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Nova Embrapa

Por Xico Graziano
postado em 30/10/2012

6 comentários
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Grande empresa de pesquisa agropecuária, a Embrapa procura sua identidade. Com passado brilhante, precisa definir uma estratégia de futuro, conectada ao atual processo do desenvolvimento nacional. Novos desafios do campo.

Tarefa difícil, mas fundamental. Começa por rememorar a criação da entidade, há 40 anos. Naquela época, na década de 1970, a agricultura brasileira começava a intensificar o uso de capital, modernizando suas antigas relações de produção, herdadas do período latifundiário. A crescente industrialização requeria braços para o trabalho e a consequente urbanização demandava alimentos na cidade. A melhor saída seria o aumento da produtividade no campo. Caminho da tecnologia.

Havia, já disponível, boa carga de conhecimento gerada nos tradicionais institutos de pesquisa do Estado de São Paulo, principalmente o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Instituto Biológico. Materiais genéticos desenvolvidos no IAC, bem como estudos de pragas e doenças realizados no Instituto Biológico, foram essenciais para o primeiro arranque tecnológico da agricultura brasileira, nos anos 1950. Até hoje as variedades IAC formam a base genética da agricultura nacional.

Ante a rapidez do crescimento econômico, entretanto, era insuficiente o desempenho produtivo no campo. Puxadas pela capital paulista, as metrópoles brasileiras trouxeram o drama do abastecimento popular. Antes, o armazém rural, a galinha caipira, a vaquinha, a horta e a roça davam conta de fartar a mesa. Depois, com a explosão populacional e o êxodo rural, todo mundo correndo para morar na cidade, virou um problema alimentar o povo. Chegou a carestia ao asfalto.

Foi quando os agricultores descobriram o potencial produtivo do Cerrado. Uma bênção. Solos arenosos e ácidos, clima seco, vegetação dominada por arbustos pequenos, retorcidos, jamais se imaginara que aquelas terras do Centro-Oeste, aparentemente inférteis, pudessem servir à produção. Dominadas pelas novas tecnologias, porém, elas se mostraram extremamente fecundas. Sorte do País.

Nesse momento surgiu a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Cirne Lima, então ministro da Agricultura, coordenou os trabalhos de criação da nova empresa pública, cujos estatutos foram decretados em 28 de março de 1973. Seu primeiro presidente, José Irineu Cabral, contava com um braço direito que, no decorrer dos anos, e até hoje, se mostrou o mais aplicado e inteligente estudioso do desenvolvimento tecnológico no Brasil: o agrônomo e economista rural Eliseu Alves.

A conquista agronômica do Cerrado centralizou um salto tecnológico na agricultura. E a Embrapa cumpriu um papel inigualável nesse momento. O impulso governamental, decisivo, ganhou qualidade ao ser liderado pelo competente e criativo agrônomo Alysson Paulinelli, inesquecível ministro da Agricultura. Uma das estratégias bem-sucedidas da Embrapa foi a organização da pesquisa em centros especializados por produto. Regionalizando a experimentação agropecuária, obteve-se enorme impulso no conhecimento aplicado à terra.

Mudou o paradigma. Se anteriormente a pesquisa nacional buscava tecnologia no exterior, vinda dos Estados Unidos especialmente, para aqui adaptá-la, após a criação da Embrapa conseguiu-se gerar tecnologia própria: agricultura tropical. Por meio do melhoramento genético, variedades de plantas oriundas de climas frios, como a soja, aclimataram-se ao calor tupiniquim. Mais produtivas, as variedades Embrapa começaram a dominar o mercado de sementes agrícolas.

Aos poucos foi surgindo no Brasil um modelo único de agricultura. Com os modernos herbicidas, a evolução da engenharia agrícola possibilitou um pacote tecnológico que maravilha o mundo: o plantio direto. Esse sistema de cultivo, que já domina na safra nacional de grãos, dispensa a aração e a gradação do solo para efetuar a semeadura. Menos custo, maior produtividade. Fim da erosão.

