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Firmes no caminho errado

Por Octávio Rossi de Morais
postado em 20/09/2010

12 comentários
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A substituição de raças é uma das ferramentas mais eficientes na mudança genética. Claro, trocar simplesmente é mais rápido e eficiente que selecionar por anos a fio. Porém, a substituição é cara. Pode-se então, substituir com um pouco mais de gasto de tempo, absorvendo a raça que não queremos pela que queremos, ao longo de algumas gerações. Os métodos funcionam, mas em ambos os casos há um grande risco envolvido. Quem nos garante que a troca é realmente boa? Quem nos garante que estamos realmente fazendo melhoramento? São muitas as experiências mal sucedidas com esse processo. Quando se percebe que a raça antiga era mais adaptada ou que servia melhor às necessidades locais, ela já acabou, e não há mais como trazê-la de volta.

Recentemente uma reportagem mostrou um "programa de melhoramento genético" promovido por uma fazenda, onde os proprietários introduziram a raça Dorper. A alegação para esta introdução é a de sempre, como o Dorper vem da África, está adaptado às condições do Nordeste brasileiro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Parece que ninguém assistiu à copa do mundo de futebol deste ano de 2010. Se alguém assistiu, deve se lembrar dos torcedores e dos jogadores reservas usando cobertores para se aquecer durante os jogos. Depois ninguém consegue explicar o porquê dos insucessos de muitos reprodutores Dorper em regiões quentes. Muitos deles, assim como reprodutores bovinos da raça Holandesa e de outras raças originárias de climas frios irão apresentar degeneração testicular, uma vez que as temperaturas altas se mantêm ao longo do ano nos países tropicais. Alguns não apresentarão problemas desse tipo e assim poderão se estabelecer, mas é necessário selecioná-los objetivamente.

O maior problema, no entanto, é de outra ordem. Estamos sempre procurando soluções prontas e nunca nos prontificamos a produzir nossas próprias soluções. Porque ninguém gosta de recorrer aos cientistas quando se trata de selecionar rebanhos? O cientista que trabalha com melhoramento genético é chamado de "melhorista" e estuda de três a nove anos, depois da graduação, só para começar a compreender a dinâmica do melhoramento genético animal. Criadores experientes e mesmo técnicos bem treinados estão habilitados a selecionar os animais quando se trata de padrão racial. Para além disso o risco é grande.

Voltando à tal reportagem, pequenos pecuaristas vizinhos da fazenda dos Dorpers, passaram a utilizar reprodutores dessa raça e sob a supervisão de técnicos passaram a alimentar melhor seus rebanhos de animais cruzados. Agora, segundo eles, o resultado estava aparecendo. Ninguém ainda ganhou dinheiro, apesar de alguns terem até feito empréstimo no banco para adquirir reprodutores, mas agora acreditam que estão melhorando seus rebanhos e terão bons animais para vender para o abate. Tudo bem, vale a intenção, mas será que vale a pena? Esse "vale a pena" é uma forma de dizer, será que houve aumento do lucro? O valor que se gasta a mais com a alimentação dos animais é traduzido em aumento compensador na receita com sua venda? Alguém fez esse cálculo?

As ovelhas "pé duro"que desaparecerão serão substituídas por fêmeas meio sangue e posteriormente essas por ovelhas três quartos e assim por diante até que os rebanhos sejam Dorper. É bem provável que a partir dos sete oitavos os pequenos pecuaristas comecem a se arrepender da troca. Isto é clássico quando se utilizam os cruzamentos de maneira indiscriminada. Os criadores creditam para a raça absorvente todos os benefícios observados no meio sangue. O fato é que o meio sangue é que mostra os maiores efeitos benéficos do cruzamento, isto é, é o que apresenta maior "vigor híbrido", daí em diante estamos voltando para uma das raças e suas vantagens, mas também seus defeitos, voltam a ficar evidentes.

