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Âncora Verde

Por Xico Graziano
postado em 09/07/2014

8 comentários
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Toda a Nação, orgulhosamente, comemorou na semana passada os 20 anos do Real. Na história da moeda que serviu à estabilização da economia brasileira, um capítulo especial, a ser reconhecido, cabe à agropecuária. Sua capacidade de produção ajudou, decididamente, a segurar o preço dos alimentos. Âncora verde.

Excluindo quem vivia do mercado financeiro, tudo era muito difícil naquela época de inflação galopante. É verdade que, no campo, o agricultor ganhava com a valorização de seu principal patrimônio, a terra. Mas sua renda, que importa no bolso, regra geral se comprometia pelo controle existente seja no preço mínimo dos produtos agrícolas, seja nos preços do varejo. Todo governo teme a carestia e sonha com o alimento barato na mesa do povo. Sempre se esquecem, porém, da justa remuneração aos produtores rurais.

Existem características próprias do ciclo de produção no campo. Primeiro, a natural demora do crescimento vegetal, desde o plantio até a colheita ou, na pecuária, até completar o ciclo animal. Segundo, a sazonalidade da safra, em função da estação do ano, da época de chuvas e do calor. A indústria e o comércio enfrentam a inflação reajustando os preços rapidamente; no agro, tal procedimento é impossível. Aqui mora o perigo constante do descasamento entre custos e receitas rurais. A margem de lucro quase sempre fica com o intermediário.

A superinflação iludia. Os produtores rurais tomavam créditos que os endividavam sem perceber: juros sobre juros, correção monetária, mata-mata de empréstimos, cheque especial se misturando com capital de giro, perdia-se a verdadeira conta dentro daquela ciranda financeira. Na década de 1990, os sucessivos, e desastrados, planos econômicos do governo Collor complicaram a situação. Os bancos, espertamente, se aproveitaram das crises para imputar débitos irregulares na conta dos agricultores. O produtor financiava um trator, pagava várias prestações, mas quando ia apurar sua dívida, o extrato bancário indicava que ele, ainda, devia o valor correspondente a três tratores. Parece gozado, mas era uma tristeza.

Quando, finalmente, chegou a estabilização da moeda em 1994, a grande maioria dos agricultores nem sabia, ao certo, o tamanho de seu problema. Seu endividamento, porém, sem a fumaça da inflação, se tornou gigantesco. Para piorar, no início do Plano Real os contratos de financiamento foram corrigidos em cerca de 40%, sem nenhuma correspondência com os preços agrícolas. Nesse contexto, com a rentabilidade ameaçada e os bancos lhes apertando o calo, estourou a primeira grande manifestação pública dos ruralistas em Brasília, apelidada de “tratoraço”. O recálculo das dívidas bancárias era sua principal bandeira.

Na confusão, em meados de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou o atendimento de algumas reivindicações dos ruralistas, reconhecendo que a agricultura havia cumprido papel decisivo no êxito do Plano Real. “Só não posso aceitar o calote”, afirmou FHC. A frase tinha endereço certo: as sanguessugas do poder público, aqueles malandros que, em qualquer setor, se enriquecem com o dinheiro do Tesouro e depois inventam uma causa altruísta para exigir o “perdão” das dívidas. Nada a ver com a esmagadora maioria dos agricultores que protestavam. Porém, como soe acontecer, o discurso acabou distorcido, como se o presidente tivesse chamado, a todos, de caloteiros. E a opinião publica passou a condenar os ruralistas, acusando-os de querer mamata.

O professor Fernando Homem de Melo (USP), um dos maiores economistas agrícolas do país, acompanhava de perto os acontecimentos. Seus cálculos mostravam que entre 1984 e 1985 havia ocorrido uma “impressionante redução” de 25,8% na receita do setor agrícola vegetal, atestando que a choradeira ruralista partia de bases concretas. Verificara-se, de fato, uma deterioração na renda agregada da agropecuária, um forte tranco causado pela conjunção de vários fatores, incluindo a política cambial e a redução de tarifas na importação de certos produtos, como trigo e algodão. Vértebras quebradas.

