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Dorper: a raça ovina sul-africana como opção no cruzamento industrial - Parte I de II

Por Rafael C. M. Meneghini
postado em 17/02/2011

39 comentários
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Introdução

Todos nós sabemos que a escolha da raça ou grupo genético é fundamental ao sucesso de um sistema de criação de ovinos. É sempre recomendado que, para se eleger esta ou aquela raça, sejam ponderados aspectos relacionados ao local de criação e suas condições climáticas, as exigências nutricionais dos animais e a capacidade do sistema de criação em atendê-las, além da disponibilidade e custo de aquisição de animais na região. Conhecer as demandas e as peculiaridades do mercado consumidor a ser atendido também é importante fator para a definição do grupo genético.

Contudo, é evidente que a raça exerce grande fascínio e admiração no pecuarista. Logo, não é raro que o ovinocultor escolha criar determinada raça devido a aspectos de beleza, porte ou tipo. Questões subjetivas e culturais também sempre entram no processo de escolha. Aliado a isto, é forte a influência da mídia especializada e dos vizinhos sobre a decisão do produtor.

Nos últimos anos, é notável a expansão da raça Dorper. O mercado desta raça está aquecido, muito em função da alta procura por esses animais. Um bom termômetro são os altos preços que reprodutores Dorper frequentemente atingem nos leilões. No mercado informal de São Paulo, machos Dorper são geralmente encontrados a preços próximos a R$ 3.000,00, chegando muitas vezes a R$ 5.000,00.

Frente ao grande interesse dos ovinocultores nessa raça, nosso objetivo é aqui discorrer sobre algumas informações técnicas e científicas existentes sobre ela, de maneira a auxiliar o ovinocultor na tomada de decisão.

Histórico da raça

A raça Dorper, originária da África do Sul, possui como origem as raças Dorset Horn ("DOR") e Black Head Persian ("PER"; Milne, 2000). Esta última, no Brasil é denominada de Somalis Brasileira (Barros et al., 2005; Malhado et al., 2009). O desenvolvimento do Dorper iniciou-se entre os anos 1930 e 1940, tendo por objetivo desenvolver uma raça composta para produção de carne que fosse adaptada ao clima semiárido daquele país.

Como critérios principais, àquela época foram consideradas a facilidade de parto e a boa habilidade materna, a produção de cordeiros para abate ao redor dos 4-5 meses de idade sob as condições de pastagens naturais sul-africanas, a resistência às variações climáticas das estações do ano daquele país e o desprovimento de cor e pigmentação (Milne, 2000).

Devido à adaptação e ao bom desempenho sob as condições locais de ambiente, a Black Head Persian foi escolhida como raça materna. Por sua vez, o principal critério a favor da escolha da Dorset como raça paterna foi sua estação de acasalamento mais longa quando comparada às de outras raças britânicas disponíveis na época (Milne, 2000).

Além da Dorper, facilmente identificada pela pelagem branca e pela cabeça negra, existe também a raça denominada White Dorper. Nos cruzamentos iniciais para o desenvolvimento da raça, os primeiros animais cruzados Dorset Horn x Black Head Persian eram predominantemente malhados, porém alguns eram inteiramente brancos. Estes animais de pelagem branca foram posteriormente cruzados com animais da raça Merino (Milne, 2000). Em trabalhos subsequentes, animais cruzados Dorset Horn x Van Rooy também entraram na composição da White Dorper. No início, estes animais eram denominados de Dorsian, sendo que em 1964 ambos foram considerados como uma única raça. Assim, a raça Dorsian passou a ser chamada White Dorper. Atualmente, os mesmos critérios raciais aplicados à raça Dorper são utilizados para a raça White Dorper, à exceção da coloração e pigmentação (Milne, 2000).

Adaptação ao ambiente

A principal propaganda dos divulgadores da raça Dorper é a sua adaptação às condições tropicais de criação, basicamente sob a alegação de que esta raça foi desenvolvida nas savanas africanas em condições de pastagens extensivas e clima rigoroso.

Algumas pesquisas ratificam o conceito de elevada adaptação do Dorper. Uma dessas adaptações está relacionada ao pastejo extensivo, sendo uma marcante característica do Dorper o hábito alimentar menos seletivo. Alimentar-se de uma maior diversidade de espécies vegetais torna-se importante principalmente sob condições extensivas e de pastagens naturais, onde há grande número de espécies forrageiras disponíveis aos animais. Pesquisas internacionais deixam claro que o Dorper é menos seletivo do que o Merino, utilizando maior diversidade de plantas arbustivas e rasteiras. Animais Dorper utilizaram 90% das espécies vegetais disponíveis na pastagem, enquanto que os Merino utilizaram apenas 60% do total de espécies (Brand, 2000).

