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Carne ovina: quando começou a ser explorada e como estamos hoje?

Por Mariana Paganoti Oliveira (FarmPoint) e Raquel Maria Cury Rodrigues (FarmPoint)
postado em 20/04/2010

8 comentários
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A exploração econômica da carne ovina é recente no Brasil. Para que haja a compreensão desse mercado, é importante conhecermos a sua história, desde quando a lã era o principal produto oferecido pelos ovinos até quando passou-se a explorar economicamente a carne desses animais.

1. Uma volta ao passado

Na década de 90 estourou a crise mundial da lã, com o aparecimento dos tecidos sintéticos e consequentemente queda na demanda por lã.

Durante a crise, que já começou na década de 80, todos os países reduziram o rebanho e com o Brasil não foi diferente. Reduzimos muito o rebanho, principalmente na região sul, maior produtora de carne e lã ovina.

Nos anos 80, observamos um aumento significativo da produção de carne ovina no país, crescendo 37% nesse período e atingindo 77,6 mil toneladas, segundo a FAO, reflexo do abate de matrizes.

Com o agravamento da crise da lã na década de 90, os produtores começaram a mudar o foco da criação, cruzando suas matrizes com animais especializados e passando da produção de lã para produção de carne. Foi nesse período que a carne ovina começou a ser explorada economicamente como atividade principal.

A partir do ano 2000, começamos a observar um aumento contínuo na produção de carne, atingindo 79,3 mil toneladas em 2008. Quanto à lã, a queda na produção segue até hoje, caindo 38% nos últimos 18 anos.

Gráfico 1 - Produção de lã e carne no Brasil



No gráfico 2, observamos a queda drástica no rebanho do Brasil a partir da década de 90 e recuperação a partir do ano 2000.

Gráfico 2 - Evolução do rebanho de ovinos no Brasil



Quando observamos a evolução do rebanho ovino por região, fica nítida a queda acentuada na região sul, mais afetada pela crise mundial da lã. De 1990 a 2008, a região sul teve uma variação negativa de 57,02%, enquanto as outras regiões cresceram, como observado na tabela 1.

As regiões que mais têm se destacado, com um ritmo alto de crescimento, são a Sudeste, Centro-Oeste e Norte. Os estados de Goiás, São Paulo e Mato Grosso do Sul já estão abatendo quantidades significativas de animais, podendo a longo prazo se tornarem as principais regiões fornecedoras de carne de alta qualidade para o mercado dos grande centros urbanos.

Tabela 1 - Evolução do rebanho ovino por região



Avaliando um período menor, comparando 2007 em relação a 2008, temos um crescimento de 5,3% na região sul, o que pode ser um indicativo de recuperação do rebanho após anos de decréscimo.

2. Produção de carne ovina

Segundo estimativas da FAO, a cadeia produtiva da carne ovina brasileira tem alcançado uma produção média de 79 mil toneladas por ano, com o abate de 4,95 milhões de cabeças (FAO, 2008).

O gráfico 3 mostra a produção de carne ovina total, estimada pela FAO, e a produção inspecionada do Brasil, segundo dados de abates pelo SIE e SIF.

Gráfico 3 - Produção total x Produção inspecionada



Na tabela vemos uma grande diferença nos valores de produção total e produção inspecionada. Por que isso acontece?

Apenas 7,6% do total produzido no Brasil é de carne inspecionada. De acordo com esses dados é possível estimar que mais de 90% da carne consumida no país é oriunda de abate informal.

Porém, quando comparamos o crescimento da produção formal e da produção total nos últimos 8 anos, temos um crescimento de 56% na produção formal e de 15% na produção total, concluindo que a produção formal cresce em um ritmo mais elevado.

O gráfico 4 compara a produção total, produção informal, importações e produção formal do Brasil em 2009.

Gráfico 4 - Consumo (origem do produto)



Esse gráfico pode causar um certo espanto, porém, essa é a nossa realidade. O total consumido no país em 2009 (produção interna + importação) foi de aproximadamente 88,45 mil toneladas. Desse total, 74,45 mil toneladas é de origem informal.

A cadeia de ovinos é caracterizada pela exacerbada participação da informalidade, que está associada a uma rede de relações comerciais no interior dos estados. O tamanho do animal é outro fator que facilita seu abate e comércio informal.

Muito se ouve que o Brasil importa muito, e é verdade. Se considerarmos a carne formalmente consumida, o Brasil importa 56% do que consome de carne inspecionada. Porém, considerando a produção total, importamos apenas 10% do que é consumido.

3. Uruguai

Praticamente tudo o que importamos vem do Uruguai. O volume importado deste país em 2009 foi de 6,71 mil toneladas, sendo 72,9% de cortes com osso, com um valor médio de R$ 4,30/Kg. A carne importada do Uruguai chega a competir em valor com a carne brasileira, considerando que, em 2009, o preço médio da carcaça de cordeiro fechou em R$ 7,11/Kg (praça Feira de Santana, Bahia).