O governo, impulsionado pelo Congresso Nacional, acertou nas medidas corretivas, principalmente ao promover a securitização (alongamento) de boa parte das dívidas, incluindo aquelas assumidas pelas cooperativas agropecuárias. Aos poucos as coisas foram se acomodando no campo, como de resto em toda a economia brasileira. Eliminado o monstro inflacionário, o esforço produtivo começou a render mais que a aplicação financeira. A moeda estável dera um golpe de morte no patrimonialismo. Doravante valeria o trabalho, o empreendedorismo, a tecnologia. O real mudou o Brasil.

Com o programa Moderfrota, operado através do BNDES a partir de 2000, os produtores rurais conheceram a maravilha da prestação fixa no financiamento de máquinas e implementos agrícolas. Ninguém, jamais, havia visto aquilo acontecer: você comprava uma colheitadeira, e pagava as prestações sempre com o mesmo valor. Agora banal, na época parecia um sonho.

Feita a transição, com muito sacrifício, a safra nacional de grãos bateu, em 1999, um recorde de 82,4 milhões de toneladas. Quatro anos depois, estabilizada a economia e arrumada a casa, a colheita da safra plantada no último ano do governo FHC atingiu 123,2 milhões de toneladas, vertiginoso crescimento de 49,5% em apenas quatro anos. A luz do futuro se acendera.

Hoje a agropecuária brasileira se superou: abastece o mercado interno e exporta para o mundo. A âncora verde continua ativa: o superávit na balança comercial agrícola, de U$ 83 bilhões, paga a conta das importações nacionais. Sem o campo, não se moveria a cidade.
 

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Xico Graziano    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Vicente Rodrigues

Goiânia - Goiás - Produção de leite
postado em 10/07/2014

Publique isto na grande imprenssa, mesmo como materia paga. O grande publico precisa saber. Vicente.

lucio martins costa

Frutal - Minas Gerais - Indústria de laticínios
postado em 10/07/2014

Excelente reportagem. Parabéns Xico Graziano.

Pablo Jonas Camilo

Nova Olímpia Nova Praia do Iguaçú - Paraná - Estudante
postado em 10/07/2014

Este artigo me fez lembrar de um dos ensinamentos de Ignácio Rangel, onde ele explica que a inflação é apenas o sintoma da doença, assim como a febre é o sintoma de uma infecção. Pensando nisso e analisando a conjuntura total das ações políticas dos governos Collor e FHC, que se renderam a "cartilha" neoliberal acredito que o sucesso do plano real só teve os resultados expostos acima por cobrar de outros setores da economia  como a indústria, alem do fato de que nos anos que seguiram o cambio flutuante tornam nossa moeda alvo de especulação do mercado financeiro, mas nos somos um país agrícola ok ok e como esta a situação de nossas commodities ?
Estabilidade econômica se deu de forma superficial, ao promover a abertura economia e garantir a festa para o capital especulativo, promovendo concorrência desleal em vários setores, ou fazendo da terra uma oportunidade para liquides de investimentos.
Acredito que o plano real foi a ação do governo que se livrou da doença matando o doente.  

Jurandi Lavor Rolim

Goiânia - Goiás - Economista/Bancário
postado em 10/07/2014

Muito bem colocado, Vicente.
Vale salientar que a balança comercial (importações/exportações) mostrou-se ao longo desses vinte anos, sempre superavitária, corroborando com a estabilização da moeda.

Vicente Rodrigues

Goiânia - Goiás - Produção de leite
postado em 10/07/2014

nao entendi os comentarios do pablo.esta confuso, misturandoalhis com bugalhos. estamos falando de progresso,aumentode riquezas, produtividade, modernidade,evolucao geral de todo um setor.tudo isso baseado em muito esforco e trabalho de gente com os pes no chao, que contaram com a ajuda de um governo bem intencionado, e competente.haja visto a ferramenta que estamos usando para interagirmos, o milkpoint, produto da evolucao das sacadas corretas desde aquela epoca.um abraco. vicente.

