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Bioeletricidade - eficiente e sustentável

Por Marcos Sawaya Jank
postado em 21/06/2007

6 comentários
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O São Paulo Ethanol Summit, organizado pela União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) na semana retrasada, chamou a atenção para três aspectos do setor sucroalcooleiro: 1) O enorme interesse despertado pelo evento (mais de 1.500 participantes de vários países); 2) a liderança brasileira na corrida global da eficiência agroenergética; 3) o fato de o agronegócio já ter ultrapassado a fronteira dos alimentos, bebidas e fibras. O evento concentrou-se no novo paradigma dos combustíveis renováveis e produção de energia elétrica a partir de biomassa, a chamada bioeletricidade. Hoje tratarei desta nova fronteira do agronegócio, ainda pouco conhecida pela sociedade brasileira.

Todo mundo se lembra do apagão elétrico de 2001, que custou caro aos consumidores finais, às empresas e à popularidade do governo FHC. A despeito dos investimentos realizados nos últimos seis anos, se o Brasil crescer mais de 4% ao ano, o risco de apagão continuará rondando a sociedade, podendo ocorrer antes do final da década.

Uma das melhores alternativas para mitigar esse risco potencial é a co-geração de energia a partir de biomassa renovável. A possibilidade mais concreta neste campo é o uso do bagaço e da palha da cana-de-açúcar, que juntos representam uma parcela subutilizada de dois terços da energia contida na planta, já que açúcar e álcool são gerados unicamente a partir do suco da cana. Montanhas de bagaço de cana se acumulam nos pátios de usinas, hoje parcialmente utilizado para gerar a auto-suficiência energética das unidades processadoras de cana para produção de açúcar e álcool. Ademais, um terço da energia da cana presente nas palhas e nos ponteiros é desperdiçada em decorrência do corte manual, que exige a queima da cana no campo.

Antes do racionamento de 2001, o potencial de exportação de bioeletricidade para a rede elétrica era de ínfimos 120 megawatts (MW). Hoje a potência instalada e contratada para exportação já atinge 1.650 MW, o que ainda representa módicos 2% das necessidades do País. Estima-se que, se utilizássemos somente 50% da biomassa disponível na cana-de-açúcar, seria factível expandir o uso de bioeletricidade na matriz elétrica para 8% das necessidades nacionais até 2012, ou seja, 9 mil MW, equivalentes à energia prevista para ser gerada nos polêmicos projetos hidrelétricos do Rio Madeira.

O mais interessante é que a bioeletricidade se encontra disponível no coração da região de maior consumo do País - o Estado de São Paulo, que responde por 62% da produção nacional de cana. Melhor ainda, esta produção ocorre durante a safra da cana, de maio a novembro, que corresponde ao período seco, de menor hidrologia e de maior demanda por eletricidade.

Outras vantagens são o fato de se tratar de energia 100% renovável, de baixo impacto ambiental, fartamente disponível no pátio das usinas, que possibilita mitigar a emissão de gases de efeito estufa, enquadrando-se no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), com direito a receber créditos de carbono. Um programa estruturado de bioeletricidade pode produzir investimentos superiores a R$ 13 bilhões no Estado até 2015, gerando mais de 50 mil empregos e a compra de R$ 9 bilhões em equipamentos, componentes e peças para a instalação das centrais de co-geração, produzidos principalmente pela indústria paulista.

Vale notar que as centrais de bioeletricidade têm custos de implantação inferiores aos das usinas termo e hidrelétricas, demandando menor tempo para a sua construção (inferior a 30 meses) e possibilitando menores custos de transmissão para a rede elétrica. Se pudermos ainda aproveitar as palhas e os ponteiros com o fim da queima da cana (em São Paulo, prevista para 2014 nas áreas mecanizáveis e 2017 em áreas não-mecanizáveis), poderíamos ampliar a produção de bioeletricidade para 20% da matriz elétrica brasileira no horizonte de 2020, ou mais de 20 mil MW, equivalentes a duas usinas do porte de Itaipu!

O Brasil possui tecnologia de ponta para atuar no mercado de energia limpa, de forma competitiva e sustentável. Ocorre, todavia, que ainda há importantes ajustes a serem feitos pelo poder público, que hoje impedem a obtenção de retornos compatíveis que gerem um ritmo sustentado de expansão da oferta de bioeletricidade. São três os problemas centrais: 1) A definição de critérios econômicos para uma valoração adequada dessa nova forma de energia, seja no que tange aos níveis de preços, seja na definição de metodologia única, justa e transparente para os leilões de energia, que de fato reconheça a importância da bioeletricidade como energia complementar à sazonalidade hidrelétrica; 2) as dificuldades de acesso e conexão das centrais às redes elétricas; 3) a outorga difícil e morosa do licenciamento ambiental dos projetos.

A bioeletricidade é uma das maiores fronteiras da indústria sucroalcooleira nacional e pode gerar uma revolução de magnitude semelhante à obtida com o etanol. Ela pode reduzir fortemente a necessidade de licenciamento de novos projetos hidrelétricos em regiões ambientalmente sensíveis, o risco de termos de reingressar na energia nuclear e o custo ambiental dos projetos termoelétricos à base de gás natural, óleo combustível e carvão, mais caros e poluentes.

