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Em busca de uma melhor coordenação na ovinocultura brasileira

Por Camila Raineri , Augusto Hauber Gameiro e renan antonelli mendes
postado em 08/02/2010

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Introdução

Com os sinais de esgotamento do modelo histórico de crescimento do agronegócio baseado somente em constantes acréscimos da fronteira agropecuária e na competição de culturas mais intensivas em capital, a produção de alimentos, sobretudo da pecuária "tradicional" de caracterização extensiva, sofre questionamentos conceituais importantes. Deve, portanto, adaptar-se à nova situação que resulta em significativas mudanças tecnológicas, estruturais e de processos de gestão (ANTONELLI MENDES et al. 2009).

Este mesmo fenômeno se faz presente na ovinocultura brasileira. Recentemente, no Brasil, a atividade tem apresentado uma mudança de paradigma, saindo de uma atividade de subsistência para uma atividade empresarial e especializada. São apontados pelo menos dois fatores cruciais que impulsionaram essas mudanças. Por um lado, o surgimento de um segmento de mercado específico orientado por atributos de qualidade, exigindo da cadeia produtiva mecanismos de coordenação mais eficientes do que simplesmente "via preço". Por outro lado, o fator globalização permitiu aos produtores brasileiros o conhecimento da importância dessa atividade em outros países, com destaque para a Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e outros (YOKOYA et al. 2009).

O Estado de São Paulo, entre 1995 e 2006, observou um crescimento do rebanho da ordem de 75,04%, que foi resultado dos investimentos na produção. Isso ocorreu devido à escassez dessa carne no mercado, visto que a produção paulista atende em torno de 10% da demanda estadual do produto, havendo necessidade de importação de outros estados, como Rio Grande do Sul e de outros países, principalmente do Uruguai (YOKOYA et al. 2009).

Frente à crescente demanda interna e externa por produtos ovinos, somada ao crescente número de empresários dispostos a investir nesta atividade, e às tecnologias já disponibilizadas pela pesquisa, a ovinocultura brasileira tem grande potencial para se destacar no cenário do agronegócio nacional entre as atividades de relevante impacto sócio-econômico (FZEA/USP, 2008).

Consumo

As pessoas vêm se adaptando a novos hábitos de consumo, o que tem favorecido o crescimento da demanda pelas carnes de ovinos e seus derivados (Simplício & Simplício, 2006). Vale ressaltar que para atender a demanda por carnes de cordeiros no estado de São Paulo, seria necessário um rebanho da ordem de 28 milhões de cabeças (Simplício & Simplício, 2006). Assim, hoje, parte da demanda interna é suprida pelas importações, que entre 2005 e 2006, cresceram 48%, de 4,7 mil toneladas para 7 mil toneladas segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDCI) (MELLO et al., 2007).

Apesar de o hábito alimentar de grande parte da população brasileira não ser culturalmente voltado para o consumo de carne ovina, o mesmo têm crescido substancialmente nos últimos anos. O presidente da Associação Paulista de Criadores de Ovinos (ASPACO) e da Câmara Setorial Especial de Caprinos e Ovinos de São Paulo, Arnaldo dos Santos Vieira Filho, acredita na existência de demanda reprimida (MELLO et al., 2007). O consumo brasileiro está estagnado em 0,7 kg per capita anual, o que é considerado pequeno perante a Argentina que apresenta 1,4 kg, Europa com 27 kg e a Nova Zelândia e Austrália com 42,2 kg e 20,2 kg por habitante por ano, respectivamente (ALENCAR & ROSA, 2006).

O consumidor de carne ovina é extremamente exigente quanto à qualidade do produto. Por outro lado, esse sistema agroindustrial ainda enfrenta uma série de desafios no sentido de melhorar sua coordenação para garantir que a qualidade chegue ao consumidor final (YOKOYA et al. 2009).

Segundo Antonelli Mendes et al. (2009), um grande problema apresentado na comercialização de ovinos refere-se à origem da carne comercializada, pois há falhas severas na padronização e inspeção do produto. A carne de ovino pode ter várias origens: importada; de frigoríficos nacionais certificados ou clandestina, obtida pelo abate não fiscalizado (ALENCAR & ROSA, 2006).

A carne importada destina-se, principalmente, a restaurantes e churrascarias, cujo consumo se restringe a poucos cortes (por exemplo: carré, lombo e pernil). Esse hábito pode ser consequência da falta de confiança na qualidade e padronização do produto nacional, do preço da carne importada ser por vezes menor, e da certeza da aquisição do produto importado ser realizada através de frigoríficos inspecionados (ALENCAR & ROSA, 2006).

O preço da carne importada, segundo Simplício & Simplício (2006), é menor que o da produzida no Brasil, pois a qualidade da importada é, por vezes, inferior, isso em virtude da carne importada ser oriunda, muitas vezes, de animais idosos e de raças exploradas primordialmente para produzir lã (SIMPLICIO & SIMPLICIO, 2006). Além disso, os países exportadores de carne ovina vendem os melhores cortes para países que pagam melhor, restando ao Brasil produtos de menor qualidade (ALENCAR & ROSA, 2006).