Outra coisa que me chamou atenção na reportagem foi a forma como era feita a seleção dos animais na fazenda. Os borregos e borregas eram observados por avaliadores que atribuíam uma nota de acordo com o "conjunto do animal", ou seja, sua harmonia física. O velho papo aplaudido por criadores, técnicos de registro, veterinários e zootecnistas: bom arqueamento de costelas, aprumos corretos, boa inserção de pescoço e cabeça leve, porém forte. Orelhas bem implantadas e olhos demonstrando vivacidade. Ora façam-me o favor! Aí, aprendem o jargão dos melhoristas e começam a falar de coisas das quais não entendem, como herdabilidade, repetibilidade, acurácia, DEPs. Ninguém faz o cálculo de ganho de peso, ou tem o acompanhamento do rendimento de carcaça dos animais no frigorífico? Quantos animais nasceram, quantos sobreviveram?

O que me anima, apesar de tudo, é pensar que essas pessoas, técnicos, criadores, produtores e jornalistas, fazem tudo isso por boa vontade, por isso continuamos firmes. Pena é que não procuramos fazer as coisas com embasamento técnico, trabalhando no sentido de atingir com rapidez e segurança nossos objetivos, por isso continuamos no caminho errado.

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Comentários

Érique Costa

Porto Velho - Rondônia - Produção de ovinos
postado em 20/09/2010

Prezado Octávio,
eu também assisti a reportagem no site (Inclusive, o título era algo como "melhoramento de CABRAS" rrss).
Mas achei muito pertinente sua reportagem, parabéns.
Também dou meus parabéns aos produtores, que apesar de como explicitado por você, faltaram na técnica, estão tentando!! Talvez o que realmente falta são mais técnicos (profissionais).

Mas eles não estão utilizando reprodutores puros, são apenas 1/2 sangue. Talvez seja uma "mistureba" ainda adaptada à região... espero...rrrss !

Abraço

Roberto Rocha

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de ovinos
postado em 20/09/2010

Prezado Octávio,

Sou de BH e te pergunto: aonde está a EPAMIG que não oferece cursos para criadores? Estamos muito mal assessorados! Na região de Jaboticatubas, onde atuo, o pessoal da Emater não pôde me ajudar em nada na implantação pois simplesmente não sabiam nada a respeito de Ovinocultura e pra que a Dra. responsável pudesse ir me dar a assistência técnica necessária "in locco", eu teria de pagar, e caro!

Acho que está na hora de realmente se iniciar um programa de apoio aos produtores de ovinos em MG, a exemplo do que o Sebrae já faz em outros Estados. Pense nisso!!!

Pedro Nacib Jorge Neto

Campinas - São Paulo - Nutrição de Ruminantes / Reprodução de Ovinos
postado em 21/09/2010

Prezado Sr. Octávio,

apenas esclarecendo alguns pontos de seu texto:

A raça Dorper e White Dorper é uma REALIDADE mundial e não uma aposta igual normalmente foi feito até hoje no Brasil. O Dorper e White Dorper estão presentes na África do Sul, Namíbia, Austrália, EUA, México etc. Em todos estes países a raça vai muito bem.

Não sei se já teve oportunidade de ir à África ou à Austrália, mas o comentário que fez é infundado. Ambos os países apresentam no verão dias e noites quentes e no inverno podem ter dias quentes e noites frias. Em Dubbo (Austrália), cidade forte da ovinocultura australiana, tive oportunidade de pegar -3 graus Célcius no início da manhã e +37 no início da tarde. O Dorper e o White Dorper iam muito bem nestas condições. No verão a temperatura não foge muito do nosso nordeste tendo ainda temperaturas mais elevadas, além do buraco que a Austrália possui na camada de ozônio.

Referente a degeneração testicular, qualquer raça pode apresentar, inclusive o Dorper e o White Dorper. Tive oportunidade de colhetar diversos machos de diversas raças na Austrália e trabalho com isto no Brasil e posso te afirmar que este comentário não retrata a realidade das raças Dorper e White Dorper.

O sr. sabe o aumento de rendimento de carcaça, de qualidade de carne, de ganho de peso e conversão alimentar que a utilização do Dorper e do White Dorper traz?