De fonte alternativa de energia pouco valorizada, a bioeletricidade pode-se tornar a maior esperança do País para gerar oferta de energia elétrica renovável, barata e sustentável ambiental e socialmente. Não se trata de mágica, mas apenas de racionalizar produtos e processos a partir de um melhor uso de recursos subutilizados e do know-how de que dispomos. Para isso será necessário desenvolver mecanismos regulatórios racionais e duradouros, que garantam tanto a sustentabilidade econômica do setor sucroalcooleiro como as necessidades energéticas de longo prazo da Nação.

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Marcos Sawaya Jank    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Paulo Varela Sendin

Londrina - Paraná - Consultoria/extensão rural
postado em 25/06/2007

Muito importante a abordagem e divulgação desse aspecto da cadeia sucroalcooleira. Fora do setor, é muito raro encontrar alguém que saiba que a cana também produz energia elétrica...

A idéia de se valorizar também a palhada e as pontas da cana, ao se evitar as queimadas, abre a perspectiva de um retorno adicional que, eventualmente permitiria um pagamento adequado ao corte manual da cana crua, minorando o problema do desemprego que será criado quando se chegar à totalidade do corte mecânico.

Essas idéias inovadoras precisam ser formuladas e discutidas no setor e fora dele, de forma a manter a tradição de inovação tecnológica dessa indústria, que só agora começa a ser reconhecida.

Parabéns ao autor e à AgriPoint pela divulgação.

Paulo Varela Sendin, EngºAgrº
Londrina PR

Paulo Sebastião Paes Leme

Quirinópolis - Goiás - Produção de leite
postado em 28/06/2007

Soluções existem, e muitas, para suprir as necessidades de energia elétrica, evitando que haja novos apagões e novas cobranças de taxas emergenciais, como já verificado.

O que nos falta é vontade política para mandar desenvolver as pesquisas e estudos, o que falta é humildade para ver nos restos de usinas de álcool, produto da cana interiorana, produto de fazenda, primário, parte da solução para o desenvolvimento nacional.

Angra 3 provoca discussões, coloca o governo no cento das atenções dos brasileiros e dos estrangeiros, provavelmente muito interessados, porque aí entrarão com suas tecnologias, seus financiamentos, seu mando em questões que deveriam ser resolvidas exclusivamente pelos nacionais.

Temos bagaço de cana, bacias hidrelétricas sub ou não utilizadas, energia solar, eólica, lixo não trabalhado, por que não esgotar alternativas e possibilidades, antes de partir para a energia poluidora e perigosa de uma Angra 3 no Brasil, sem lei, sem autoridade e consequentemente sem ordem ou preparando a desordem política e social?

Everton Molina Campos

Ribeirão Preto - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 02/07/2007

Como sempre mais um artigo excelente do prof. Jank.

Por mais evoluído que seja, ainda estamos engatinhando frente ao potencial de crescimento na área de bionergia.

Para o setor lácteo e precisamente na produção projetos de crédito de carbono apresentam grande potencial e precisa ser explorado.

Att.

Everton Molina Campos
PricewaterhouseCoopers

Joseph H. Kramer

Angatuba - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 12/07/2007

Quando gente fale em biomassas, lembramos de bagaço de cana para queima. Existem muitos, temos dois tipos ricos em lignina e outros em matéria orgânica. Imagina este de matéria orgânica que pode ser transformado em gás e depois em eletricidade - 1kg de m.o. seco produz um metro cúbico de biogás que pode produzir de 1,8 até 2,5 kWatt.

Hoje o biogás no lixões não é aproveitado de forma eficiente. Temos resíduos no campo ricos em lignina, não só bagaço de cana, mas resíduos de outras culturas e podem, com um investimento baixo, se transformar em um biocombustível eficiente e renovável.

Tenho feito algumas projetos neste sentido. E prduzindo um combustível para queima mais barato.

J.H.Kramer
Consultor agropecuário em combustíveis alternativos renováveis

Renato S. Machado Pompéu-Mg

Pompéu - Minas Gerais - Consultoria/extensão rural
postado em 21/07/2007

A diferença entre as técnicas para produzir energia limpa e renovável e a prática é uma coisa medonha.
Poderíamos ter uma matrriz energética mundial mais ecológica, mas na hoje continuamos a destruir nosso planeta.

Espero que a sociedade acorde a tempo e se consientize.

Edgar Cristiano Höfig de Castilho

Andradina - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 21/08/2007

Com a introdução do Pró-Alcool na década de 70, cogitou-se a obrigatoriedade das usinas de álcool utilizarem seu próprio combustível nos trabalhos agrícolas e transporte da cana até usina.

Na época isto não vingou, creio que devido ao elevado consumo dos motores. Mas por que, agora, com a introdução do biodiesel, as usinas não buscam a sua auto-suficiência, a exemplo do que está fazendo hoje o Grupo Bertin?

E as termo-elétricas também, alimentadas a biodiesel, muito poderiam contribuir para o aumento da produção de eletricidade, e diminuição do consumo de combustíveis fósseis.

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