Situação da cadeia agroindustrial

O setor da ovinocultura está caminhando para sua consolidação, embora ainda sofra com falta de organização e de comunicação entre os segmentos de produção e comercialização. Ainda não existem bancos de dados confiáveis em diversas áreas da atividade e ainda encontra-se significativa assimetria de informações (ANTONELLI MENDES et al. 2009).

A consciência de que apenas através do fornecimento de produtos de qualidade em escala e frequência suficientes será possível criar e acessar mercados que remunerem bem já começa a dar sinais de progresso para a atividade. Porém, talvez isso não seja o suficiente. Segundo Zylbersztajn (2000), o fenômeno da "assimetria de informações" é marcante no setor alimentício, e pode-se perceber que é um problema sério para a cadeia da ovinocultura. Ela pode ser explicada pelo fato de que, freqüentemente, o fornecedor conhece muito mais a respeito da qualidade de seu produto do que o consumidor (YOKOYA et al., 2009).

Vieira et al. (2007) evidenciaram, empiricamente, que os mercados são imperfeitos porque seus atores não possuem as mesmas condições de processar, interpretar e utilizar informações, mesmo que as informações sejam de domínio coletivo. Dessa forma, os produtos de qualidade superior acabam sendo menos valorizados pelos consumidores.

Yokoya et al. (2009) identificaram os seguintes mecanismos organizacionais como potenciais para a redução de assimetria de informações no sistema agroindustrial da carne ovina:

Padronização: A padronização é uma técnica que visa reduzir a variabilidade dos processos de trabalho sem prejudicar sua flexibilidade. Isso significa que os produtos devem atender às expectativas dos clientes de forma regular e ao menor custo possível. Além do seu importante papel nas transações econômicas, a padronização talvez seja o principal mecanismo de redução da assimetria de informação ao longo de toda a cadeia de suprimento, do produtor da matéria prima ao consumidor final. A padronização reduz os custos de informação associados à identificação das características dos bens e serviços consumidos; reduz também a enorme complexidade técnica envolvida na caracterização dos produtos, e que impõe enorme dificuldade para os consumidores tomarem suas decisões; por último, reduz os custos de monitoramento do sistema como um todo.

Certificação: A discussão econômica sobre a certificação de produtos agrícolas é ampla. Aceita-se que a certificação é necessária e vantajosa quando a padronização torna-se insuficiente para atender às necessidades dos agentes e consumidores; a padronização passa a ser muito complexa, exigindo certificados que comprovem os padrões estabelecidos; e quando a padronização refere-se aos detalhes de um processo de produção de difícil compreensão para os demais agentes. A certificação pode ser entendida como a definição de atributos de um produto, processo ou serviço e a garantia de que eles se enquadram em normas pré-definidas. Um caso especial da certificação é aquele em que há uma regulamentação pública compulsória, sendo o Sistema Federal de Inspeção (SIF) o mais importante no contexto brasileiro.

Rastreabilidade: Trata-se de um sistema que permite seguir, rastrear informações de diferentes tipos (referente ao processo, produto, pessoal e ou serviço) a jusante e ou montante de um elo de cadeia ou de um departamento interno de uma empresa. A rastreabilidade possibilita ter um histórico do produto, sendo que a complexidade do conteúdo deste histórico dependerá do objetivo a que se pretende alcançar. A rastreabilidade também é um mecanismo de redução da assimetria de informação, em particular por permitir ao consumidor associar o produto à sua origem e história.

Marca: A marca é o principal elo entre o negócio e o cliente, pois é através dela que ele identifica o negócio e o diferencia dos demais. Com o passar do tempo, a marca passa a ser o referencial da qualidade daquele produto ou serviço. O mercado e a concorrência, por si só, já não são suficientes para assegurar a apropriação da riqueza gerada, e as relações econômicas passam a ser mediadas por contratos e instituições que têm por finalidade proteger os direitos dos vários agentes envolvidos, reduzir e mediar conflitos e diminuir os custos de transação em geral. Dentro do segmento cárneo a tendência é oferecer cortes especiais para redes de supermercados e restaurantes que atendem consumidores de classe média - alta (OJIMA, 2006). Neste sentido, empresários do setor de carne ovina caminham para a profissionalização e já colocam em prática diversos mecanismos organizacionais para redução de assimetria de informações no sistema agroindustrial da carne ovina.

Este cenário impulsiona iniciativas de empresários brasileiros para a organização da cadeia produtiva de carne ovina, visando à oferta de produtos diferenciados a um mercado de consumidores de classes mais altas. Diversas empresas do ramo já optaram por adotar, ao menos em parte, as medidas citadas acima, com a finalidade de conquistar e manter mercados que remuneram melhor o produto.

