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Programa de fomento ao complexo agroindustrial das atividades de ovinocultura e caprinocultura no Estado de Minas Gerais - parte I de IV

postado em 06/10/2011

1 comentário
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Por Luciano Piovesan Leme, Zootecnista, ovinocultor e Presidente do NUCCORTE e Marcus Vinícius da Fonseca, Zootecnista, caprinocultor e técnico da CAPRIMA.

Introdução

Este documento foi elaborado pelo Núcleo de Criadores de Caprinos e Ovinos das Regiões dos Campos das Vertentes e Zona da Mata - NUCCORTE, com apoio da Associação dos Criadores de Cabras Leiteiras da Zona da Mata Mineira - CAPRIMA e têm por objetivo solicitar formalmente do Governo do Estado de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento - SEAPA, a efetiva implementação de um Programa de Fomento ao Complexo Agroindustrial das Atividades da Ovinocultura e Caprinocultura no Estado de Minas Gerais.

Por solicitação da diretoria do NUCCORTE, a apresentação e entrega deste documento foi formalmente realizada em audiência com o DD. Secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais - SEAPA, Dr. Elmiro Alves do Nascimento, na sede da instituição em 29 de Setembro de 2011.

Este documento não tem em seu escopo a intenção de apresentar qualquer diagnóstico dos setores de ovinocultura e caprinocultura do Estado de Minas Gerais, mas apresenta propostas que poderão estar inseridas em um Programa Estadual de Fomento com base na experiência prática e diária dos associados ligados ao NUCCORTE e a CAPRIMA, bem como contempla demanda e anseio de seus associados que enviaram sugestões e idéias que pudessem estar inseridas no contexto do documento.

Entretanto para que as propostas apresentadas possam ser mais bem avaliadas pela equipe técnica da SEAPA / MG, necessário se fez apresentar alguns dados e informações das atividades de ovinos e caprinos no Brasil e em Minas Gerais, possibilitando assim contextualizar estas propostas no cenário onde as mesmas estão inseridas.

Da mesma forma alguns conceitos foram explicitados permitindo melhor interpretação das diversas ações apontadas como essenciais e indispensáveis ao Programa Estadual de Fomento, sem no entanto aprofundar-se literalmente nos aspectos teóricos destes conceitos.

Finalmente, a expectativa de todos nós criadores ligados às associações que subscrevem este documento é de que tenhamos contribuído para o debate e ainda suscitar temas imprescindíveis ao sucesso das atividades de caprinos e ovinos e que o Estado de Minas Gerais enquanto instrumento de fomento possa efetivamente implementar instrumentos que viabilizem todo o complexo agroindustrial destas atividades produtivas e que Minas Gerais passe a despontar no cenário nacional e sirva de exemplo para outros rincões desejosos de êxito na ovinocultura e caprinocultura.

Cenário da cadeia produtiva de caprinos em Minas Gerais

A caprinocultura no Brasil cresce a passos largos em vários estados, sendo que no Sudeste existe uma grande tendência de crescimento da caprinocultura, pois há 23 anos nenhum volume de leite era industrializado para venda e distribuição em todo o país, fato que hoje se tornou realidade fazendo o Brasil cessar a importação de leite de cabra, e grande parte deste processo ocorre dentro do estado de Minas Gerais e parte do estado do Rio de Janeiro.

Está crescendo o número de propriedades que buscam trabalhar com caprinos, pois a atividade torna-se interessante por apresentar uma maior rentabilidade por área comparada a outras atividades pecuárias. Ao longo de toda esta caminhada existe uma série de objetivos a serem alcançados para fortalecer ainda mais a cadeia.

A importância do leite de cabra na alimentação humana vem aumentando nos últimos anos e esta situação reflete-se nos aumentos do número de animais e da produção de leite de cabra superiores aos correspondentes no rebanho bovino (Tabela 1). Os aumentos podem ser ainda mais significativos considerando-se que parte da produção e do consumo de produtos lácteos caprinos ainda apresenta-se em algumas áreas sob a forma informal e familiar. O aumento da produção doméstica para consumo familiar de leite de cabra, o incremento da renda familiar em países em desenvolvimento e as recomendações de uso medicinal dos produtos láteos caprinos têm permitido o aumento do consumo do leite, queijos e iogurtes (HAENLEIN, 2004).

Tabela 1- Aumento percentual do número de animais e da produção de leite bovino e caprino ocorrido entre 1980 e 1999.



A produção e a utilização do leite de cabra possuem características e finalidades que variam grandemente entre os países produtores, o que pode ser facilmente constatado analisando dados de países que ostentam as maiores produções de leite de cabra do mundo, onde estão incluídos países subdesenvolvidos e desenvolvidos (Tabela 2).

