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Etanol - mitos, exageros e preconceitos

Por Marcos Sawaya Jank
postado em 22/03/2007

17 comentários
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A visita de George W. Bush gerou um impressionante volume de matérias e opiniões sobre biocombustíveis. O que não faltou foram reducionismos e preconceitos. Alguns merecem destaque.

Primeiro mito: muita expectativa, nenhum resultado. Propagou-se a idéia de que a reunião traria grandes resultados em investimentos e comércio. Como isso não ocorreu, o acordo teria fracassado.

Vamos à realidade. Os EUA vão aumentar de duas a três vezes seu programa de etanol de milho em seis anos. Em conseqüência, os preços do milho já aumentaram 80%, afetando a produção de soja e carnes. Uma solução é produzir álcool mais competitivo, utilizando novos produtos e processos, como a hidrólise de biomassa (capins, no caso dos EUA, e bagaço de cana, no nosso). Nasce daí a oportuna cooperação bilateral em pesquisa e tecnologia.

A segunda solução seria reduzir a tarifa de US$ 0,14 por litro e/ou ampliar a atual cota de importação, que hoje beneficia apenas o Caribe. Só que o tema ainda não está sobre a mesa, por se tratar de assunto do Legislativo americano, e nada mudará até 2009. Mas é do interesse de Brasil e EUA discuti-lo nos próximos dois anos. As importações do etanol barato ajudariam os EUA a equilibrar os preços da agricultura e dos combustíveis. O potencial é extraordinário: cada 1% de substituição de gasolina por etanol no mercado americano representa 8 bilhões de litros (US$ 4 bilhões), ou metade da atual produção brasileira.

Segundo mito: monocultura. Na esteira dos exageros, reputados analistas mencionaram que este novo ciclo de monocultura de cana-de-açúcar nos levaria de volta ao tempo das capitanias hereditárias.

Hoje temos 7 milhões de hectares ocupados com cana-de-açúcar, 50% para etanol e 50% para açúcar. A cana para etanol ocupa ínfimo 0,5% da área total e menos de 1% da área agricultável do País, sete vezes menos que a soja e 65 vezes menos que as pastagens. Em janeiro Bush lançou a meta de substituir 15% da gasolina dos EUA por combustíveis renováveis e alternativos, ou 132 bilhões de litros. Sabe-se que essa meta não será cumprida com etanol de milho, que tem rendimento por área 60% inferior ao da cana e custa o dobro.

Imaginemos que os EUA resolvessem importar este enorme volume. Isso consumiria 20 milhões de hectares, o que dá três vezes a área atual de cana, mas apenas 7% da área total agricultável do País. Sem considerar a possibilidade de dobrarmos a produtividade de álcool se viabilizarmos a hidrólise de bagaço e liberarmos as novas variedades de cana que estão travadas na CTNBio.

Ocorre que historicamente o Brasil substituiu as antigas monoculturas trabalho-intensivas por um sistema diversificado de produção capital-intensiva de alimentos, rações, fibras e agroenergia. Em termos nacionais, há cada vez menos monoculturas, e não mais! A revolução nasceu nos anos 70, com a expansão de soja, brachiaria, carnes e leite. A chegada da cana-de-açúcar ao Centro-Oeste marca o início de um novo ciclo de intensificação do uso da terra, de magnitude semelhante à observada nos anos 70.

O valor oferecido para arrendamento de terras para cana vai eliminar os últimos bolsões de ineficiência agropecuária, nas grandes e nas pequenas propriedades. Produtores que tinham um retorno sobre patrimônio de 1% a 2% passarão a receber 6% a 7% ao ano. O tradicional agricultor patrimonialista sempre teve aversão a aceitar o custo de oportunidade do sistema financeiro, que na média oferecia retornos superiores aos obtidos no campo. Surge agora o custo de oportunidade da cana, visível no melhor padrão de vida do vizinho que arrendou suas terras. Soja, milho, algodão e cana disputarão o uso da terra em função de seus preços relativos e condições de logística e de rotação de culturas. A inevitável intensificação da produção de carnes e leite será o corolário do processo.

Terceiro mito: Brasil "fazendão". Economistas e ex-ministros avançaram a estapafúrdia tese de que o País está condenado a se tornar um grande "fazendão". A expansão das commodities (agrícolas, minerais e agora agroenergéticas) produziria a apreciação do câmbio e a desindustrialização, num processo em que o Brasil estaria trocando seu "futuro" industrial e de serviços pelo "passado" da dependência de commodities de baixa tecnologia. É curioso este esporte nacional de malhar tudo o que está dando certo, de empresários a setores econômicos. Nossos ídolos são artistas ou jogadores de futebol, raramente empresários e nunca governantes. Se algo dá certo, ou tem malandragem ou não é tão bom assim.