Não se resumiu, porém, ao Cerrado, muito menos às atividades vegetais, a atuação da Embrapa. Em todos os biomas, de norte a sul do País, nas criações e na horticultura, no monitoramento ambiental, amplo foi o leque de atuação dos pesquisadores. Animada, a Embrapa fortaleceu-se e agigantou-se, abrigando cerca de 10 mil funcionários, movimentados por um orçamento anual de R$ 2,1 bilhões. Resumo da história: o conhecimento gerado nos laboratórios e campos experimentais da Embrapa ajudou, decisivamente, a revolucionar a roça e a vencer o desafio do abastecimento popular. Fértil trabalho.

Vieram os problemas. A primeira geração de cérebros entrou na aposentadoria e os novos concursados ingressam sem a cultura institucional colhida em sua rica história. Perde-se parte do espírito de equipe, tão caro à boa gestão. O viés corporativista, típico do governo petista, fortaleceu-se internamente, prejudicando o mérito profissional. Certo grupo pretendeu pôr a ciência agronômica a serviço da ideologia, comprometendo a pesquisa de ponta, freando a engenharia genética. Disputas internas acirraram-se.

Acabou o período de vacas gordas da Embrapa. A notável empresa pública passa pela crise típica dos quarentões: perdeu a juventude, mas não pode envelhecer cedo demais. Seu dilema maior não reside na falta de dinheiro, nem no tamanho do quadro de pessoal, muito menos na perda relativa do mercado de sementes. A essência da crise brota de seu âmago: qual sua função no mundo de hoje? Quais devem ser as prioridades da nova Embrapa?

Caberá ao pesquisador Maurício Lopes, recém-nomeado presidente da empresa, conduzir a busca da contemporaneidade da Embrapa. Se ouvir o emérito Eliseu Alves, descobrirá que na difusão do conhecimento tecnológico mora o xis da questão na agropecuária nacional.

A matéria foi publicada originalmente no Estado de São Paulo, no dia 30/10/2012.

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Xico Graziano    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Paulo R. F. Mühlbach

Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Consultoria/extensão rural
postado em 30/10/2012

Nesta parte o autor bota o dedo na moleira:


"O viés corporativista, típico do governo petista, fortaleceu-se internamente, prejudicando o mérito profissional. Certo grupo pretendeu pôr a ciência agronômica a serviço da ideologia, comprometendo a pesquisa de ponta, freando a engenharia genética. Disputas internas acirraram-se."
Com isso perdeu-se, no mínimo, uma década!

Guilherme Alves de Mello Franco

Juiz de Fora - Minas Gerais - Produção de leite
postado em 30/10/2012

Prezado Paulo Roberto Frenzel Mühlbach: Você foi otimista quando afirmou que "perdeu-se, no mínimo, uma década". Acho que a perda foi de um século, detonada pelo pó nocivo da política partidária que, onde entra, enferruja qualquer engrenagem. Toda vez que o aspecto técnico é trocado pelo político, o desastre é integral, com perda total para o mecanismo. Assim, temos visto as conduções da Embrapa serem, pouco a pouco, metamorfoseadas de pesquisa em cabide de intenções Petistas. Um absurdo. Mas, se serve de consolo, se não fosse pavorosa a constatação, todas as áreas do conhecimento científico no Brasil são admoestadas de igual forma. Veja o Caso do Físico Cesar Lattes, que teve que deixar o país para poder realizar seus importantes experimentos, o do Gurgel, que tendo pedido permissão para testar, na Capital Federal, seu carro elétrico, não foi atendido. Dos inúmeros experimentos na área de fármacos, com plantas da amazônia e da mata atlântica, hoje explorados por laboratórios estrangeiros e, assim por diante. Mas, este estado de coisas não é novo, vem dos tempos de antanho, com Santos Dumont que inventou o Avião e o Relógio de Pulso, o Padre Gusmão, com a máquina de escrever e tantos outros brasileiros de valor que tiveram que vender suas patentes aos estrangeiros, simplesmente, para poder ver seus inventos materializados (muitos de nós desconhecemos até que tais artefatos foram concebidos por compatriotas). A Embrapa não é diferente. Há pouco, nós entabulávamos conversa sobre o tema, em um de seus artigos, lamentando a grande debandada de magníficos técnicos para terras alienígenas, pois, aqui não tinham oportunidade de desenvolver seus projetos e viver com, ao menos, dignidade. E o Governo vem nos enfiar goela abaixo o IDEB, que só foi conseguido porque não se reprova mais na Educação Básica, saiba o aluno ou não. Tenho vergonha de ser Professor Universitário e ver que um aluno de Pós Graduação escreve dezenho, pocibilidade, ambissão (sic!). Mas, coitado, veio do ensino público, é pobre, não teve chance. Com a palavra o Ministro Joaquim Barbosa, Presidente do Supremo Tribunal Federal...