CUNHA et al (1998) apresenta 39,2% de rendimento de carcaca comercial para animais da raça Corriedale, 42,6% para cruzamentos de Ile com Corriedale. Bona et al apresenta 44,7% de rendimento para cruza de Hampshire com Corriedale. Santos et al apresenta os rendimentos de 46,5% para cruza Suffolk x Santa Inês, 46,7% para Ile de France X Santa Inês, 49,5% para Poll Dorset X Santa Inês e 47,5% para Santa Inês. Furusho-Garcia apresenta rendimento de carcaça de 48,1% para cruza de Texel X Santa Inês.
Notter et al apresenta rendimento de carcaça de 56,7% para cruzamentos de Dorper X ovelhas comerciais...

Um trabalho da EMEPA-PB tras a seguinte conclusão: "O genótipo Dorper x Santa Inês pode ser utilizado na obtenção de maiores rendimentos de carne e de componentes não constituintes da carcaça."
Furusho Garcia et al afirma: "A utilização das raças Texel e Dorper em cruzamento com Santa Inês eleva o rendimento das carcaças." O Dorper e White Dorper atingem, à campo, o peso de 40kg vivo ao redor de 100-120 dias de vida.

Estes números não são achismos, são trabalhos publicados, são dados reais obtidos por pesquisadores.
Para muitos estes números demonstram claramente as vantagens da utilização do Dorper e White Dorper e da aquisição dos reprodutores destas raças.

Referente ao cruzamento absorvente, veja o exemplo da Austrália e como eles aumentaram o preço da carne de ovinos australiana no mercado internacional: a partir do aumento do rebanho cruzado de Dorper e White dorper. Com a queda do preço da lã, passaram a utilizar o Dorper e White Dorper (principalmente o white) no rebanho lanado, com cruzamentos absorventes, onde hoje possuem grande plantel cruzado com alto grau de sangue dorper e white dorper.
São estes os ovinocultores que estão sendo melhor remunerados na carne. É o Dorper e o White Dorper que melhoraram a remuneração do produtor de carne australiano.

Referente a seleção que deve citar, sugiro antes de comentá-la, entender como esta é realizada.
Os animais são selecionados, principalmente na Austrália, por DEPs (o melhor programa de melhoramento de ovinos no mundo atualmente, o LAMBPLAN). Após esta primeira seleção, os animais que continuarão nos rebanhos de melhoramento genético passam pela classificação modelo sul africana, onde avaliam diversas características. Entre em contato com a ABCDorper e peça o Dorper News 2010 onde possui toda a explicação deste sistema e verá que eles, a décadas, criaram um modelo complexo e ao mesmo tempo simples que permitiu o dorper ser o que é hoje. Verá que fantástico é este sistema que ninguém conseguiu criar um similar tão eficiente.

Att.
Pedro Nacib Jorge Neto
Médico Veterinário
Corpo Técnico da ABCDorper
AllStock do Brasil Genética Ltda.

José L Pontes

Pindoretama - Ceará - OUTRA
postado em 21/09/2010

Meu caro Octávio Morais, olhando para o horizonte, do seu ponto de vista, pode até ter um fundo de verdade, mas quem falou em trocar raça antiga por raça nova? O que eu estou vendo na minha região é a inclusão de reprodutores Dorper em plantéis de Santa inês, para melhoramento de animais para abate, tendo em vista o excelente resulltado. É também minha intenção manter meu plantel de puros e direcionar parte, para esse cruzamento. O Bergamácia, foi um dos formadores do Santa Inês, e ainda existem plantéis de elite dessa raça no Brasil.

Quanto aos "CIENTISTAS", "MELHORISTAS", que se formaram com o nosso dinheiro (do contribuinte), quando são absorvidos por órgãos públicos, de nada servem, para os pequenos e médios produtores, devido a inacessibilidade.
De qualquer forma, seu artigo serve de alerta. Não troque sua raça antiga pela nova, somente aproveite os benefícios dela, mantendo também uma boa semente dessa nova raça.
Grato.

eldar rodrigues alves

Curitiba - Paraná - governo
postado em 22/09/2010

São pontos de vista e interessantes e diferentes, acho que no final, todos tem um pouco de razão,
vejo todos muito preocupados com o clima e a temperatura, porém acho que o grande diferencial é a alimentação quem vai se adaptar melhorar a falta de comida?
www.cabanhakingsize.com.br

Bruno de Barros Ribeiro de Oliveira

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de ovinos
postado em 22/09/2010

No que se refere aos orgãos publicos responsáveis pelo desenvolvimento, não vejo nenhum progresso por parte de vcs. Por acaso, existe algum trabalho atualmente da EPAMIG, SEBRAE, ACCOMIG, SECRETARIA DE AGRICULTURA, com o objetivo de alavancar a atividade? Não, sabe porque? Porque existe um conflito entre estes orgãos. Dessa forma, concluimos que por parte de vocês (pesquisadores) não podemos contar.