Apesar da sua menor seletividade, o Dorper demonstra sempre preferência por gramíneas, consumindo-as em níveis de até 70% da dieta total. Somente quando as gramíneas tornam-se escassas é que esses animais passam a utilizar de sua maior habilidade em consumir plantas arbustivas e entouceiradas. Neste mesmo trabalho, conclui-se que o Dorper consome menor quantidade de forragem por unidade de peso metabólico (PV0,75) do que os animais Merino. Isto, sem dúvida, demonstra a maior eficiência energética do Dorper (Brand, 2000).

Somado a isto, há evidências de que o Dorper possui grande resistência à desidratação e compensa rapidamente as perdas de peso quando há disponibilidade de água (Cloete et al., 2000). Sem dúvida nenhuma esta característica é importante vantagem nas regiões secas onde há limitação por água.

É amplamente difundida entre os produtores a informação de que o Dorper é altamente adaptado às condições áridas e quentes, usando-se como argumento o fato dessa raça ter sido desenvolvida na África do Sul. Todavia, pesquisas nacionais demonstraram que animais Dorper e suas cruzas com Santa Inês são mais sensíveis às condições climáticas do Nordeste brasileiro do que os animais puros Santa Inês. De acordo com este estudo, a frequência cardíaca e a frequência respiratória do Dorper e dos mestiços Dorper x Santa Inês foram sempre superiores às dos animais Santa Inês puros (Cezar et al., 2004). Estes resultados não querem dizer que a raça Dorper possa apresentar dificuldades de adaptação ao calor brasileiro, embora seja um alerta para a afirmação de que o Dorper é altamente adaptado.

Sabe-se que uma das principais vantagens da raça Santa Inês em relação às raças lanadas é sua não-estacionalidade reprodutiva (Sasa et al., 2002; Coelho et al., 2006). Esta ausência de estacionalidade, na raça Santa Inês, traz a possibilidade da obtenção de três partos a cada dois anos, resultando em maior quantidade de quilogramas de cordeiro produzido por matriz ao ano quando comparada com qualquer raça lanada. Esta característica reprodutiva é uma das principais vantagens do Santa Inês.

Uma das grandes limitações das raças lanadas é que estas ciclam apenas em determinado período do ano, o outono. Esta característica, sem dúvida alguma, é um entrave para que produtores utilizem matrizes dessas raças, mesmo com elas apresentando maior precocidade, maior ritmo de crescimento e melhor qualidade de carcaça em relação à Santa Inês.

Todavia, ovinos Dorper também apresentam poliestria contínua (Sousa e Leite, 2000). Segundo Elias et al. (1985), fêmeas Dorper não sofrem alterações endócrinas e/ou reprodutivas devido ao fotoperiodismo, permitindo-as ciclar em qualquer época do ano. Estes autores relataram que fêmeas Dorper em Israel apresentaram três estações de parições durante 21 meses. A não-estacionalidade dessa raça apresenta-se como um grande diferencial em relação às raças exóticas lanadas especializadas na produção de carne.

Referências bibliográficas

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Comentários

Andressa Natel

Barueri - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 17/02/2011

Rafael, parabenizo pelo seu artigo, achei bem aplicavél, tendo em vista que a raça Dorper está em alta.

Guilherme Nicolosi

São Paulo - São Paulo - Estudante
postado em 17/02/2011

Matéria muito bem escrita. Contribui muito com a escolha da composição do seu rebanho!

Ivan Saul

São José dos Pinhais - Paraná - Produção de ovinos
postado em 17/02/2011

Meu caro Dr. Meneghini.

Faça propaganda da sua raça mas, por favor, não desmereça as raças alheias.

Se não lhe agradam as lanadas, muito bem, é uma questão pessoal sua. Muito embora, me pareça que sua manifestação, nos termos em que foi feita, deva-se à paixão, que via de regra reduz o senso crítico do apaixonado. Sem nenhum demérito à raça.

Quero lembrar-lhe que no sul do Brasil, Argentina e Uruguay, há ovelhas lanadas e amerinadas que produzem cordeiros desde o outono até o final da primavera, assim sendo, ovelhas lanadas não dão cio somente no outono. Aqui na Po´A Porã, estamos encerrando a estação de monta no final deste mês (fevereiro) e o outono começa só em março.

Desculpem-me todos os leitores mas, repito, eu crio "Hampshire Down - a máquina de fazer carne". E repito outra postagem antiga - opinião todo mundo tem! - (até eu).

Saudações ovelheiras!
Ivan Saul, D.V.M. M.Sc.Vet. - Granja Po´A Porã, 17/fev/2011.
http://ivansaul.blogspot.com

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