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História de um ex-técnico

Por João Alberto Haag Luiz
postado em 17/03/2011

5 comentários
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Até o final dos anos 80, o Rio Grande do Sul possuía 13 milhões de cabeças de ovinos das quais 80% eram raças laneiras (Merino Australiano, Ideal e Corriedale).O comércio de lãs era voltado para exportação, organizado por cooperativas bem estruturadas: Cooperativa Vale do Uruguai de Uruguaiana que tinha o lanifício mais moderno da América do Sul, com máquinas importadas da França que lavavam, penteavam e faziam o fio que era exportado para China e Japão.

Em Bagé a Cooperativa Bageense de Lãs (COBAGELÃ) tinha várias filiais e comercializava a lã de um número grande de municípios da região da "Campanha Gaúcha". Outros municípios importantes e tradicionais criadores de ovinos produtores de Lã como Santa do Livramento, Quaraí, Alegrete, São Gabriel, Jaguarão, Pelotas e Caçapava do Sul possuíam cooperativas importantes e organizadas que além da comercialização da lã, se encarregavam de dar assistência técnica, promover o melhoramento genético e sanitário aos rebanhos. A maioria dessas cooperativas eram responsáveis pela organização das Expofeiras dos seus municípios sedes.

Quando eu nasci em 1956, meu avô paterno (José Acelino Gonçalves Luiz- "ZECA") era cabanheiro de Romney Marsh (raça ovina com duplo propósito: carne e lã), tinha plantel PO das raças bovinas Shothorn e Hereford, inclusive ganhou prêmios na Exposição Agropecuária do Menino Deus em Porto Alegre. Mais tarde meu tio e meu pai seguiram com animais de cabanha por vários anos e foram pioneiros na criação da associação rural em Caçapava do Sul, que mais tarde se transformou em Cooperativa Agropecuária Mista de Caçapava do Sul Ltda-COOPAM que mais adiante eu viria trabalhar.

Foi neste meio que eu formei minha personalidade, peguei gosto pela pecuária e por influência de um amigo, Luiz Carlos Abascal, zootecnista e técnico da ARCO (Associação Brasileira de Criadores de Ovinos), fui (1979) para Uruguaiana(RS) cursar Zootecnia na PUC (primeira Faculdade de Zootecnia do Brasil). Lá tive o privilégio de conhecer grandes zootecnistas, Vidal Faria Ferreira, Roberto Boffil (meu mestre da cadeira de ovinocultura), Francisco Jorge Boffil, José Ovídio Gomes da Costa (meu paraninfo) que me proporcionaram grandes ensinamentos e fizeram com que eu escolhesse a ovinocultura como a atividade principal na minha carreira técnica.

Estagiei no Lanifício Vale do Uruguai onde aprendi sobre micronagem (finura das fibras de lã), acompanhei os testes em laboratório. Tive oportunidade de conhecer os processos da industrialização seguindo todos os passos: classificação, lavagem, cardagem, penteado(tops), fiação.

Em 1982, quando conclui o curso, fui contratado pela Cooperativa de Caçapava do Sul - "COOPAM" para fazer parte do departamento técnico da cooperativa que completaria o quadro com três médicos veterinários. A minha função era bem diversificada: no setor da lã eu assumi o cargo de gerente do departamento com responsabilidade no armazenamento, classificação e comercialização. No departamento técnico selecionava os rebanhos dos mais de 1.500 associados e coordenava as expofeiras agropecuárias do município.

Nos últimos anos (1988-1990) fiz parte do corpo técnico da ARCO com a finalidade de selecionar e registrar animais SO (seleção ovina), RD (raça definida), RGB (Registro Genealógico Brasileiro), PO (puros de origem) para formar matrizes e reprodutores. Atuei como jurado (juiz) em expofeiras. Participei de dois Congressos Mundiais da Lã (Rio de Janeiro em 1985 e Capta-Croácia então Iuguslávia em 1989). Além de ministrar algumas palestras em Simpósios e Seminários de Ovinocultura. Na FEBRALÃ -Federação Brasileira da Lã, fui membro da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Durante esse período até o final de 1989,o mercado internacional da lã manteve-se aquecido. A partir do início dos anos 90 houve uma grande crise mundial no mercado laneiro provocando um desestímulo dos criadores de ovelhas produtoras de lã. Inicia-se o período do desenvolvimento dos rebanhos ovinos produtores de carne, segmento em alta até o momento.

Quando a crise mundial da lã chegou pegou as COOPERATIVAS despreparadas para a crise, porque até então conviviam com a fartura e aconteceu o inevitável: uma quebradeira geral. Foi nesse período que resolvi mudar de atividade. Abandonei a área técnica pela comercial onde atuo até hoje. Mas tenho SAUDADE daquela época!

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João Alberto Haag Luiz    Santa Maria - Rio Grande do Sul

Consultor de vendas

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Comentários

Elisabete Youngman

Santa Cruz do Sul - Rio Grande do Sul - Produção de ovinos de lã
postado em 18/03/2011

Acredito (de verdade ) que a lã de ovelha vai voltar a ser valorizada e espero que um dia vocâ possa passar essa experiância toda para nós colonos....e onde tudo começou nao? E assim vais matar essa saudade e n´s vamos ser eternamente agradecidos.


