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Integração lavoura X pecuária com ovinos no oeste baiano. Parte 2

Por Paulo José Theophilo Gertner
postado em 26/12/2006

2 comentários
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Dando continuidade nas considerações sobre a Integração Lavoura X Pecuária (ILP) com ovinos no oeste baiano (figura 1) (clique aqui para ler o primeiro artigo) podemos afirmar que esta é sem duvida a modalidade de integração mais interessante para as fazendas que cultivam grãos e precisam de palhada para o Plantio Direto (PD), técnica imprescindível para sustentabilidade do sistema agropecuário no cerrado, que vem mostrando-se muito produtivo.

Figura 1. Oeste baiano.


Fonte: SAGRI-BA

Podemos descrever como sendo os principais métodos desenvolvidos pela EMBRAPA nesta área, nas duas últimas décadas, o Sistema Santa Fé, a modalidade mais indicada para as áreas de lavoura e o Barreirão para as regiões de maior presença da pecuária e para o vale da região.

O Sistema Barreirão consiste em plantar uma cultura anual como soja, milho, arroz, ou outras, corrigindo a fertilidade do solo e consorciando com uma gramínea para pastejo nos próximos dois a três anos, quando retorna-se ao plantio de grãos.

A diferença básica entre o Sistema Santa Fé e o Barreirão, é que no Barreirão, normalmente a lavoura é feita de quatro em quatro anos para a recuperação das pastagens, que começam a entrar em declínio após esse período de utilização, enquanto que no sistema Santa Fé, planta-se lavoura todos os anos, consorciada com gramíneas. Portanto a lotação de animais neste último deve ser mais alta para não permitir que a forrageira sementeie no inverno (período seco na região), mas que garanta a cobertura morta para o PD da próxima safra.

As propriedades no oeste baiano que já fazem ILP com ovinos vem mostrando que, no período das águas, têm conseguido uma carga média de 45 ovinos/ha, em pastos de Capim-Tifton-85 (Cynodon nlemflüensis x C. Dactilon cv. Tifton - 85), Capim-Tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia-1), Capim-mombaça (Panicum maximum cv. Mombaça), Capim-Aruana (Panicum maximum cv. Aruana), entre outras, adubados no período das águas. Além disso, as ovelhas são também suplementadas com silagem de milho, sorgo e sal mineral.

Na seca, que vai de março a outubro, realizam a produção de feno ou silagem da produção forrageira desta área, e os animais pastam no restolho (restos culturais + gramíneas anuais).

Se considerarmos que há atualmente 1,5 milhão de hectares (ha) com grãos na região, dos 3 milhões passíveis de agricultura e supormos que 10% dessa área venham a fazer ILP com ovinos, aumentando gradativamente nos próximos oito anos, teríamos em 2015: 150.000 ha, com carga animal de 10 cab./ha na seca, de março a outubro, no restolho, e 45 cab./ha. nas águas.

Isso seria uma carga animal de 1,5 milhão de ovinos, só nos 11 municípios do cerrado, onde estão presentes as culturas de grãos tecnificadas da região. Aumentaria em quase 50% o rebanho Baiano, dos atuais 3.071.538 de ovinos e 22% do rebanho nacional (2º lugar - Anualpec,2005), transformando-nos no maior rebanho do País.

Nestas condições, os índices de produtividade seriam muito superiores aos atuais do Semi-Árido do estado, onde está a maior parte do plantel e predomina o baixo desfrute do rebanho, tirando a Bahia da atual situação de não atender sequer a demanda interna de carne, e transformando-a em fornecedor, diminuindo a ociosidade do parque industrial frigorífico baiano.

Os 10% dos 1,5 milhão de ha cultivados com lavouras exigiriam portanto 33.333 ha de pasto, para os 1,5 milhão de ovinos, no período da safra agrícola, que vai de outubro a março, e que pastariam no restolho destes 150.000 ha de lavouras integradas, pós colheita, usufruindo as gramíneas, os resíduos da adubação da safra agrícola e deixando palha a ser dessecada em outubro, para o próximo plantio direto - PD da safra agrícola.