Segundo o El País Digital, o Uruguai tinha um rebanho estimado de 22 milhões de cabeças há mais de uma década, e agora esse rebanho não chega a 10 milhões de cabeças. A cada ano, o rebanho vem caindo em 1 milhão de cabeças.

Assim como ocorreu em anos anteriores, os altos abates de ovinos lanares adultos, devido às fortes exportações de carne à União Europeia (UE), Rússia e países do Oriente Médio, soma-se a uma forte demanda de animais vivos aos países árabes; tudo leva a se prever que o rebanho voltará a cair.

Esses dados representam um alerta para a sustentabilidade do negócio, à medida que continua a redução do rebanho total e aumentam os abates de animais.

Porém, o abastecimento do mercado pelos produtos oriundos do Uruguai pode ser comprometido pela baixa oferta de cordeiros. Os produtores uruguaios tomam suas decisões baseados no preço da lã, e como a lã está em baixa - ao mesmo tempo que o preço pago pela carne do cordeiro se mantem em bons níveis - tem-se observado uma alta taxa de abate, mas podendo ter queda significativa já a partir desse ano.

No primeiro trimestre de 2010, o Brasil importou 710 toneladas de cortes com osso com um valor médio de R$ 4,92/kg, frente a 1.810 toneladas em 2009, a R$ 3,45/kg, no mesmo período. Esse fato já pode ser um reflexo da queda do rebanho e também pela preferência do Uruguai em exportar para países com mercado de maior valor, como os EUA.

4. Conclusão

O Brasil tem um enorme potencial de crescimento. Precisamos diminuir os índices de clandestinidade, e isso pode ser feito com mais investimentos em plantas frigorificas, para que seja viável ao produtor investir na atividade.

Os frigoríficos, por sua vez, precisam ter escala para o abate, o que pode ser conseguido através de parcerias com os produtores.

Precisamos parar de agir como um pêndulo, jogando a culpa sempre para o outro lado. Os produtores dizem que não produzem porque não têm para quem vender, e a indústria diz que não investe em planta frigorifica porque não consegue escala para viabilização. Os elos da cadeia precisam se unir com um único objetivo: produzir carne de cordeiro com a qualidade demandada pelos consumidores.

A demanda por carne de cordeiro tem um potencial ainda maior de crescimento, visto o aumento da população nos grandes centros urbanos e o aumento de renda das classes C, D e E.

Há muito espaço para crescermos, a atividade ainda é muito recente e o Brasil possui todas as condições para se tornar referência mundial na ovinocultura.

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Comentários

Thales dos Anjos de Faria Vechiato

São Bernardo do Campo - São Paulo - Consultoria/extensão
postado em 20/04/2010

Bom dia,

Parabenizo as autoras pelas brilhantes informações, com nível e qualidade do artigo e pela iniciativa frente a este assunto muitas vezes carentes de informações de mercado.

Realmente temos que nos posicionar como um todo para obter os mesmos sucessos com carne ovina em relação ao extrondoso sucesso da carne bovina, já que temos espaço territorial para expansão das criações, condições edafoclimáticas, tecnologia e profissionais de ponta no mercado...mas a única coisa que falta é muito simples: uma boa conversa entre todos!

Mais uma vez parabéns pela qualidade do artigo,
Abraços,

Thales dos Anjos de Faria Vechiato

Pedro Nobre

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de ovinos de leite
postado em 20/04/2010

Prezadas Raquel e Mariana,

A apresentação deste artigo é sem sombra de dúvida de grande importância para o setor produtivo ovino no país e pode fazer parte de encaminhamentos de reenvindicações do setor, para que os novos governantes venham a traçar políticas públicas para o desenvolvimento da ovinocultura nacional.

A partir dos questionamentos numéricos, o processo de tomada de decisões teoricamente ficaria mais fácil...

Entretanto, as dificuldades da burocracia e das lesgislações existentes não favorecem a implantação de pequenas plantas industriais que podereiam alimentar com carne de qualidade os grandes centros consumidores.

O processamento em grandes plantas só será economicamente viavel a partir de processos de integração com a indústria e isso depende basicamente de crédito, audácia empresarial, conhecimento tecnológico e visão de futuro.

Então, as pequenas plantas industriais regionais podem sim, ser o que falta para a formalização da nossa expressiva produção.

A redução dos custos de transporte, pela simples troca do animal vivo pelo abatido, tende a fazer uma grande diferênça na competitividade preço.

Também se torna facilitada a padronização das carcaças e o ingresso na cadeia produtiva dos pequenos produtores que não tem volume para atender as demandas dos grandes frigoríficos, mas que podem enviar pequenos lotes dentro dos padrões que o mercado requer a curtas distâncias.

Outro subproduto que ainda não é amplamente explorado é o leite ovino, que acredito poderia ajudar em muito na viabilização econômica da atividade, especialmente para aqueles rebanhos menores que não conseguiriam atingir o equilibrio financeiro na pequena unidade produtiva, com a produção de lã e carne.