João Alberto Haag Luiz

Santa Maria - Rio Grande do Sul - Produção de ovinos de lã
postado em 18/03/2011

Prezada Elisabete Youngman:
Eu também acredito porque o Mundo está exigindo produtos naturais. A Lã é uma fibra natural capaz de produzir produtos nobres(tecidos finos de alta qualidade para verão,forrações de aviões,cortinas e forrações dos mais modernos prédios europeus....). Muito obrigado e estarei sempre a disposição para interagir com pessoas interessadas no "MUNDO DA LÃ".
Abraços,
Att:João Alberto Haag Luiz

Ivan Saul

São José dos Pinhais - Paraná - Produção de ovinos
postado em 18/03/2011

Caro Dr. Haag Luiz.

Tempo bom aquele, que como disse o poeta sobre a infância, "os anos não trazem mais".

Mas, como a colega Elisabete, tenho certeza de que é uma questão de tempo para o mercado da lã reaquecer-se (embora pareça um trocadilho infame). Pena que ao não considerar a lã como um produto estratégico, não bastaram os exemplos da história, nosso país deixou que uma cadeia plenamente estruturada e ativa desaparecesse para sempre.

Nossa atual opção pelos ovinos do tipo carne, que pode ser passageira também, não nos distancia da expansão do mercado de fibras naturais e, com a elevação dos custos da energia (seja qual for a fonte - vide o Japão hoje), cada vez mais existirá demanda para os isolantes térmicos onde a lã é insubstituível.

Estaremos por aí para assistir e, quem sabe, ajudar. Um abraço colega!

Saudações ovelheiras!
Ivan Saul D.V.M. M.Sc.Vet. - Granja Po´A Porã, 18/mar/2011.
http://ivansaul.blogspot.com

João Alberto Haag Luiz

Santa Maria - Rio Grande do Sul - Produção de ovinos de lã
postado em 21/03/2011

Prezado Ivan Saul:
Como respondi a Sra. Elisabete,também acredito na volta do "MERCADO DA LÃ",valorizado!Pena que estas interrupções,desmobilizam,desestruturam,trazem prejuízos econômicos irreparáveis.
No RS o rebanho ovino laneiro ficou reduzido a pequenos grupos conservadores. A maioria dos ovinocultores cruzaram seus ovinos lã com ovinos carne,botando fora toda uma genética de anos de seleção. Quanto custa isso?
Saudações ovelheiras,grande abraço;
Att:João Alberto Haag Luiz
Twitter: @haagluiz

EDUARDO PICCOLI MACHADO

Alegrete - Rio Grande do Sul - Produção de ovinos de lã
postado em 21/03/2011

Caro Dr. Haag Luiz,

Fico feliz com a exposição e publicação da sua experiência profissional . O Sr. é o testemunho completo do que muitas vezes eu, e o Ivan Saul temos dito aqui neste espaço . Insistimos para os novatos que a ovinocultura no Brasil não está sendo inventada nem é recente. Ao contrário. Já tivemos uma cadeia altamente organizada e também muito direcionada a exportação, não só da lã como também do cordeiro. As reticências que muitas vezes expomos, e algumas vezes mal interpretadas, são em razão das experiências adquiridas.

Costumo dizer que o marco final da atividade laneira foi a quebra do Lanifício Albornoz, de Santana do Livramento para quem não conheçe. e da produção de cordeiros para abate foi a Guerra do Golfo em 1991, com o embargo econômico do Iraque que comprava quase toda a produção da fronteira oeste, abatida no Frigorífico Alegretense.

Após estes anos, os que ficaram na atividade e conservaram a pureza de seus rebanhos foram poucos que nutriam a esperança de uma melhora, ou seja, ficaram os apaixonados que não tiveram corajem de destruir o banco genético que possuiam. Mas os "apaixonados" sobreviveram e o hoje estão colhendo os melhores frutos. Não pedi a permissão do Ivan Saul. Mas somos dois que quando agora tentam dizer que a informalidade precisa ser combatida para organizar a cadeia, discordamos dizendo que ela também precisa existir, pois é o mercado informal que garantiu a sobrevivência de nossos rebanhos nos últimos 20 anos e hoje impede a exploração do produtor pelos grandes conglomerados ou marchantes inescrupulosos, que até 2 anos atrás queriam comprar o meu cordeiro a R$2,00 o kilo e vendiam o "frenched rack" a R$28,00 para o supermercado, sendo que com a venda somente deste corte pagavam todo o preço do cordeiro vivo. E se a informalidade representa evasão fiscal, juro que não tenho nenhum remorso, pois quando quebrou a cadeia, e não tinhamos para quem vender a lã e o cordeiro, não houve nehum socorro às cooperativas e aos produtores. Assim vemos hoje toda a euforia com a ovinocultura muito positiva, mas sempre com cautela pois na hora que não for viável para indústria ela não pensará em nos jogar a margem da estrada novamente.

Abraços e lhe peço que participe do alto desta enorme experiência profissional.

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