Primeiro, não é o FMI, a Rodada Doha, a Alca ou o álcool que estão condenando os setores menos eficientes da nossa indústria, mas sim a falta de instituições sólidas e reformas nas políticas públicas. Nossos maiores problemas são internos, e não externos. Segundo, não existe "agricultura contra indústria", "agronegócio contra agricultura familiar", "alta tecnologia na indústria e atraso nas commodities".

É inacreditável como este besteirol endêmico está enraizado no País. 70% do agronegócio é composto por indústrias e serviços correlatas à agricultura. O Brasil é líder mundial em tecnologia e custos agropecuários. Nossos maiores concorrentes nos mercados de commodities são países ricos que utilizam intensivamente seus recursos naturais. EUA, Canadá, Austrália, Suécia, Finlândia, Malásia e Chile são exemplos. Não há nada de errado nisso.

Para resolver esta doença só há uma solução: antes de criticar, é preciso conhecer, visitar. Listem as indústrias mais dinâmicas do interior, que geram mais empregos. Visitem um frigorífico, uma usina sucroalcooleira, o Agrishow de Ribeirão Preto. Aproveitem uma das infinitas idas a Brasília para conhecer o Centro-Oeste verdadeiro, espelhado na alta qualidade de vida das regiões agrícolas de Goiás e Mato Grosso. Viagens e estatísticas curam preconceitos e ignorância!

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Marcos Sawaya Jank    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Augusto de Castro Rocha

Uberlândia - Minas Gerais - Consultoria/extensão rural
postado em 22/03/2007

Caro Marcos, palavras simples mas com um conteúdo extremamente valioso. Sendo irônico algumas vezes com aquela frase: "O bom do Brasil é o brasileiro", o que vemos na maioria das vezes é o contrário. Temos uma oportunidade gigantesca pela frente, e o agronegócio é o que dará sustentabilidade para tal.

Temos grandes nomes no país, que sabem dar valor a esse setor, nomes nas Federações, Confederações, e por aí vai. Mas como você mesmo disse, não damos o verdadeiro respaldo às pessoas que estão lutando por essa nobre causa.

Estive visitando eventos, participando de cursos na FAEMG (Federação de Agricultura e Pecuária de Minas Gerais), vi que são inúmeras pessoas com uma visão magnífica do que está por vir. Mas com a imensidão do país, temos que ter forças na massa para mudar algo.
Belas palavras, companheiro. Muito me intusiasmou.

aluisio de paulo silva

São Paulo - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 22/03/2007

Professor Marcos,

Parabéns, sua crítica serve para cada brasileiro.

Antes de falar mal de qualquer assunto, pense, pense, pense. Como senhor disse no seu último topico, usem o verbo visitar, conhecer, viajar, que realmente a sua
última frase é digna de se repetir: viagens e estatísticas curam preconceitos e ignorância.

Sergio Antonio Schwartz Custodio

Iporá - Goiás - Pesquisa/ensino
postado em 23/03/2007

Parabéns pelo seu artigo. Precisamos mesmo abrir os olhos dos brasileiros para o fato de que o governo não é o problema do Brasil. O problema é acharmos que somos pobres, que os políticos são ladrões e que os americanos querem nos dominar.

O brasileiro em geral tem mesmo este "esporte" de botar defeito em tudo; é o medo do desconhecido, e isto se combate com informação.

Espero que muitos proprietários rurais leiam seu artigo e entendam a mensagem. Precisamos crescer, parar de reclamar e amadurecer como nação.

Obrigado, seu artigo coopera para isso.

SERGIO CUSTODIO
Médico Veterinário

Guilherme Augusto Vieira

Salvador - Bahia - Pesquisa/ensino
postado em 23/03/2007

Prof. Marcos, parabéns por suas colocações. Creio que já está na hora de se acabar com este "fundamentalismo" que paira sobre o agronegócio brasileiro. Deve-se levar o nosso agronegócio mais a sério.

José Carlos Gava Ferrão

Vitória - Espírito Santo - Engenheiro Agrônomo - Supervisor Comercial
postado em 26/03/2007

Excelente! Concordo em grau, número e gênero.

José Carlos Gava Ferrão

Anizio Bello

Francisco Beltrão - Paraná - Consultoria/extensão rural
postado em 27/03/2007

Prof. Marcos, sábias palavras. Fico feliz em ser leitor de artigo desta grandeza, pena que está felicidade seja compartilhada por poucos e esta minoria não seja a dos que tem poder instituído.

Mas sempre vale a pena insistir.

Fabiano Carneiro de Oliveira

Tibagi - Paraná - Produção de gado de corte
postado em 28/03/2007

Parabéns, seu artigo é magnífico!

Espero que muitas pessoas tenham a felicidade de poder ler este artigo de tão grande importância em nossa realidade. Pois só assim, com leitura, aumentaremos o nível de conhecimento de tradicionais agricultores patrimonialistas como citou acima, fazendo com que os mesmos, pelo menos, parem de criticar as oportunidades oferecidas ao nosso país através do agronegócio e comecem olhar para o futuro com otimismo e não com egocentrismo!