Apenas com o intuito de comunicar, hoje a IDA VALE BRASIL é a unica no setor a possuir animais provados por DEP´s do LAMBPLAN.

Dagoberto Mariano Cesar

Itapeva - São Paulo - Produção de leite
postado em 22/09/2010

Comentários acima vem mostrar o quanto precisamos estudar para direcionarmos o melhoramento que devemos recomendar para os criadores. Temos poucos profissionais que realmente saem de uma faculdade conhecendo a ovinocultura brasileira. Aproveito também para dar um alerta para aqueles que querem fazer sua pós graduação sem antes conhecerem, vivenciarem a atividade, pois assim, o mesmo pode direcionar e com muita profundidade coloborar com a ovinocultura nacional. Abraços. Dagoberto

André Luiz Rodrigues Magalhães

Garanhuns - Pernambuco - Pesquisa/ensino
postado em 22/09/2010

Prezados, embora eu seja leitor assíduo do Farmpoint não sou de enviar cartas acerca dos artigos publicados. Não que eu não goste, mas é porque às vezes deparo com situações como esta em que os limites entre as divergências de opiniões sobre o conteúdo técnico do que se escreve no site (a propósito, um site de muita relevância para a caprinovinocultura nacional) e o desrespeito àqueles que dispendem seus preciosos tempos me parecem muito tênues. Imagino que todos aqueles que acessam o site, buscam informações que contribuam para o exercício de suas atividades (as trocas de experiências) no cotidiano de cada um.

Assim, não vejo os porquês de questionamentos do tipo: aonde está a EPAMIG que não oferece cursos para criadores? ou: No que se refere aos orgãos publicos responsáveis pelo desenvolvimento, não vejo nenhum progresso por parte de vcs. ou ainda: Quanto aos "CIENTISTAS", "MELHORISTAS", que se formaram com o nosso dinheiro (do contribuinte), quando são absorvidos por órgãos públicos, de nada servem, para os pequenos e médios produtores, devido a inacessibilidade.

Me surpreende que os dois primeiros comentários partem exatamente de pessoas de MG, e assim deveriam saber que: primeiro - a EPAMIG é uma empresa de pesquisa e não de extensão rural. Segundo: no que se refere aos órgãos públicos sem desenvolvimento, sugiro que veja os trabalhos desenvolvidos pelas Universidades Federais (UFV, UFMG, UFLA) e outras instituições públicas como a própria EPAMIG, o IMA. Quanto aos CIENTISTAS que se formaram com o "nosso dinheiro" e de nada servem, talvez seja a sua realidade. Mas não se deve generalizar, afinal muitos pesquisadores estão no campo para aprimorar a cadeia e neste caso, não há melhor exemplo do que o vindo do seu próprio estado, o CE: a EMBRAPA CAPRINOS E OVINOS que desenvolve trabalhos fantásticos não só no Ceará.

Quanto ao conteúdo do artigo, acredito que os animais SPRD não desaparecerão dada a tamanha diversidade de sistemas de produção de ovinos no país, em especial na região NE. Agora, fazer seleção por escores atribuídos a fenótipos, isso sim parece brincadeira e de fato não alavanca a atividade, conforme o Octávio falou. Cadê as DEPs nos catálogos das centrais que comercializam genética de ovinos conforme se vê nos catálogos de bovinos? É raridade e só acompanhamento do desenvolvimento ponderal individual não basta (pesagens às diferentes idades), é muito pouco.

Também compartilho da opinião do colega Pedro Nacib de que o Dorper é uma realidade no mundo e acredito que veio pra ficar. De fato, os trabalhos conduzidos pelo Wandrick lá na EMEPA-PB são promissores para a raça aqui no NE. Assim, conforme o colega Eldar Alves disse, todos tem um pouco de razão. Se a região é quente, é possível implantar modificações primárias nos sistemas de produção, seja para exploração a pasto ou não. Modifica-se o manejo nutricional diminuindo o incremento calórico das rações, bem como as estratégias fornecimento dos alimentos e o manejo reprodutivo.