Tabela 2- Produção anual de leite de cabra nos países líderes mundiais e consumo diário de cálcio e proteína por pessoa baseados nos consumos de produtos lácteos e de carne.



A importância do leite de cabra em regiões menos desenvolvidas não deve ser considerada apenas do ponto de vista econômico, mas também social, já que os produtos caprinos podem, em alguns casos, representar a única fonte de proteína animal para a população rural, principalmente em áreas onde outros ruminantes são menos adaptados (MORAND-FEHR et al, 1983).

A produção e a comercialização de produtos lácteos caprinos, em geral, assumem características de consumo local, marketing menos organizado e pouca expansão industrial (MORAND-FEHR et al., 1983)

No Brasil a produção de leite de cabra ainda é pouco representativa, sendo a produção total equivalente a 0,9% do total de leite produzido no país (Anualpec, 2003). Na região Nordeste, que detêm 94% do rebanho caprino nacional, o consumo de leite de cabra apresenta-se mais elevado, sendo nas demais regiões, ainda reduzido e restringido principalmente à população de baixa renda, crianças intolerantes ao leite de vaca, indivíduos com recomendações médicas e pacientes idosos.

Considerando-se a qualidade nutricional comprovada do leite caprino e seus derivados como fonte alimentar, bem como as características de adaptabilidade da espécie, a atividade da caprinocultura leiteira torna-se uma alternativa sócio-econômica viável para as diversas regiões do Brasil. O desenvolvimento da atividade depende de ações conjuntas do governo, instituições de pesquisa e associações de criadores visando aumentar a produtividade do rebanho, profissionalizar os produtores, fortalecer a agroindústria e melhorar a qualidade higiênico-sanitária do leite (QUEIROGA & COSTA, 2003).

A composição do leite de cabra varia em função de variações genéticas entre raças e também dentro da mesma raça. Os constituintes do leite também podem ser afetados pelo estágio e ordem de lactação, estação do ano, tipo de dieta, estágio fisiológico, saúde animal e do úbere (CHILLIARD et al., 2003).

O conteúdo e a proporção relativa dos vários constituintes do leite de cabra contribuem significativamente para o valor do produto em termos econômicos, nutricional, tecnológicos e imunológicos (NG-KWAI-HANG, K.F., 1998). Pesquisas avançadas estão sendo realizadas com técnicas de separações específicas semelhantes às que têm sido aplicadas visando o isolamento, concentração e modificação de compostos com atividades biológicas específicas no leite de vaca, tais como peptídeos de origem da caseína com atividades de aumento de biodisponibilidade do cálcio e zinco bem como atividades de controle da pressão arterial possibilitando sua aplicação como alimentos funcionais, suplementos dietéticos e nutracêuticos (STEIJNS, 2001). Nesse sentido, esforços semelhantes no leite de cabra podem ampliar sua utilização como alimento funcional e terapêutico.

Composição e caracaterísticas do leite de cabra


Fração proteica do leite de cabra

A fração proteica do leite é um sistema complexo que difere qualitativa e quantitativamente entre as espécies, compreendendo mais de trinta espécies proteicas molecularmente distintas (MARTIN, 1996). Semelhante ao leite de vaca o teor de caseína na fração proteica do leite de cabra assume valor aproximado de 80%, sendo em ambos bastante superior ao conteúdo presente na fração proteica do leite humano que é de 50%. As proteínas do leite de cabra são similares às do leite de vaca quanto à classificação mas o conteúdo e a proporção destas diferem entre estas espécies e dentro das populações caprinas podem apresentar variações em função do polimorfismo genético principalmente.

Fração lipídica do leite de cabra

A fração lipídica do leite de cabra possui grande importância nutricional como fonte de ácidos graxos essenciais e pelo seu aporte energético que representa cerca de 50 a 60% da energia fornecida pelo leite (MAHÉ, 1997). Na composição da gordura do leite, os conteúdos das frações de glicerídeos, ácidos graxos livres e colesterol são similares entre os leites de cabra e de vaca. A elevada digestibilidade da fração lipídica do leite de cabra observada em estudos realizados com crianças com síndromes de má absorção (HACHELAF et al., 1993) e em ratos submetido à secção do segmento distal do intestino delgado para reproduzir a síndrome (ALFÉREZ et al., 2001) têm sido atribuída à presença de ácidos graxos de cadeia média (8-12 C) cerca de 2 vezes superior no leite de cabra do que no leite de vaca (BINDAL & WADHWA, 1993; TOUHAMI, 1996).

