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Seguro garantia-bode

postado em 14/12/2012

8 comentários
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Autor: Clovis Guimarães Filho
Médico Veterinário, M.Sc. em Animal Science, ex-pesquisador da Embrapa Semiárido e coordenador de ATER do Projeto Pontal Sequeiro-CODEVASF, Petrolina-PE - E-mail: clovisgf@uol.com.br


Os governos, federal, estaduais e municipais, pagaram seguro garantia-safra a mais de 700 mil agricultores familiares do semiárido na safra 2010-2011 e, por incrível que pareça, ainda fazem ruidosa publicidade dessa ação que pode ser considerada como um prêmio a um insucesso planejado. O foco central dos debates é equivocado. Não se discute a produção e o que precisa ser feito para incrementá-la. Praticamente não se vê nos noticiários publicidade sobre tonelagens recordes, ou mesmo normais, de milho e feijão produzidas, apenas quantas mil famílias foram "beneficiadas" com os programas de distribuição de sementes ou com o pagamento do seguro.

Bastante compreensível a omissão, considerando que os cultivos de milho e do feijão nessas áreas só têm chance de sucesso em três de cada dez anos de cultivo. O problema é que o seguro garantia-safra é aplicado para qualquer área do semiárido, sem critério claro de zoneamento e na grande maioria dos cultivos, nas zonas mais secas, o agricultor familiar não conta com qualquer apoio técnico efetivo durante o ciclo das culturas. Um estudo da Embrapa indica que essas culturas são de muito baixa viabilidade em mais da metade da área do semiárido (55,6%), aquela correspondente às áreas consideradas no estudo como de "muito baixa a média oferta ambiental". Somente no estado do Piauí o governo já pagou mais de 120 milhões de reais aos agricultores por perdas na safra no período 2003 a 2010.

Dos mais de 68 mil agricultores inscritos no Garantia Safra 2010-2011, apenas 338 (meio por cento) conseguiram salvar mais de 50% da produção esperada. Pode-se afirmar que, de certa forma, eles foram induzidos a plantar o que não deveriam plantar. Em Pernambuco, dos 66 municípios inscritos, 52 comunicaram perdas ao MDA. Por que a persistência com este programa que estimula o cultivo do que não dá para pagar o seguro porque não deu? Por que não limitam o seguro às áreas onde essas colheitas sejam agronomicamente mais viáveis e nas áreas mais secas implantam um seguro mais coerente com aquilo que realmente é estratégico para a vida do produtor que nelas habita, como o caprino, o ovino, o mel, a galinha e o umbu? Seria um programa que poderia genericamente se chamar seguro "garantia-bode" ou "seguro-bode", o que sintetiza aquilo que realmente o produtor familiar precisa, pois quando a falta de chuvas induz uma escassez desses produtos, o produtor e sua família têm realmente comprometida a sua sobrevivência.

Todo o mundo sabe do valor do bode como o principal fator de fixação do caatingueiro, mas, até hoje, nenhum programa massivo de formação de reservas de forragem para o período seco foi implementado. Alguém sabe qual foi o estoque estratégico, em toneladas de silagem ou de feno ou de palma ou de palhadas, montado pelos estados do Nordeste para enfrentar o período seco de 2011? E para 2012, quais foram as metas previstas?

Parece que a ocorrência de uma seca sempre nos pega de surpresa. As armas efetivamente estratégicas contra as secas devem residir em planos microrregionais ou territoriais articulados das secretarias estaduais de agricultura com os municípios e as organizações de produtores, tendo por base o reconhecimento das secas como fatores normais de produção e não como anormalidades. O continuísmo de programas que priorizam a distribuição indiscriminada de sementes de milho e feijão, de animais "melhoradores", de carros-pipa, de cestas básicas, de bolsas isso e bolsas aquilo apenas sugere o completo desconhecimento do potencial em recursos naturais e humanos do semiárido para seguir um caminho mais compatível com as demandas de suas populações.

O nosso desafio é adequar as inovações e as políticas públicas às circunstâncias e potencialidades dos produtores de base familiar da região, tomando em consideração suas instituições, sua racionalidade, seu limitado acesso a insumos e a assistência técnica e os recursos disponíveis na propriedade. No semiárido, como em qualquer outra região, cada ação ou etapa desse trabalho, inclusive a introdução de novas tecnologias, deve ter seu tempo certo e seu espaço adequado para execução.