É isso, acredito que o nosso trabalho está apenas começando e muita união e tutano ainda terá de ser queimado até que consigamos atingir o nível de desenvolvimento que outras cadeias produtivas da carne já alcançaram em nosso país.

Em nome dos demais produtores parabenizo as duas pela oportunidade da matéria.

Saudações,

Pedrovis

LUIZ CARLOS NUNES DOS SANTOS

Salvador - Bahia - Produção de ovinos
postado em 20/04/2010

Ressalto a importância deste veículo informativo. Para mim, particularmente, tem sido utilíssimo. Sou da Cidade de Morro do Chapéu/BA, residindo em Salvador, sedento e carente de informnações, como todo nordestino. Quando refiro-me às exposições, associações (ACCOBA), como via de mão única, direcionada à genética, reivendico palestras, cursos, seminários, etc. direcionados aos produtores. Afora o SEBRAE (planejamento), são raríssimos, na Bahia, informações inerentes à cadeia produtiva. O Nordeste, com o maior plantel do Brasil, não pode produzir para o "ensopado, carne seca", consumo interno. Dá-me água na boca quando vejo a quantidade de informações disponibilizadas aos produtors do Sul/Sudeste. Não é ciumes não, é realidade. Tenho sofrido ante as dificuldades de persuassão ao cooperativismo, ao associativismo, porém sofro mais ainda com a questão da baixo estima no campo pobre. É duro, mas o pequeno ainda acha que bode fede. Quem pretende e/ou produz genética é informado tecnica e financeiramente, quem produz carne (diz-se que o pequeno é maioria), está às cegas. Desculpem-me, talvez esteja apelando...mas estou sendo sincero. Ressalto que este veículo tem-me seido utilíisimo. Obrigado.

Igor Vaz

Pelotas - Rio Grande do Sul - Produção de ovinos
postado em 22/04/2010

Como produtor de ovinos e estudante de pós graduação em Agronegócio da FGV, digo com certa autoridade que na teoria tudo é 1000 maravilhas, porém na prática, poucos tentaram alguma alternativa realmente, a exemplo do Cordeiro Herval Premium.
Estou fazendo meu projeto de conclusão do curso justamente na cadeia produtiva da carne de cordeiro focando em produtores da Região Sul, Campanha e Fronteira do RS, objetivando terceirizar uma planta abatedoura e participar de toda a cadeia produtiva em conjunto com parceiros comerciais. Quem tiver interesse em trocar informações e conversar sobre a ovinocultura do Sul, do RS e cadeia produtiva, me escrevam mustang_sul@hotmail.com

Abraço a todos.

Pedro Alvise Caldart

Canoas - Rio Grande do Sul - Supervisor de Vendas (Perte) e Representante Coml.
postado em 22/04/2010

Trabalho como representante comercial na área de proteinas, carnes bovinas, suinas, frango, e peixes, e tenho demanda para venda de ovinos, porém, é uma dificuldade muito grande para conseguir este produto para vender.

Fico feliz que este segmento começa a crescer.

Parabéns pela matéria.

Fabiana Alves de Almeida

Araçatuba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 23/04/2010

Parabéns Raquel e Mariana pela matéria, muito esclarecedora e informativa.

Nei Antonio Kukla

União da Vitória - Paraná - Consultoria/extensão rural
postado em 26/04/2010

Parabenizo as autoras pelo nível de informação trazido para nós produtores/ técnicos a respeito da evolução da atividade.
É muito bom sabermos que o consumo da carne ovina vem sofrendo alterações positivas, pois vemos que quebrou-se muitos mitos sobre o produto e hoje com novas receitas além do tradicional (diga-se de passagem e gostoso) churrasco, muitas outras receitas vem sendo testadas e aprovadas pelos preparadores da carne. Além disso, temos linguiça ovina, hambúrguer de carne ovina, cortes para panela etc..
Ainda, percebemos que há boas iniciativas como o Cordeiro Herval Premiun, a ovinocultura praticada em Castro - Paraná, a integração com pequenos ovinocultores realizada pela Cabanha Lomas Negras em Campo Alegre-SC, digo de coragem, porque são empreendedores que ao invés de reclamar, colocaram suas idéias em prática, logicamente todos com aparato técnico.
Particularmente, acredito muito de que a integração na ovinocultura é a saída para alavancar de vez a atividade, pois assim, diminuirá o abate clandestino (que na minha opinião é feito por falta de opção), melhorará a qualidade do produto bem como a oferta, pois se trabalha sob regimento de contratos e assim as duas pontas tem compromisso firmados, as indústrias tem a possibilidade e até recursos para o investimento em marketing da carne ovina estimulando o consumo, os ovinocultores podem receber bonificação por qualidade, estimulando assim o profissionalismo ... enfim, muitos são os "boons" que a atividade apresenta para ser explorada.
É um excelente nicho, basta termos coragem, somados a profissionalismo.

Tobias Marino

Porto Rico - Paraná - Produção de caprinos de leite
postado em 29/04/2010

Meus parabéns a vocês. O trabalho esta muito útil e esclarecedor, não encontramos essas informações em nenhum outro lugar.

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