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Gordura protegida na alimentação de ovelhas leiteiras

Por Marcela Buosi Martins
postado em 21/05/2008

2 comentários
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A ovinocultura surge no cenário agropecuário como uma das possíveis alternativas para o pequeno e médio produtor, o qual muitas vezes não possui terras interessantes para o arrendamento. Através da ovinocultura, podemos extrair diversos produtos:

- lã, fibra de indiscutível qualidade, conhecida em todo o mundo;
- carne, muito consumida em diversos países e com crescente consumo no Brasil;
- pele, de elevado potencial para a produção de calçados e vestuários, que agrega significativo valor ao processo produtivo;
- leite, considerado um elemento nobre pela indústria queijeira, é o ingrediente fundamental para a fabricação de queijos de alto valor comercial.

Hoje sentimos a necessidade de obter conhecimento sobre a produção de leite, área carente de pesquisa e desenvolvimento de processos produtivos. Mesmo o leite ovino tendo grande importância para alguns países, existe aqui no Brasil, pouco conhecimento científico sobre a atividade.

Nos últimos anos, as pesquisas têm estudado a possibilidade de adicionar gradativamente uma quantidade de gordura protegida para o rúmen, sendo então utilizada no intestino do animal (CHALUPA et al., 1984; JENKINS & PALMQUIST, 1984) e diretamente convertida em triglicerídeos (DE MARIA GHIONNA et al., 1987).

A gordura protegida é um suplemento nutricional obtido a partir de ácidos graxos de cadeia longa que ficam livres num processo de cisão dos triglicérides de óleos vegetais. Esses ácidos graxos reagem com sais de cálcio específicos e aumentam a quantidade dos ácidos linoléico e linolênico, na própria ração, para aliviar margens insuficientes desses ácidos graxos, permitindo um ótimo funcionamento do sistema biológico dos animais (CHURCH & DWIGHT, 2002). Seu nome comercial é Megalac.

Os lipídeos, ou gordura protegida podem ser usados para elevar a densidade energética nas rações dos ruminantes, sem comprometimento da degradação da fibra, e aumentar a absorção de energia de animais de alta produção no início da lactação. Tudo isso tem aumentado eficientemente a produção de leite, pela suplementação na alimentação com gordura protegida e outros óleos contendo sabão, sendo isso de baixo custo.

Pouco se sabe sobre a produção de leite de ovelha no Brasil, onde a maioria das raças criadas tem aptidão para a produção de carne ou lã, mas é possível encontrar animais com aptidão leiteira. A raça Bergamácia, originária da Itália, é utilizada na produção de leite, e em nosso país, para carne, conhecendo-se muito pouco a respeito da produção e qualidade do seu leite.

Em experimento realizado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia de Botucatu, utilizando ovelhas da raça Bergamácia, obteve maior produção de leite após a desmama, que foi feita com 45 dias de lactação, nas ovelhas suplementadas com Gordura Protegida (35g/ovelha/dia).

Figura 1. Média da produção de leite nos tratamentos com Gordura Protegida (Megalac) e dieta somente com concentrado (Controle), realizada a cada 10 dias de lactação.


Ovelhas de primeira cria, produzem menos leite do que ovelhas mais velhas, e a produção máxima é geralmente alcançada na terceira ou quarta lactação, sendo que após, a tendência é ocorrer uma redução da produção de leite por lactação (BENCINI & PULINA, 1997).

Segundo NOTTLE et al. (1998), programas de suplementação alimentar com gordura protegida em ovelhas no período pré-parto, incrementaram a sobrevivência e o desempenho de cordeiros da raça Merino, influenciados sobretudo, pelo efeito da suplementação na composição do colostro e na futura produção de leite. GODFREY & DOBSON (2003) ao avaliarem o efeito da suplementação alimentar no periparto, em ovelhas de raças deslanadas, concluíram que as suplementadas apresentaram menor perda de peso e maior produção de leite, em relação àquelas não suplementadas. Além disso, salientaram que as matrizes suplementadas geraram cordeiros com maiores pesos ao nascimento e à desmama, sobretudo aqueles nascidos em períodos de escassez de pastagens.