Faz-se necessário dizer que este pasto adubado tem um suporte superior, e se mantém verde por quase todo o período seco e tem de 3 a 12% de grãos no chão que caem das colheitadeiras por ocasião da colheita, enriquecendo o restolho, de modo que essa estimativa de 10 ovinos por hectare, na seca, é por baixo. Temos ai a ILP- temporal, aonde a mesma área é utilizada para agricultura e pecuária em períodos distintos do ano, de forma complementar uma a outra. Quanto maior for à perda de grãos pela colheitadeira, mais rico será o restolho, e o ganho de peso dos ovinos.

Portanto quanto mais ineficiente for à colheita, com maior perda de grãos, melhor será o resultado no ganho dos ovinos, transformando o que havia sido perdido (ou prejuízo) na agricultura, em lucro na pecuária de pequenos ruminantes, outra vantagem do sistema ILP.

É digno de nota que o aparelho de preensão dos alimentos nos ovinos é muito mais eficiente do que o dos bovinos para aproveitar esses grãos caídos, pela sua maior mobilidade labial, pois apreende também com os lábios, e já o bovino só com a língua, mostrando ai mais uma vantagem dos ovinos neste sistema, para aproveitar os grãos residuais da colheita que caem ao solo.

Do ponto de vista de Medico Veterinário, é interessante notar que mesmo com tamanha carga animal, 45 cab/ha no período chuvoso, as fazendas no oeste baiano não vêm tendo problemas de verminose, que é o mais grave da ovinocultura intensificada e vem sendo monitorado pela técnica de contagem de ovos por grama de fezes (OPG). Isso ocorre porque durante o período em que os animais estão no restolho, é dado um vazio sanitário na área dos piquetes usados nas águas, com alta carga animal de pastejo, quebrando assim o ciclo dos endoparasitos tão prejudiciais aos ovinos.

O mesmo acontece nas áreas de restolho que durante a safra quebra o ciclo dos parasitos. Conseqüentemente, há uma significativa diminuição das dosificações de anti-helminticos utilizadas, baixando os custos e garantindo-se um produto final com menos resíduos químicos destes fármacos nos produtos cárneos, exigência de alguns mercados e slogan que deve ser melhor aproveitado pelos pecuaristas do oeste baiano.

Segundo o Professor Farouk Zacharias, a possibilidade de não expormos mais os animais as altas quantidades de larvas infectantes presentes no ambiente pastejado, cria uma dinâmica de quebra do ciclo da população de nematódeos, em níveis críticos, nos animais e na pastagem, onde se encontra a maior população. Portanto a ILP passa a ser uma importante estratégia de controle parasitário em ovinos. (ZACHARIAS,2005).

Portanto, na região oeste, por meio da implementação da ILP, tanto no vale como no cerrado, a Bahia pode vir a ter o maior rebanho de ovino para carne do país, pode otimizar seu parque industrial frigorífico hoje ocioso em sua capacidade de abate, sem que isso signifique uma migração da ovinocultura das regiões norte e nordeste do estado, onde esta 67,2% do rebanho atualmente, onde cumprem uma função social das mais relevantes, e aonde o Governo deve atuar mais intensamente na capacitação e transferência de tecnologias de convivência com a seca, pois predominam aí pequenos produtores.

Para o oeste baiano, o apoio institucional e logístico já garantirá aos empresários o ímpeto de continuarem a fazer o que já vêm fazendo com todas as demais culturas na região e é isso que esperamos do novo governo, agora no início de 2007.

Mas significará, sim, um acréscimo no atual contingente ovino e mais do que isso, um crescimento qualitativo e quantitativo da produção, uma vez que com produtividade e desfrute bem mais significativos se comparados com os das regiões tradicionais de produção ovina do estado, uma vez que a disponibilidade de recursos forrageiros e de resíduos da agricultura no oeste, somando-se ao perfil empresarial dos produtores desta região, a presença do Frigorífico com S.I.F., desenvolver-se-á ali um dos maiores pólos de ovinocultura do país.

Reflitam nos dados contidos na tabelas abaixo e ponderem no que isso poderá significar para o estado da Bahia e para o Brasil:

Tabela 01. Comparação dos Índices Zootécnicos Bovinos X Ovinos

M.S. (Matéria Seca), Volumoso mais Ração Concentrada Balanceada
P.V. (Peso Vivo)
01 U.A. (Unidade Animal)
GMD (Ganho Médio Diário)
@ = Arroba (30 kg de P.V.)
Fonte: GERTNER, 2006


Isso representa um rendimento 70% superior dos ovinos sobre os bovinos, logicamente que a mão de obra não mantém uma proporcionalidade, uma vez que o manejo e as minúcias com os ovinos é maior!