Pablo Jonas Camilo

Nova Olímpia Nova Praia do Iguaçú - Paraná - Estudante
postado em 11/07/2014

Caro Vicente, perceba bem suas excelentes colocações - progresso técnico, aumento de riquezas, produtividade, modernidade e evolução em todo o setor. Em minha opinião o sucesso da agropecuária brasileira e do agronegócio como um todo se deu a uma série de mudanças de nível técnico, como você bem colocou, ou seja o campo passou por profundas transformações ocorridas pelo avanço das forças produtivas que se apoderam cada vez mais da ciência, criando tecnologia, impulsionando o progresso técnico e consequentemente a produtividade geral dos fatores (terra, capital e trabalho). O que eu não concordo é atribuir o sucesso da agropecuária ao plano real e as politicas NEOLIBERAIS do governo FHC e Collor. Faço umas perguntas a qualquer leitor deste site sobre o governo bem intencionado.  O que aconteceu com o orçamento da Embrapa depois da década de 1990 ? Quem domina atualmente a pesquisa genética de de plantas e animais no Brasil ?
Insisto em dizer que o sucesso do plano real se deu através da entrada de capitais externos no país, o saldo da balança de capitais em 1995 era de 30,7 bilhões.  A sobrevalorização do real facilitou as importações e dificultou as exportações, para cobrir o furo da balança de mercadorias pegávamos empréstimos externos e estimulávamos os IED´s. Isso serviu para ampliar, pouco depois, o deficit na balança de serviços, onerada por crescentes remessas ao exterior de juros e rendimentos. Os juros em 1995 eram de 42,4% qual economia resiste a isso ?
Que tal consultar o aumento da dívida externa do Brasil na época.

Um tsunami seria menos nocivo para o Brasil...

Vicente Rodrigues

Goiânia - Goiás - Produção de leite
postado em 11/07/2014

nao contesto os numeros citados por vc,mesmo porque nao os tenho, nem tempo para pesquizar a respeito. o que sei e` que com o advento de um periodo em que podiamos planejar e trabalhar com seguranca ,fomos a luta e deu no que deu. sucesso absoluto de incremento de producao e sobras para reaplicarmos na atividade que estava, e ainda esta  dando retorno positivo. tudo isso so foi possivel com a estabilizacao da moeda.(plano muito bem bolado pela equipe do fhc). quanto a entrada de capitais na nossa economia isso foi muito bom. pois nao tinhamos poupanca para podermos trabalhar com folga,o que veio ocorrer e nos possibilitou a modernizacao de nossas ferramentas produtivas. agora, pagar o que devemos e` obrigacao.nao podemos dar calote em ninguem. precisamos e` de mais financiamento, venha de onde vier, vamos cumprir as regras e trabalhar que tudo da certo. o perigo atual e` o retorno da inflaçao.

Jurandi Lavor Rolim

Goiânia - Goiás - Economista/Bancário
postado em 14/07/2014

Creio estar havendo um desvirtuamento do contido no artigo do Sr. Graziano; pois ele está abordando o fato do progresso adquirido pelo setor agropecuário no Brasil na era pós plano real, com desenvolvimento tecnológico e consequentemente aumento de produtividade, que em contra partida tem gerado melhores condições à cadeia do agronegócio como um todo, proporcionado melhoria de renda ao produtor.
Quanto a outros problemas existentes no Brasil, são muitos e com vários índices de complexidade, mas não os conseguir vislumbrar na abordagem oportuna e muito bem elaborada do Sr. Graziano, o qual parabenizo.
Mesmo dentro da cadeia do agronegócio existem gargalos que ainda precisam de ajustes e/ou soluções, para que além da tecnologia e produtividade, o Brasil venha a apresentar também, competitividade no mercado internacional, o que é muito importante.

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