Minerais

O conteúdo de macrominerais do leite de cabra apresenta-se cerca de 2 a 3 vezes superior ao do leite humano e com relação ao leite de vaca apresenta teores superiores de cálcio, fósforo, potássio, cloro e magnésio (Tabela 9). Fatores tais como estágio de lactação, estação do ano e tipo de alimentação, podem influenciar o conteúdo mineral do leite de cabra (GUÉGUEN, 1996).

Lactose

O conteúdo de lactose corresponde a 10 a 20% do aporte energético do leite. A digestão da lactose ocorre ao nível intestinal pela enzima lactase que degrada este dissacarídeo em glicose e galactose. A lactose não digerida e absorvida é fermentada pela flora intestinal produzindo ácido lático, ácidos graxos de cadeia curta metano (MAHÉ, 1996). Cerca de 70% dos indivíduos perdem a atividade de lactase intestinal durante seu desenvolvimento. Sintomas de intolerância a produtos lácteos ocorrem principalmente quando a capacidade de fermentação da flora intestinal é excedida, sendo a incidência maior em níveis aumentados de consumo.

A caprinocultura no Estado de Minas Gerais e no Brasil

Hoje o Estado de Minas é referência na produção de leite de cabra, pois concentra a maior produção de leite para venda a nível nacional. A criação de cabras vêm se desenvolvendo de forma organizada e com visão voltada para uma empresa rural buscando organização e desenvolvimento. A produção anual, no Brasil, foi estimada em 141 milhões de litros de leite de caprinos e ovinos, contribuindo com apenas 0,7% da produção total de leite no país (FAO, 2000). Mesmo com esta modesta contribuição no cenário lácteo brasileiro, de acordo com os dados da FAO houve um aumento na produção de leite de cabra no Brasil de aproximadamente 51,6% no período de 1980 a 1992 (FAO, 1993). Com o desenvolvimento deste Complexo Agroindustrial hoje o número de empresas interessadas no mercado aumentou muito possibilitando maior venda de leite.

Até 1988, no Brasil não havia nenhuma comercialização legalizada de leite de cabra e todo o comércio era feito de maneira clandestina, quanto aos aspectos sanitários e fiscais. Por ser uma atividade muito recente no país, deve-se levar em consideração quando se faz comparações com as indústrias e mercados de outros países que estão na atividade de caprinocultura leiteira há muito tempo e dispõe de grande apoio governamental para o desenvolvimento desta atividade.

No Brasil concentra-se na região Nordeste 92% do rebanho caprino brasileiro, e é onde iniciou-se sistema organizado de aquisição, industrialização e distribuição de leite com os programas institucionais de governos estaduais. Citando o primeiro destes programas, o do Estado do Rio Grande do Norte, iniciado em 1999, foi seguido por vários outros estados com sucesso. Como conseqeência, ocorreu uma mobilização dos produtores através das associações e aumento de renda de produtores, dando como resultado imediato uma melhoria substancial na qualidade de vida dos produtores no campo e da população urbana, beneficiada pelo programa institucional do leite.

O Nordeste brasileiro, pelo tamanho do rebanho existente e potencial de exploração, apresenta ainda um pequeno aproveitamento de seu potencial de produção de leite de cabra e derivados, havendo necessidade de mais programas e incentivos para se alcançar um grande desenvolvimento do setor. Outro fato muito interessante e importante é que o leite de cabra é único em múltiplas utilizações, e por isto tão difundido e consumido sob as mais diversas formas, seja para subsistência, como matéria-prima dos melhores queijos do continente europeu, ou em uso terapêutico e até em cosméticos.

No Brasil o leite de cabra vem conquistando crescente mercado, tanto na forma de leite pasteurizado, pasteurizado congelado, como na forma de leite em pó e mais recentemente, desde 1998, em embalagens Tetra Pack tipo longa vida UHT, esterilizado e aromatizado. A industrialização do leite e seus derivados exigem instalações e equipamentos adequados e constituição legal de uma empresa e também o credenciamento junto aos Serviços de Inspeção Sanitária, podendo ser Federal (SIF), Estadual (IMA em MG; SIE no RJ; SISP em SP) ou Municipal (SIM), quando a cidade tiver Legislação Específica para Produtos de Origem Animal.

Quadro 1 - Indústrias compradoras de leite de cabra a granel.

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Comentários

José Oton Prata de Castro

Divino das Laranjeiras - Minas Gerais - Produção de ovinos de corte
postado em 08/10/2011

Parabens aos autores da iniciativa. Excelente mesmo. O dificil é sensibilizar os poderes constituídos para ações concretas e imediatas para implementação do justo pleito. Faço minhas as reinvindições da NUCCORTE e CAPRIMA. José Oton Prata de Castro - Presidente da ACCOLM - Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos do Leste Mineiro.

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