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Colocando em prática a estruturação das cadeias
Diversas são as sugestões para que as duas atividades adquiram importância econômica no cenário nacional e até internacional: aumento da escala de produção criando competitividade, constância de fornecimento e padronização; incentivo ao consumo dos produtos derivados dessas espécies; aumento de pesquisas voltadas a novas tecnologias de produção; políticas públicas de incentivo fiscal; entre outras.
Já foi discutido, em um artigo anterior, sobre as dificuldades de um determinado segmento do sistema produtivo para dar o primeiro passo na modernização de um processo, quando depende de outros segmentos para ter retorno neste investimento.
Com tantas sugestões e teorias, o próximo passo é colocá-las em prática. Para isso, é fundamental que haja uma plena comunicação entre todos os segmentos envolvidos, uma vez existe uma relação interdependente entre eles. Cada setor do sistema produtivo deve enxergar o próximo setor como cliente e desenvolver seus produtos de acordo com as necessidades de quem vai utilizá-lo.
Além disso, apesar de muitos problemas da ovinocaprinocultura serem comuns ao Brasil como um todo, os estados do país apresentam realidades muito diferentes uma das outras. Por isso, é necessário um levantamento regionalizado das demandas e, da mesma forma, as soluções para os problemas levantados devem ser adequadas para cada realidade.
Um outro aspecto relevante é que, em uma democracia, em que os governantes têm que lidar constantemente com número de solicitações e com necessidades em maior quantidade do que a disponibilidade de verbas, fatalmente os segmentos mais organizados e unidos terão prevalência para alocação de recursos em comparação àqueles cujos problemas são até mais preementes, mas incapazes de unificar seus pleitos junto a instituições representativas.
Uma iniciativa que atende bem esses três requisitos e tem funcionado com sucesso em alguns estados é a formação de uma câmara setorial, junto à secretaria estadual, dedicada a ovino e caprinocultura.
O objetivo de uma câmara setorial é levantar demandas da cadeia produtiva, propor soluções, encaminhá-las aos responsáveis e acompanhar a implantação dos projetos. Para isso, conta com representantes de todos os elos da cadeia produtiva, desde a indústria de insumos até o mercado consumidor.
A câmara setorial é também o órgão consultivo que representa uma cadeia junto ao governo, e encaminha as solicitações levantadas em suas reuniões. É por meio da câmara setorial que o governo dá abertura para as cadeias participarem das decisões públicas. De uma forma compilada, a câmara setorial visa convergir os interesses de toda a cadeia e conectá-los ao governo.
Para atingir esses objetivos, a câmara setorial promove encontros permanentes entre os representantes do setor para discussões e levantamentos dos pontos problemáticos. São também debatidos assuntos como leis, decretos, regulamentações, impostos, guerra fiscal, créditos e comercialização.
Além de encaminhar solicitações de criação ou alteração de políticas públicas que atendam as necessidades da cadeia, a câmara setorial pode requerer apoio das secretarias em atividades como fiscalização sanitária e levantamento de diagnósticos regionais.
Atualmente, temos alguns exemplos bem sucedidos, em estados onde a câmara setorial está tendo grande responsabilidade no desenvolvimento da cadeia. Em Minas Gerais, por exemplo, a câmara elaborou um "Plano Setorial para os setores da Caprinocultura e Ovinocultura de MG", no qual são sinalizados os pontos críticos e propostas soluções para estas cadeias produtivas.
A exemplo, dentro do conjunto de programas que compõem o Plano, no Projeto Leite Legal, encaminhado ao Secretário de Agricultura, a Câmara apresenta e defende uma proposta para viabilizar o beneficiamento do leite de cabra ou de ovelha nas produções com volume diário de até 100 litros, para comercialização em Minas Gerais.
No Mato Grosso do Sul, a atuação da Câmara Setorial tem sido muito relevante para a implantação da atividade no estado, uma vez que a região não é tradicional na ovinocaprinocultura. Além de participar e apoiar toda e qualquer iniciativa de fomento à ovinocaprinocultura, a câmara está investindo em difusão de conhecimento, programas de incentivo fiscal e ações no setor de sanidade, considerado um dos gargalos da atividade.
A câmara setorial no MS atua desde 2003 e está colhendo frutos de seu trabalho. Participou da inauguração, junto com a iniciativa privada, de um frigorífico específico para ovinos, com aproveitamento de todos os subprodutos dos abates e devidamente inspecionado pelo SIF.
Aprovou também, junto ao Ministério da Integração e o Governo do Estado, via Arranjo Produtivo, mais de R$ 1,7 milhão para aplicação em dois centros de pesquisa e difusão de tecnologia. A iniciativa privada, com isso, se encorajou e também está investindo no setor, inaugurando o Centro Tecnológico de Ovinocultura, que desenvolve trabalhos de pesquisa e extensão junto aos produtores.
Recentemente, o estado de São Paulo também apostou nesta iniciativa, se organizou e criou sua Câmara Setorial Especial de Caprinos e Ovinos. Representantes de todos os segmentos participaram das reuniões que antecederam sua criação.
Apesar do potencial desta iniciativa, o sucesso de uma câmara setorial depende fundamentalmente de priorizar os interesses comuns em relação aos interesses individuais. Levando-se em conta que vários elos com interesses conflitantes estão se reunindo, a câmara terá como responsabilidade negociar os temas divergentes que forem levantados e chegar em uma solução satisfatória para todos. As pessoas envolvidas nessa organização devem estar cientes de que estão dedicando seu trabalho para um resultado que, a longo prazo, beneficiará a todos.