Sabe-se que um dos principais nutrientes que limitam a produção ovina é a energia, sendo que as exigências maiores são apresentadas pelas ovelhas nas oito primeiras semanas de lactação, que podem chegar até 8,5 Mcal de energia digestível por animal por dia (NRC, 1985). A deficiência de energia pode resultar de uma insuficiente quantidade de alimentos consumidos ou de uma baixa qualidade dos mesmos. O nível de gordura necessário para alterar significativamente a fermentação ruminal parece situar-se entre 40 à 70 g/Kg da dieta (SKLAN et al., 1990).

Há uma correlação negativa entre a produção e a composição do leite. Portanto, quando as ovelhas produzem mais leite, a concentração de gordura e proteína diminui. Segundo WU & HUBER (1994), observaram que em vacas leiteiras, a probabilidade de afetar negativamente o teor protéico do leite por meio da suplementação lipídica, é maior no início da lactação, em razão do balanço protéico negativo associado a este estado fisiológico, ou seja, há uma deficiência de aminoácidos para abastecer a alta síntese de proteína na glândula mamária. No experimento realizado por HASSAN (1995), à medida que a produção de leite diminuiu ao longo da lactação, os teores de gordura e sólidos totais aumentavam. CAJA & BOCQUIER (1998), estudando o efeito da nutrição na qualidade do leite de ovelhas, utilizando dietas com diferentes níveis de gordura (1.55 Mcal EM e 1.65 Mcal EM), não encontraram diferenças significativas para os teores de proteína e gordura (P>0,05) na composição do leite.

Portanto, a utilização de gordura protegida além de aumentar a densidade calórica da dieta sem o comprometimento da degradação da fibra, possibilita maior ingestão e melhor eficiência de utilização de energia, com reflexos na eficiência reprodutiva dos rebanhos, além de melhorar a produção de leite das ovelhas, como também o desempenho desses animais.

Bibliografia consultada

BENCINI, R.; PULINA, G. The quality of sheep milk: a Review. Australian Journal of Experimental Agriculture, v. 37, p. 485-504, 1997.

CAJA G., BOCQUIER F., 1998. Effects of nutrition on ewe's milk quality. Cooperative FAO-CIHEAM Network on sheep and goats, Nutrition Subnetwork, Grignon, France, 3-5 September, 1-16.

CHALUPA, W., RICKABAUGH, B., KRONFELD, D.F., SKALN, D. Rumen fermentation in vitro as influenced by long-chain fatty acids. Journal of Dairy Science, v.67, p.1439-1444, 1984.

CHURCH & DWIGHT CO. Megalac-r, rumen bypass fat. EFA Alert Research Summary. 28 p. 2002.

DE MARIA GHIONNA, C., BARTOCCI, S., TERZANO, M.G., BORGHESE, A. Fatty acids as calcium soaps in the diet of lactating goats. In: Effects on milk yield, milk fat and protein content. Ann. Ist. Sper. Zoot., v.20, p.231-242, 1987.

GODFREY, R.W., DOBSON, R.E. Effect of supplemental nutrition around lambing on hair sheep ewes and lambs during the dry and wet seasons in the U.S. Virgin Islands. Journal of Animal Science, v. 81(3), p.587-593, 2003.

HASSAN, H.A. Effects of crossing and environmental factors on production and some constituents of milk in Ossimi and Saidi sheep and their crosses with Chios. Small Ruminant Research, v.18, p.165-172, 1995.

JENKINS, T.C., PALMQUIST D.L. Effect of fatty acids or calcium soaps on rumen and total nutrient digestibily of dairy ratinos. Journal of Dairy Science, v.67, p.978-986, 1984.

