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Agricultura "fashion" (II)

Por Carlos Arthur Ortenblad
postado em 29/05/2007

1 comentário
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De volta do spa, com a cintura consideravelmente mais esbelta (vamos ver quanto tempo dura!), retomo o tema do meu artigo anterior, publicado no BeefPoint em 08 de maio, quando tratei de "Agricultura Orgânica".

Dentro dos conceitos em voga de "comida ética" ou "agricultura ética", hoje vou escrever sobre o sistema Buy Local (comprar alimentos no local onde ele é produzido), um negócio de apenas US$ 1,4 bilhão por ano (2005), mas em processo acelerado de crescimento, principalmente na Europa e na América do Norte (aumento de 37% de 2004 para 2005).

O que é Buy Local?

Pessoas avessas a grandes empresas, que detestam a globalização, e preocupadas com emissão de CO2 - parecem ter encontrado resposta no sistema Buy Local. A compra direta de comida aos produtores locais, eliminaria a intermediação de grandes empresas, boa parte delas transnacionais, e, em conseqüência combateria a globalização. E eliminando intermediários, favoreceria os agricultores. De quebra, diminuiria emissão de gases poluentes, pois comprando localmente, os consumidores se deslocariam menos. Claro como água, não é? Infelizmente, não.

Extenso estudo realizado no Reino Unido [1] mostra que o conceito de Buy Local, por mais bem intencionado que seja, apresenta falhas substanciais:
• Inicialmente, mesmo em pequenas cidades européias, japonesas ou americanas, a maioria das pessoas mora mais perto de um supermercado, que de uma eventual feira de agricultores.
• Em segundo lugar, mesmo que assim não fôsse, ainda teriam que se deslocar ao comércio mais próximo, para se abastecer de outros produtos essenciais, que não verdura, legumes e carnes.
• Em terceiro lugar, o transporte de comestíveis em grandes caminhões poupa mais energia, do que a que consumidores individuais gastam, quando agregada, ao praticarem o Buy Local.
• E, em alguns casos, o favorecimento aos agricultores locais - já altamente subsidiados pelos seus governos - poderia vir a prejuízo do Fairtrade, conjunto de medidas e conceitos cujo objetivo é ajudar agricultores pobres de países em desenvolvimento (e que será o 3°, e talvez último tema de Agricultura "Fashion"), pois desestimula consumidores de países ricos a comprarem de países pobres.
[1] DEFRA Report, UK 2005

Um trabalho realizado na Nova Zelândia, com participação de técnicos da União Européia[2], demonstra que, por incrível que pareça, a compra de carne de ovelha, maçãs, cebola e produtos lácteos, produzidos na Nova Zelândia, e transportados até a Grã-Bretanha, consome menos energia (e, por conseqüência, menos poluentes), que a produção local. Isto porque o sistema produtivo neozelandês é, por diversas razões, muito menos intensivo em uso de energia, que o inglês.
[2] Lincoln University, NZ

Os adeptos do Buy Local estão um passo à frente dos entusiastas de Agricultura Orgânica, no quesito "politicamente correto", pois se a agricultura orgânica pode ser (e, em grande parte é) produzida por grandes corporações, o Buy Local necessariamente boicota grandes empresas. O auge da "modernidade" mesmo, seria consumir alimentos orgânicos produzidos localmente.

Assim descrito e analisado, os adeptos do Buy Local parecem inocentes úteis: bem intencionados, mas irrelevantes. Já foram, maldosamente, comparados aos cavaleiros templários da Idade Média, à procura inalcançável do Santo Graal. Não são. São cidadãos conscientes, que procuram dar sua contribuição individual àquilo que lhes parece mais correto, seja do ponto de vista sócio-econômico, seja ambiental.

