. Mas, como fazer para mudar um produtor rural que criou 7 filhos com esta forma sem higiene de ordenhar e fazer queijos?

Eu já dei aulas de ordenha manual, fiz até um úbere de pano cheio de sementes de linhaça para ensinar a manusear as tetas das cabras. Esta parte era fácil e os aspirantes a ordenhadores divertiam-se nas aulas teóricas e até acertavam na prática. O difícil era acertar na hora de lavar as mãos e conservá-las apenas na área de ordenha.

Aí está o começo da resistência à mudanças. Como conseguir modificar um comportamento pessoal aprendido desde a infância?

APPCC ou PAS são projetos com objetivos de obter segurança alimentar sempre. Esta é a evolução esperada. Mas para o nosso homem do campo, que muitas vezes agora que conseguiu comprar um freezer, temos que ir devagar. Notem que não estou falando em 'agora que chegou a energia elétrica' ou 'água potável', porque este produtor não produz leite suficiente para venda e sim para sua própria subsistência. O produtor que tem 10 ou mais animais, já tem leite suficiente para venda para um laticínio, portanto precisa produzir com qualidade, senão o leite será devolvido.

Como seria a abordagem de um profissional ao chegar em uma propriedade como aquela da história para tentar modificar o comportamento do produtor para que a ordenha fosse feita com mais higiene, em outro local, com outros utensílios ou pelo menos lavando o úbere das cabras?

Para o problema nacional de resistência à mudanças, temos solução?

A resistência à mudanças é o maior entrave para o desenvolvimento da nossa atividade. Apesar dos jovens estarem saindo das propriedades para estudar novas técnicas, aprender novas formas de trabalho, infelizmente, são poucos os que voltam para o campo para aplicar este conhecimento na propriedade dos pais. Por menor ou maior que seja a propriedade. A vida nos grandes centros tem mais brilho do que os latões de leite bem areados de suas casas.

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Neyd M M Montingelli    Curitiba - Paraná

Pesquisa/ensino

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Comentários

Manuel Cesario

Franca - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 06/03/2009

Parabéns, creio que a autora deste artigo reproduziu com muita fidelidade o problema que muitos de nós, criadores abertos a aprendizado e mudanças, enfrentamos ao lidar com nossos funcionários, não tão abertos ao aprendizado e as mudanças. Gostaria de obter mais informações sobre treinamentos, para proprietários e funcionários, relativos à atividade leiteira (para produção de queijos) na ovinocaprinocultura.

Neyd M M Montingelli

Curitiba - Paraná - Pesquisa/ensino
postado em 06/03/2009

Prezado Manuel Cesario,

Agradeço a sua carta. O seu problema é o de muitos pelo Brasil. É um pouco difícil mudar o comportamento daqueles que estão acostumados com uma rotina fácil de lavar "mais ou menos" as mãos ou os utensílios. Ou então lavar "só com água" aquilo que vão usar para a ordenha. Quanta paciência!

Para cursos específicos de higiene e ordenha procure a Associação de Criadores de sua região. Eles devem ter um curso ou podem providenciar. Caso não tenha Associação, o seu Veterinário poderá promover um dia de campo só com instruções básicas de higiene pessoal, de utensílios e de ordenha. Aqui em Curitiba pelo menos, funciona assim.

Neyd M M Montingelli

Curitiba - Paraná - Pesquisa/ensino
postado em 06/03/2009

Prezada Cynthia Fernandes,

Cynthia, o problema é grande e precisamos da ajuda de todos. Coloquei o assunto justamente para que todos tragam sugestões. Eu enfrentei casos assim quando tinha o meu laticínio e era muito difícil você ter que devolver o leite de um produtor pobre que precisava do dinheiro, mas eu não aceitava que o que ele estava fazendo, para a qualidade do meu leite não servia. Mas a minha realidade era diferente da dele. E eu devolvia o leite e ia até a pequena propriedade pessoalmente, várias vezes, explicava, ensinava.

Cheguei a levar o produtor e a família para visitar outros produtores simples e pobres como ele, para mostrar como deveria ser a ordenha higiênica.
Infelizmente, alguns desistiam de entregar o leite para mim ou eu recusava terminantemente de receber o leite, outros desistiam até da atividade.
Tipo: prefiro não criar mais cabras, mas não lavo as mãos OU prefiro vender o leite na garrafa Pet mas não vou lavar os latões com cloro.

VLADIMIR PEREIRA FARIAS

Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Produção de ovinos
postado em 06/03/2009

Olá Neyd,

É como diz o ditado: "pau que nasce torto, depois de morto, até a cinza é torta". Acredito ser uma questão cultural e, mudar a cultura de um grupo de pessoas não é fácil.

Teríamos que trabalhar em duas frentes diferentes: a primeira, atuando na raíz do problema, ou seja, ensinando o caminho correto para quem está começando na atividade, mostrando o por quê e as vantagens em se fazer deste jeito (o correto) e o por quê e as desvantagens em não se fazer daquele jeito (o errado) - se endireitarmos o galho enquanto ele ainda é verde e novo, ele crescerá da forma que desejarmos.

A outra frente, talvez a mais complicada, mas não impossível, seria fazer um trabalho de reeducação com aqueles que não acompanharam a evolução das coisas, as novas tecnologias, práticas, necessidades e exigências de quem consome seus produtos.

As pessoas resistentes geralmente só se convencem de que estão equivocadas quando vêem na prática as consequências de algo feito de forma errada (no seu exemplo, lavar o queijo no rio em um saco de algodão). Você já imaginou pegar o saco depois de um "banho de rio", colocá-lo em um microscópio e mostrar ao produtor em questão o que estava misturado ao seu queijo? Pegue um pedaço do queijo e coloque no microscópio depois de algumas horas.

Será que ele comeria esta colônia de bactérias? Tenho certeza que, se quando fez o primeiro queijo de sua vida, pudesse ter acesso a este tipo de informação, ele teria criado seu filhos da mesma forma, porém vendendo um produto muito mais saudável.... ONDE QUERO CHEGAR? EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO.... É DISSO QUE ESTE PAÍS PRECISA!!!

Pessoas ensinando pessoas a fazerem as coisas certas.

Neyd M M Montingelli

Curitiba - Paraná - Pesquisa/ensino
postado em 17/03/2009

Prezado Vladimir Pereira Farias,
Vladimir, você escreveu com as palavras certas!
Temos que formar multiplicadores de pessoas que fazem as coisas certas.
Levar a informação pelo menos.
Já pensou quanta cabra vai deixar de compartilhar suas bactérias se o ordenhador souber que a cabra com mastite deverá ser ordenhada por útimo e o leite desprezado?
Neyd Montingelli
Curitiba/Pr

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