Ivan Saul

São José dos Pinhais - Paraná - Produção de ovinos
postado em 23/09/2010

Senhores, por favor!!! Aqui se trata da opinião de um pesquisador que "não foi feliz" ao tentar embasá-la, exemplificando com a última novidade milagrosa que é a raça Dorper.

Porém, a verdade foi dita, a solução mais fácil é o cruzamento industrial seguido do absorvente. Todo produtor sabe (ou deveria saber) que o resultado deste tipo de acasalamento é o produto comercial, nada mais. Já que alguns gostam de comparar ovinocultura com avicultura e imaginam que basta ter "escala" e tudo está resolvido. Lembrem que frangos e frangas de corte, que resultam de cruzamentos sucessivos entre raças e linhagens, são abatidos indiscriminadamente pois esta é a geração em que atingem seu potencial produtivo máximo (em termos de carne exclusivamente). E, não esqueçam, dos volumosos investimentos em Melhoramento Genético da indústria avícola, mesmo que seus objetivos não sejam RAÇAS e sim LINHAGENS.

Por sua vez, também não me parece "feliz" o técnico, interessado em propagandear a raça, atropelar a ciência do Melhoramento Genético Animal citando cruzamentos industriais. Já dizia o antigo pecuarista gaúcho Joaquim Francisco de Assis Brasil, que "aptidão se faz com seleção e não com cruzamentos". As citações extraídas de artigos científicos não acrescentam ao conhecimento enquanto não analisarem os resultados em longo prazo destes cruzamentos. Haja vista que a heterose e seus efeitos (de curto prazo) são velhos conhecidos de todos.

Me parece, e não pretendo advogar a causa de ninguém, que aqui se trata de cuidarmos melhor do patrimônio genético que possuímos tomando cuidado com as soluções que prometem milagres. Que os cientistas que trabalham com melhoramento genético animal devem vir a público e "denunciar" o mau uso dado ao termo "Melhoramento Genético" e, por mais difícil que seja, explicar aos produtores à que se refere esta ciência (não basta anotar peso de cordeiro ou bater recordes de carneiro mais pesado da Exposição).

Me desculpem por voltar ao exemplo citado mas, se houvessem melhorado o nível nutricional dos cordeiros Santa Inês (que já estavam lá) não teriam obtido resultados semelhantes? (De brinde - fêmeas passíveis de serem usadas na reprodução.) Já que é para melhorar geneticamente, o rebanho mestiço Dorper não deveria ser submetido ao regime alimentar dos "nativos"? Ou aqueles cordeiros da Paraíba dão 40 quilos em 120 dias pastando na caatinga?
É hora de esclarecer que a inseminação artificial, a transferência de embriões e a clonagem são simplesmente técnicas reprodutivas e que têm muito pouca ou nenhuma relação com o melhoramento genético, cuja base é a variabilidade.

Ah, quanto as raças que são uma questão de opinião, parafraseio outro grande conterrâneo: "idéias são como relógios, cada um tem o seu e se guia por ele" (Senador Pinheiro Machado).

Eu crio "Hampshire Down - a máquina de fazer carne"!

Saudações ovelheiras.
Ivan Saul D.V.M., M.Sc.Vet, - Granja Po'A Porã, 23/set/2010.