Por tudo isso, como produtor de leite neste Brasil, é que sou cético quanto ao futuro, tanto o nosso quanto o da Embrapa. Espero, sinceramente, estar errado, nos dois aspectos, mas não tenho mais esperanças neste eterno País em desenvolvimento (desde os tempos de nossos avós) que não evolui por total incompetência de seus gestores.


Desculpe o desabafo.


Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO


FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG


=HÁ SETE ANOS CONFINANDO QUALIDADE=

Paulo R. F. Mühlbach

Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Consultoria/extensão rural
postado em 31/10/2012

Prezado Guilherme Alves de Mello Franco,
Seu desabafo é muito válido e pertinente. É preciso exercer a cidadania e manifestar a contrariedade perante tais desmandos, É o que nos resta, na esperança de motivarmos  os principais interessados na razão da existência da Embrapa - todos os segmentos do setor agropecuário - a também tomarem partido.


Abraço,


Paulo Mühlbach

Eduardo Basílio

Uberlândia - Minas Gerais - Indústria de insumos para a produção
postado em 01/11/2012

A questão é essa mesmo Xico. A Embrapa tem deixado de ser um centro de excelência em tecnologia de ponta.  E como as coisas em tecnologia andam rápido demais, particularmente nos tempos de hoje, a empresa vai perdendo o bonde da evolução. Correr atrás é muito mais difícil. Voltar-se para seu começo meritório, menos ideologias, mais pesquisa e extensão.

jose carlos santana cavenague

Barretos - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 01/11/2012

Parabéns ao sempre atualizado e conhecedor dos grandes problemas do meio rural brasileiro . ESSE " CAUSO " É UM DOS ELOS DA CORRENTE QUE OS AMBIENTALISTAS  INSISTEM  EM DESCONHECER . Xico estamos sempre aprendendo com você.

Fernando Enrique Madalena

Belo Horizonte - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 03/11/2012

Prezados Senhores,

As pessoas mencionadas no artigo contribuíram de maneira decisiva para a formação inicial da EMBRAPA, especialmente Allyson Paulinelli, cuja determinação conduziu o desenvolvimento da Empresa -ele já tinha montado antes a pesquisa em Minas, como Secretário da Agricultura- e Eliseu Alves, cuja enorme contribuição dispensa comentários, e que continua até hoje. Seria justo, entretanto, mencionar também a contribuição de Almiro Blumenschein, que, como Diretor Técnico, teve, através de sua visão e energia,  decisiva influência nas linhas de pesquisa e na integração dos quadros técnicos iniciais.



Quanto aos problemas da EMBRAPA, eles não são exclusivos daquela Empresa, senão comuns à gestão dos órgãos públicos, inclusive a politização e o corporativismo que os Senhores mencionam, mas também a burocracia e outros, e seria um grave erro culpar um determinado partido político por problemas que se alastram desde os tempos coloniais. Um problema específico é a divisão dos pesquisadores por área de conhecimento (nutrição, pastagens, genética, etc.), apropriada nas Universidades, mas que reduz a eficiência da pesquisa, que deveria estar focada nos problemas dos produtores rurais, que não vem divididos por área. Apesar dos esforços do Diretor Edmundo Gastal e da primeira Diretoria, a pesquisa multidisciplinar, com foco nos sistemas de produção, não pôde até hoje ser implementada plenamente.

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