Em suma, não podemos continuar alterando o ecossistema para adaptar pseudo-soluções exógenas. As verdadeiras soluções estão aí, bem a nossa frente. Só precisamos aprender a enxergá-las. Urgentemente, já que a caatinga está sendo dizimada a um ritmo próximo aos 300 mil hectares anuais.

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Comentários

André Medeiros

Quixadá - Ceará - Produção de caprinos de leite
postado em 14/12/2012

Gostei muito da análise feita pelo colega. Plena e absoluta verdade.
"Um prêmio a um insucesso planejado", perfeito.
Caro colega Clovis: enquanto não tivermos governantes sérios e sensíveis ao que vc abordou essa prática vai se perpetuando. E, como vc bem colocou, se vangloriando por isso.
O Nordeste não precisa de pena e nem de esmola de ninguém, mas precisa sim, de condições de crédito e de assistência técnica de qualidade, permanente e contínua para que possamos fazer o que sabemos: trabalhar e produzir o que dá por aqui.
Não precisamos descobrir a roda, mas simplesmente fazê-la girar a nosso favor.
Parabéns pelo artigo.
Forte abraço.

Clovis Guimarães Filho

Petrolina - Pernambuco - Consultoria/extensão rural
postado em 14/12/2012

Prezado André Luiz Nogueira de Medeiros,

Fico muito grato com a sua mensagem de estímulo, ainda mais por vir de um caprinocultor de leite. Realmente, só precisamos de determinação e organização. O resto, o potencial do semiárido, ainda muito pouco conhecido, retribuirá.

Abraço
Clovis Guimarães Filho

Alexandre Ribeiro Araújo

Carnaubal - Ceará - Pesquisa/ensino
postado em 17/12/2012

Caro André,

Parabéns pelo artigo. Suas ponderações foram muito pertinentes. Devemos ter projetos que viabilizem a fixação do homem ao campo considerando as potencialidades locais, que são diversas em nossa região.

Cândido Roberto de Araújo

Petrolina - Pernambuco - Consultoria/extensão rural
postado em 21/12/2012

Parabenizo Dr. Clovis pela bela abordagem e como ele não vejo melhor alternativa de desenvolvimento para a maioria do semi-árido; o garantia-safra em regiões de pecuária só tem servido para alienar e induzir os produtores ao fracasso, do fim de 2011 pra cá as principais reuniões das diversas esferas (gov e não-gov) que tiveram maior mobilização e foco na mídia foram exatamente as referentes aos municípios que foram excluídos do garantia-safra; enquanto a discussão de um desenvolvimento sustentável........

José L Pontes

Pindoretama - Ceará - OUTRA
postado em 21/12/2012

Sábias palavras meu caro Clóvis Guimarães, mas infelizmente essa situação se perpetua porque nas funções de técnicos e cientista especializados nas diversas áreas que englobam o setor, são nomeados cabos eleitorais para administra-las e dar continuidade a essa chuva de imcompetências e de projetos sem critérios científicos. Uma verdadeira farra com o dinheiro do contribuinte, para alimentar esses currais eleitoreiros.
Parabéns pelo artigo.

Cassia Duran

Salvador - Bahia - OUTRA
postado em 24/12/2012

Excelente abordagem e acho importante ser mais divulgado. Precisamos fortalecer e dar mais condições ao homem do campo.

Luciano Ferreira dos Santos

Mirante - Bahia - Consultoria/extensão rural
postado em 24/12/2012

Parabéns pela matéria, aqui em nossa região, nós incentivamos a produção de reservas estratégicas para o período de seca mas, há vários limitantes como a falta de apoio governamental, cultura entre outros. Em meu ver assim como o fator água, as reservas podem ser decisivas na produção animal e conseqüentemente na fixação do caatingueiro em suas propriedades. Devemos intensificar nossos esforços nessas áreas melhorando a vida do caatingueiro e de suas criações...

Clovis Guimarães Filho

Petrolina - Pernambuco - Consultoria/extensão rural
postado em 01/01/2013

Prezado Luciano Ferreira dos Santos,

Agradeço o incentivo. Realmente sem consolidar uma "cultura" de formação de reservas estratégicas de forragem para os rebanhos (falta política pública para isso) não há como pensar em  uma caprino-ovinocultura viável para o semiárido. Enquanto isso continuamos estimulando formas irracionais de aplicação do "melhoramento genético"  e das  "biotécnicas de reprodução".

Abraços
Clovis Guimarães

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