Tabela 02. Índices zootécnicos médios do rebanho bovino nos cerrados e em sistemas tecnológicos mais evoluídos (ILP) em Campo Grande, MS.


Fonte: Embrapa Gado de Corte (2000)

Vantagem evidente do sistema de ILP, que se repete com os ovinos em igual e ou até superior vantagem, para os ovinos!

Tabela 03. Índices zootécnicos médios do rebanho ovino recomendados para o nordeste brasileiro, de acordo com os níveis de tecnologia adotados na atividade.


Fonte: BNB - Agenda do Produtor (1998) e EMBRAPA-CNPC (1994) e atualizada em (2002).

Precisamos entender que esta simulação de sistema de produção basea-se em condições averiguadas em loco, por ocasião de primeira expedição de reconhecimento do estágio atual da ILP, com ovinos no estado da Bahia, na qual foi realizada uma viagem, no período de 07 a 09/09/2006 (período da seca), percorrendo 1500 km no extremo oeste do estado da Bahia, e foram visitadas 6 propriedades, 3 no cerrado e 3 no vale, e várias outras ficaram para ser visitadas em uma segunda viagem a ser programada.

Participaram da viagem o Prof. Adriano Lupinacci, o Prof. Candido N. de Vasconcelos, acadêmico de Agronomia Josuel, empresário Ivan Carvalho, acadêmico de Medicina Veterinária Paulo Jose T.Gertner.


Fonte: EMBRAPA, Gado de Corte, Armindo Kichel,2005

Partindo dos pontos levantados neste trabalho, é necessário promover uma articulação dos agentes envolvidos em todo o SAG - Sistema Agroindustrial da Ovinocultura no oeste baiano, caracterizando um arranjo produtivo local, antes, dentro e pós porteira, de modo a desenharmos os moldes de atuação institucional, organizacional local, viabilizando meios de atuar nos diversos elos, movendo-os a ação conjunta e coordenada, para que os pontos aqui levantados não se percam como uma especulação intelectual, uma vez que o que já vem ocorrendo na região fala por si só desta necessidade premente.

A Integração Lavoura X Pecuária, com ovinos, veio ao encontro da necessidade dos agricultores de programarem melhor suas atividades diante das oscilações dos preços agrícolas, da necessidade técnica do plantio direto, da forte demanda por carne ovina, sendo uma evolução natural do processo de produção de grão nos cerrados do oeste baiano.

Intensificando-se a produção, cria-se uma nova atividade, diminuindo-se os riscos inerentes a atividades agropecuárias, estendendo-se a toda atividade Agrosilvopastoril, seja grãos, café, fruteiras, silvicultura(eucalipto). Todo sistema consorciado de produção cria um sinergismo benéfico para a fertilidade do solo, com aumento da produção agrícola e pecuária mantendo-os assim produtivos ao longo do tempo pelo equilíbrio biológico criado pelo sistema ILP. Isso permite a sustentabilidade produtiva, viabilizando deste modo empreendimentos agropecuários no além São Francisco, de forma que os resultados técnicos e econômicos mostram que é uma alternativa viável a ser implementada em grande escala no oeste baiano.

Certos de que colaboramos para colocar o tema em discussão nos sentimos desde já motivados a continuar a empreender por essas veredas, como técnico e criador na região.

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Paulo José Theophilo Gertner    Lauro de Freitas - Bahia

Médico Veterinário

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Comentários

Pedro Rego Leite

Maceio - Alagoas - Produção de ovinos
postado em 28/12/2006

Este segundo trabalho sobre integração lavoura-pecuária com ovinos consagra o articulista como técnico competente, além de disseminador de informações com os colegas de atividade.

Bruno Fernandes Sales Santos

Dunedin - Otago - Nova Zelândia - Produção de ovinos
postado em 31/12/2006

Excelente matéria !!!

É a visão que muitos produtores, técnicos, governo e que muitas pessoas do meio não possuem. A eficiência dos sistemas de produção de ovinos em todo o Brasil dependem diretamente de uma alimentação de qualidade e com baixos custos.

Está neste conjunto de fatores o resultado em termos de lotação, utilização da área durante todo o ano, respeito aos fundamentos básicos do bom manejo ambiental, atendimento das expectativas da função sócio-ecoinòmica da atividade ovina.

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