Muito Obrigado por escrever este artigo

Fabiano Carneiro
Acadêmico de M. Veterinária

Luiz A.M. Villela

Araçatuba - São Paulo - Sourcing
postado em 29/03/2007

Meu caro, que desabafo, hein? Quanto mais eles forem emitidos, e tiverem suas reverberações intensificadas, uníssonas no conhecimento de causa e com porta-vozes como o Sr. - corajosos, determinados e com representatividade, tenho certeza de que aí as coisas começarão a melhorar.

Quanto aos nossos problemas internos que o Sr. cita, não apenas condenam os setores menos eficientes e fracos de nossa economia, mas atrapalham, e muito, os eficientes e dinâmicos. Sorte nossa o Brasil ser essa potência, e nós termos essa paciência, pois só assim para aguentar tanto desaforo.

Infelizmente os que mais sofrem são os mesmos que não percebem a péssima representatividade que delegam, os padrinhos da ineficiência e malversação de preciosos recursos, estes talvez os mesmos que só criticam e tiram o proveito do preconceito, e não imaginam em fazer algo como contribuir com trabalho e patriotismo para a solução dos problemas.

Abraço

José Roberto Puoli

Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Produção de gado de corte
postado em 29/03/2007

Boa noite Marcos,

O grande zootecnista sulafricano, Jan Bonsma, dizia sabiamente, que os 3 males que retardam uma nação são: preconceito, ignorância e superstição.

Infelizmente, estamos cheios de pessoas no país que pensam assim. Acredito muito naquelas poucas pessoas que não pensam desta maneira e que fazem este país andar.

Abraços

Projeta

araçatuba - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 02/04/2007

Concordo em grau e número com as colocação do professor!

Frederico de Albuquerque Plens

Avaré - São Paulo - Produção de gado de corte
postado em 12/04/2007

Boa Tarde, professor Marcos. Li com muito entusiasmo o seu artigo. Assim como grande parte da população, também não tinha conhecimento dos índices citados. Realmente você tem razão. Num país com dimensões continentais como o nosso, o agronegócio tem futuro próspero, apesar dos problemas que afetam a todos no meio.

Abraços

Domingos B. Bueno

Uberlândia - Minas Gerais - Consultoria/extensão rural
postado em 12/04/2007

Professor Marcos, parabéns pelo artigo,

Espero que muitas pessoas possam ler seus eclarescimentos. Infelizmente, além do grande público leigo e desinformado, temos também produtores, agrônomos e até pesquisadores ligados a agropecuária que não estão acompanhando a grande evolução que está ocorrendo no setor de agronegócios brasileiro.

Abraço.
Domingos.

Néder Abdo

Catanduva - São Paulo - Produção de gado de corte
postado em 13/04/2007

Prezado Dr Marcos

Excelente seu artigo. Continue sempre a nos brindar com artigos tão cheios de conteúdo, precisão, técnica, e um pouco de ironia. Mais uma vez, meus parabéns.

Neder Abdo

Letícia de Paula Jacintho

São Simão - Goiás - Produção de gado de corte
postado em 20/04/2007

Professor Marcos,

Muito bom, didático e esclaredor este artigo, seria ótimo que muitos pudessem ler.

José Leonardo Montes

Quirinópolis - Goiás - Consultoria/extensão rural
postado em 20/04/2007

Parabéns pelo artigo, muito grandioso em se tratando de uma cultura milenar que está causando grande euforia no setor do agronegócio brasileiro.

Professor li e reli seu artigo foi ótimo, pois aumentei bem minha capacidade de entender o que está acontecendo em minha região. Pois no sudoeste goiano é secular a pecuária e agricultura porém com a chegada da cana estamos vendo essa parceria se desmontar e se tornar sim uma monocultura, e sim estamos preocupados com esse avanço.

Francisco Estrella Ruiz

Presidente Venceslau - São Paulo - producao de bezerros
postado em 25/06/2007

Este artigo tão elucidativo e atual, certamente traz esclarecimentos e incentivos para aqueles que querem ingressar na plantação dessa cultura, trazendo novas oportunidades para o agronegócio. E que continuemos a crer no Brasil e naqueles que trabalham almejando um melhor por vir.

Wanderléia Rodrigues dos Santos

Aquidauana - Mato Grosso do Sul - Consultoria/extensão rural
postado em 05/12/2007

Realmente Professor, o preconceito e a ignorância impedem que a economia brasileira tenha um avanço a curto prazo. Só que considero que acima de tudo isso está a falta de informação, onde eu como visão academica vejo o etanol uma boa persectiva profissional, mas os mal informados não veêm futuros de longa duração e indagam a monocultura.
Ótimo artigo! Foi muito útil para mim!



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