Mas a solução para estes problemas está na esfera dos governos, não na dos indivíduos. Enquanto não houver diminuição da imensa cadeia de cotas, tarifas e barreiras diversas, concedidas pelos países desenvolvidos - da Europa principalmente - a seus ricos, e nem sempre eficientes agricultores; enquanto não houver cobrança de uma taxa mundial punitiva para emissão de gases que causam efeito estufa; e enquanto não houver reforma séria no sistema de comércio internacional, os conceitos de "agricultura fashion" permanecerão sendo apenas isso: galantes iniciativas individuais, capazes de aplacar consciências pessoais, mas não de fazer um mundo melhor.

Um pequeno adendo:

Assim como o Mundo dá voltas, conceitos também mudam, e não há vergonha nenhuma nisso. Afinal, como disse Alexandre Herculano "Só não muda de opinião quem não as tem". Refiro-me às recentes declarações de conhecidos e insuspeitos ambientalistas:
• Admitindo que o uso de energia nuclear é mais "limpa", é menos agressiva ao Meio Ambiente", que a oriunda de hidrelétricas. Estas, além de inundarem vastas áreas, têm grande impacto sobre fauna e flora locais.
• Considerando como possivelmente aceitável, o uso de sementes geneticamente modificadas ou melhoradas (transgênicas), que produzissem plantas mais resistentes e produtivas, via-a-vis às alterações climáticas causadas pelo aquecimento global.

Irônico, não?

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Carlos Arthur Ortenblad    Rio de Janeiro - Rio de Janeiro

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Andre Zanaga Zeitlin

São Paulo - São Paulo - OUTRA
postado em 01/06/2007

Prezado Carlos,

Dois alunos de mestrado em administração de empresas aqui de Davis, Califórnia, apresentaram recentemente um trabalho sobre o conceito de "buy local" em disciplina de Responsabilidade Social das Corporações (Corporate Social Responsability).

Uma de suas conclusões foi que a simples redução na "milhagem" viajada pelos alimentos não é suficiente para reduzir significativamente a emissão de CO2. É preciso gerar incrementos na eficiência energética de produção, processamento e transporte dos alimentos.

Como você bem sugere, mais do que "buy local" deveria-se "buy from the eficient", derrubando-se barreiras de comércio e taxando-se a ineficiência energética e ambiental.

Ao imporem taxações crescentes a produtos de maior valor agregado, os países importadores geram a distorção de ser mais barato transportar enormes volumes de commodities ao invés de pequenos volumes de produtos acabados.

Saudações,

Andre Zeitlin

PS: Quanto a energia nuclear gostaria de perguntar:
1. Como é feita a avaliação de risco de acidente nuclear?
2. Qual é a proposta atual para manejo dos resíduos radioativos do processo?

Resposta do autor:

Prezado André,

Na minha opinião, a conclusão a que os alunos de mestrado em administração em Davis (Califórnia, EUA) chegaram, quanto ao Buy Local, está corretíssima.

Abandonando, porém, meu lado racional, devo confessar que acho enternecedor que pessoas se desloquem a feirinhas regionais - para prestigiar produtores locais - mesmo tendo de ir depois a um supermercado para se abastecerem de outros itens. Naturalmente, terminam por gastar mais combustível, e, assim, aumentar a emissão de CO2. Mas o gesto e o "commitment" são importantes.

Quanto a energia nuclear, pouco posso te acrescentar. Como tenho medo, pânico de um "Chernobyl" brasileiro, principalmente morando relativamente perto das usinas de Angra I, II e III, fui visitar uma delas (não me lembro qual) levado por um amigo que trabalhava na Nuclebrás. Aparentemente, o sistema de segurança demonstra eficiência, como vários "checks and balances" à cada etapa, e, em áreas mais vitais, com duplos e triplos sistemas de travas e de alarmes. Mas, como disse um cidadão que estava no grupo: "Sei lá se esses relojinhos funcionam..."

Em relação ao "disposal of nuclear waste", até onde sei (e sei pouco), enterra-se em "tumbas" com proteção de chumbo, ou despacha-se para países de 3º Mundo que cobram para receber este indesejável hóspede. Lamento não poder te ajudar nesta matéria.

Abraço,

Carlos Arthur

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