NOTTLE, M.B., KLEEMANN, D.O., HOCKING, V.M., GROSSER, T.I., SEAMARK, R.F. Development of a nutritional strategy for increasing lamb survival in Merino ewes mated in late spring/early summer. Animal Reproduction Science, v. 52(3), p, 213-9, Sep 11, 1998.

N.R.C. Nutrient Requirements of Sheep, Anonymous Washington, D.C. ed.National Academy Press, 6 ed. p. 30-32, 1985.

SKLAN, D., NAGAR, L., ARIELLE, A. Effect of feeding different levels of fatty acids or calcium soaps of fatty acids on digestion and metabolizable energy in sheep. Animal Science, v.50, p.93-98, 1990.

WU, Z.; HUBER, J.T. Relationship between dietary fat supplementation and milk protein concentration in lactating cows: a review. Livestock Production Science, v.39, p.141-155, 1994.

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Comentários

Rodrigo Martins de Souza Emediato

São Paulo - São Paulo - Indústria de laticínios
postado em 09/06/2008

À medida que o melhoramento genético de vacas leiteiras aumentou muito a capacidade de produção de leite, as suas necessidades de nutrientes aumentaram proporcionalmente. Porém, não aumentou na mesma proporção a sua capacidade de consumo. Desta forma, foi necessário o aumento da densidade energética da dieta através da utilização de gorduras. No entanto, esta inclusão de gorduras é limitada, pois influencia negativamente na fermentação das fibras pelos microrganismos do rúmen.

A gordura protegida é produzida com óleo de palma nos EUA e no Brasil com óleo de soja e foi desenvolvida com o intuito de amenizar os problemas metabólicos provocados pelo balanço energético negativo em vacas de leite, quando elas diminuem a ingestão nas últimas semanas de gestação, pois contém 6,52 Mcal/kg (três vezes mais que a energia do milho) e não interfere na digestibilidade de fibras no rúmen.

Com a evolução das outras culturas, a gordura protegida começou a ser testada em bovinos de corte, caprinos e ovinos, geralmente de leite, pois além de atuar como suplemento energético, percebeu-se que é possível modificar o perfil de ácidos graxos dos produtos (carne e leite), geralmente, aumentando a concentração de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, como os ômegas 3 e 6 (ácidos linolênico e linoléico, respectivamente).

A reação entre o óleo e o sal cálcico utilizado, formam o que chamamos de sabão cálcico de ácido graxo, que são muito estáveis em pH ruminal, que em condições normais varia de 5,9 a 6,8, sendo digerido somente no abomaso, onde o pH é de cerca de 2,0. A digestão enzimática no abomaso desfaz a estrutura formada anteriormente, liberando os ácidos graxos que serão absorvidos pelos animais no intestino e daí para a corrente sanguínea e tecidos.

Apesar dos benefícios da gordura protegida, geralmente adiciona-se pequenas quantidades no concentrado. Depende sempre do potencial de produção de leite das matrizes, mas para pequenos ruminantes utilizam-se cerca de 40 a 80 g/cab/dia e vacas cerca de 300 a 400 g/cab/dia.

Mesmo tendo alto valor (em 2005 = R$ 1.600,00/tonelada), foi economicamente viável, aumentando a produção de leite de ovelhas em quase 13% e retorno econômico por ovelha quase 4% maior.

Os ganhos com a sua utilização são muitas vezes indiretos, como a melhora na condição corporal das matrizes, melhora dos índices reprodutivos pós parto, ganho de peso de animais em crescimento, entre outros.

Portanto, a gordura protegida é mais uma ferramenta disponível para ser utilizada estrategicamente, podendo muitas vezes melhorar o desempenho dos animais e inclusive o retorno econômico da atividade, que é o principal para o produtor.

Luiz Augusto Brandão Ractz

Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Consultoria/extensão rural
postado em 21/04/2011

Marcela
Tem algum estudo sobre a suplementacao em matrizes com intuito na producao de cordeiros?

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