O crescimento da produção de ovinos no Estado de São Paulo, especialmente, tem acontecido juntamente com investimento em melhoria genética do rebanho. Várias ações têm sido favoráveis a essa evolução, praticadas por empresários e por associações de criadores. A ASPACO (Associação Paulista de Criadores de Ovinos), por exemplo, tem incentivado a adesão dos criadores a programas de melhoramento genético e testes de desempenho dos animais, bem como coordenado a criação de núcleos de produtores.

A implantação de Núcleos Regionais, formados por grupos de criadores organizados com o intuito de unir esforços para desenvolver a ovinocultura regional viabiliza compras conjuntas de insumos, melhora da estrutura da produção e comercialização da carne assim como possibilita a padronização, a qualidade e aumento na escala de abate (SILVA, 2007).

No entanto, a atividade carece de informações que envolvem desde questões relacionadas às técnicas de produção dos animais a estudos de mercados consumidores (YOKOYA et al., 2009). Por este motivo as pesquisas realizadas por universidades e outras instituições possuem grande importância, e podem contribuir para o desenvolvimento organizado da atividade.

Para maior entendimento do momento atual da dinâmica da cadeia da ovinocultura de corte no estado de São Paulo, é fundamental que se monitore o mercado em suas diversas dimensões. Acompanhar as tendências gerais do agronegócio pode ajudar a explicar o desempenho de uma cadeia específica. Um bom exemplo disso é a elaboração do Índice de Preço do Cordeiro Paulista, projeto conduzido pela UNICETEX - FZEA/USP, com apoio da FAPESP e Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP, e colaboração do SEBRAE, ASPACO, LAE/FMVZ/USP e APTA, com a meta de constituir-se como importante referência para os agentes dos diferentes elos dessa cadeia de negócios.

A ovinocultura de corte paulista vem passando pelas transformações necessárias para tornar-se uma atividade profissionalizada, porém ainda há muitas dificuldades a serem vencidas. É provável que o maior obstáculo a ser superado seja a organização do sistema agroindustrial da carne ovina, que ainda sofre com a falta de informações entre seus elos.

Algumas das formas de redução de assimetria de informações que tem recebido destaque são: a padronização, a certificação, a rastreabilidade e a construção de marcas. Elas têm estado associadas a outras formas de coordenação da cadeia produtiva, como a integração e demais estratégias de verticalização.

Para promover o progresso da atividade, associações de criadores, instituições de pesquisas e iniciativa privada possuem papéis muito importantes, e possivelmente terão um caminho menos árduo a ser percorrido se unirem esforços.

Referências bibliográficas

ALENCAR, L.; ROSA, F.R.T. Ovinos: panorama e mercado. Revista O Berro. 96 ed. Nov. 2006.

ANTONELLI MENDES, R.; CARRER, C.C.; GAMEIRO, A.H.; FIRETTI, R. Um panorama da ovinocultura brasileira e o Índice de Preço do Cordeiro Paulista. FMVZ/USP: Socioeconomia & Ciência Animal, n.7, 31 de agosto de 2009.

FZEA/USP. Relatório do Projeto em Políticas Públicas No. 06/51695-5 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo: A Cadeia de negócios da ovinocultura de corte paulista. 2008.

MELLO, N.T.C. de; NOGUEIRA, E.A.; RODRIGUES, C.F. de C. Entraves e desafios à caprinocultura no sudoeste paulista. Instituto de Economia Agrícola. São Paulo, 2005. Disponível em: < http://www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=2745 >. Acesso em: 25 mar. 2007.

OJIMA, A.L.R.O. et al. Caprinos e ovinos em São Paulo atraem argentinos. Instituto de Economia Agrícola. São Paulo, 2006. Disponível em: < http://www.iea.sp.gov.br>. Acesso em: 25 mar. 2007.

SILVA, R.O.P. Câmara setorial beneficia criação de ovinos em São Paulo. Jornal Agrovalor, , v.2, n.6, 2007.

SIMPLÍCIO, A.A.; SIMPLÍCIO, K.M.M.G. Caprinocultura e ovinocultura de corte: desafios e oportunidades. Revista CFMV. Brasília, DF, 2006. p 7-18.

VIEIRA, A.C.P. BUAINAIN, A.M.; VIEIRA JUNIOR, P.A.; LIMA, F. Mecanismos organizacionais como resposta à informação imperfeita: a questão da segurança dos alimentos. Informações Econômicas, v.37, n.9, p.7-23, 2007.

YOKOYA, E.; PINHEIRO, J.V.; NAVES, J.R.; SILVA, M.R.; GAMEIRO, A.H. Estratégias para a garantia de qualidade na produção de carne ovina: estudo de caso. Resumos. XLVI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia. CD-ROM. Maringá: SBZ, 2009.

ZYLBERSTAJN, D. Conceitos gerais, evolução e apresentação do sistema agroindustrial. In: ZYLBERSTAJN, D. & NEVES, M.F. (org.). Economia e gestão dos negócios agroalimentares. São Paulo: Pioneira, 2000.

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