Octávio Rossi de Morais

Sobral - Ceará - Pesquisa/ensino
postado em 23/09/2010

Muito bem, gostaria de responder a um por um, mas chegaram muitas cartas de uma só vez. Primeiro agradeço ao Prof. André Luiz por ter colocado muitas das coisas em ordem com seus esclarecimentos. Depois quero dizer que não tenho nada contra o Dorper, ao contrário sei que é uma realidade e que tem muito a contribuir com a ovinocultura mundial. Entretanto não é "a solução", mas uma das ferramentas. Sou amigo do Dr.Wandrick, que teve a maior importância na introdução do Dorper no Brasil e conheço bem os resultados obtidos com a raça, tanto por informações dele quanto por experiência própria. Nunca fui África do Sul, o que não me impede de conhecer a realidade climática do país e também a forma como foram selecionados os Dorper ali. Também sei como foram escolhidos os animais importados para o Brasil e reafirmo que muitos desses animais apresentarão degeneração testicular, que é um processo que ocorre com o tempo, não da noite para o dia. Se a África do Sul e a Austrália têm épocas de calor infernal, têm também épocas de muito frio. O sertão da Bahia não tem época fria e isso faz sim diferença. Isso não quer dizer que todos os reprodutores terão degeneração testicular como já comentei no artigo. Ao Roberto Rocha peço que entre em contato, pois também sou criador de ovinos em Jaboticatubas (tenho ovelhas leiteiras) e podemos trocar idéias e até nos ajudarmos mutuamente. Por fim, digo que a Epamig passou a pesquisar ovinos depois que eu entrei para seu quadro de pesquisadores, em 2006, e que tem aluns projetos importantes em implantação. A Epamig funciona por demanda, de forma que é preciso que os ovinocultores cobrem dela os trabalhos de pesquisa. Vinha até agora atendendo a produtores sempre que procurado e tivemos alguns dias de campo nos úlimos dois anos, mas estou quase me transferindo para a Embrapa e agora estou tentando manter os projetos da Epamig em convênio com aquela entidade para não deixarmos Minas sem esse suporte. Um abraço a todos e obrigado pelas mensagens.

Octávio Rossi de Morais

Sobral - Ceará - Pesquisa/ensino
postado em 23/09/2010

Resposta especial ao Bruno de Barros. Caro Bruno, a Epamig tem em Pitangui um rebanho formado há dois anos, onde estudamos cruzamentos de Texel, Santa Inês e Dorper, com resultados bastante interessantes, porém ainda não estão em volume para divulgarmos. O rebanho pode ser visitado e estamos às ordens para apresentar nossos trabalhos. Temos um segundo rebanho a se formado em Montes Claros, com ovelhas que estamos identificando no Norte de Minas e fazendo a caracterização genéticam junto com o CENARGEN. Há um projeto sendo finalizado na Epamig de Prudente de Morais sobre o uso de leguminosas para cordeiros confinados. Temos um outro projeto aguardando aprovação para seleção de fêmeas ovinas para prolificidade. Na Secretaria de Agricultura temos a Câmara Técnica de Caprinovinocultura, que tem trabalhado especialmnte as questões relativas à comercialização, impostos e exigências sanitárias, sendo que nas últimas reuniões trabalhamos a questão do beneficiamento do leite de cabras e ovelhas. Desta forma acho que nós produtores podemos sim contar com os pesquisadores e as instituições, falta somente as pessoas procurarem as instituições para se informarem e serem ouvidas. De minha parte estou à disposição.

Guilherme Gomes de Carvalho

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de ovinos
postado em 29/10/2010

Creio que todos nós concordamos que uma seleção baseada apenas em padrões estéticos e de beleza é pouco ou nada eficiente para um benefício econômico.

Não sou melhorista, mas tenho certeza que o processo de melhoramento genético é bastante dispendioso de tempo e dinheiro, mesmo assim é preciso que ele seja feito, e de maneira correta, séria, contínua e participativa para a obtenção de resultados sempre melhores. A aliança entre a ciência, o produtor, as associações, os técnicos e a indústria é fundamental. A organização disso tudo é que é difícil, e cheia de brechas para oportunistas.

Precisamos respeitar e usufruir dos benefícios adaptativos das raças nativas, buscando ganhos genéticos das características realmente importantes. O Dorper pode trazer benefícios para a ovinocultura brasileira, mas, seja qual for a raça, precisamos começar a exigir que a seleção seja feita de forma mais eficiente. Daqui a pouco a Austrália terá uma seção de seleção de Dorpers bonitinhos para os padrões brasileiros: eles vendem, nós compramos, eles produzem carne enquanto nós ficamos com as passarelas e vitrines cheias de animais perfeitamente padronizados, caríssimos e dopados, para que assim os vaidosos continuem a competir e desfilar seus egos.

Parabéns, Octávio, pelo artigo e pela discussão que proporcionou.

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