Além disso, é indispensável o foco nos resultados práticos e diretos a partir dos pontos levantados pelos representantes da cadeia produtiva como gargalos para o desenvolvimento. Qualquer desvio de atenção para assuntos não importantes para o bem comum não mais justifica os motivos para a formação de uma câmara e nem os esforços dos que se dedicam a ela.
A câmara setorial é apenas um exemplo de uma mobilização visando colocar em prática a estruturação da cadeia produtiva. Outras iniciativas neste sentido podem ser aplicadas com muito sucesso, desde que haja o envolvimento e o comprometimento de todos os segmentos do setor.
Um outro exemplo de formato de trabalho que vem alcançando bons resultados é o Programa de Estruturação das Cadeias Produtivas de Ovinos e Caprinos do Paraná. Idealizado pelo governo do estado, representado pela Emater, Iapar, Deagro e Defis, e realizado em parceria com associações, cooperativas e segmento de consumo. Atualmente, o programa está investindo fortemente no incentivo ao consumo, por meio do Projeto Gourmet, que não só apresenta as vantagens da carne de cordeiros/cabritos, como ensina a prepará-la, e a melhor forma de oferecê-la ao consumidor.
De qualquer forma, as idéias têm que ser tiradas do papel e colocadas em prática. É muito importante o entendimento de que a sustentabilidade de uma atividade depende de organização e foco no consumidor final. Isso não é possível se cada segmento da cadeia optar por trabalhar sozinho, em busca apenas de seus próprios interesses.
Comentários:
Araraquara - São Paulo - Consultoria/extensão
postado em 10/01/2007
Marina,
Brilhantes comentários... Seu último parágrafo resume tudo de forma clara e coerente basta nós (produtores, consumidores, fornecedores de insumos, consultores, etc), em determinada parte da cadeia produtiva fazermos nossa parte e trabalharmos como um grupo!
Grande abraço,
Marcos Calicchio
Clemens BArbosa de Novais junior
Barra do Garças - Mato Grosso - Produção de gado de corte
postado em 11/01/2007
Marina, parabéns pelo artigo.
Concordo que todos devem fazer a sua parte.
Criamos a 18 meses uma associação de criadores, onde vemos evolução neste período, mas as dificuldades de apoio; adesão de outros criadores, instituições, laboratórios, etc. são muito grandes.
Vejo que estas câmaras setoriais podem fortalecer associações regionais e dar um rumo em prol da cadeia. Precisamos partir para ações práticas e objetivas para o desenvolvimento do setor em áreas pouco exploradas, pois muito que vemos no papel está bonito.
Porto União - Santa Catarina - Consultoria/extensão
postado em 12/01/2007
O setor de ovinocaprinocultura ainda é pouco explorado no país em nível comercial. Existem poucos criadores que vivem da atividade, pois sua profissionalização parte do princípio do produtor querer viver dela.
Na maioria dos casos, existe a criação nas propriedades e o entendimento que se tem é que se vender algumas cabeças no final do ano ou outro dia festivo já está bom.
Isso, compromete a qualidade do produto oferecido, pois não há estímulo para melhorar o padrão da criação, entendendo-se aqui as questões de manejo, alimentação, sanidade, genética, instalações.
Outro fator está ligado aos diversos órgãos inseridos no setor, e como comentado pela Marina, as idéias devem sair do papel e ser colocadas em prática, pois existem projetos no papel muito bons mas que ninguém os difunde por alguma razão. Isso é um gargalo da atividade. Outro fator é praticamente a inexistência de abatedouros.
Aqui em Santa Catarina, existem os núcleos de criadores, onde em cada regional há um núcleo e, embora a passos curtos nota-se uma pequena evolução da atividade no sentido da profissionalização da mesma.
Creio que além das idéias sairem do papel, da criação das Câmaras Setoriais, núcleos, profissionalização dos criadores e de suas propriedades, também o marketing da carne ovina e caprina deve ser bem trabalhado, aí sim teremos uma atividade economicamente viável.
Nei Antonio Kukla
Técnico em Agropecuária
Administrador - Espec. Agronegócios
Porto Velho - Rondônia - Produção de ovinos
postado em 14/01/2007
Acredito que a ovinocultura está passando por um grande momento de destaque, mas temos que usar todos os recursos possíveis para dar consistência a este avanço, como se organizarmos em toda cadeia produtiva para que este avanço seja ancorado em base sólida e seja atraente a investimentos em todos elos da cadeia.
Hoje presenciamos muitos holofotes em números expressivos alcançados por animais de elite, mas avançar em melhoramento genético tem que ter o retorno no interesse cada vez maior de produtores de rebanho comercial, para não ocorrer como já presenciamos em outras atividades apenas uma onda que passa e acaba.
Ji-Paraná - Rondônia - Editor
postado em 15/01/2007
Cara Marina, parabéns pelo artigo!
Ele veio de encontro ao que discutimos em Porto Velho no início do mês de dezembro, quando reunimos alguns criadores de ovinos e o secretário de estado da Agricultura.
Nesse encontro falamos sobre a necessidade da Câmara Setorial da Ovinocultura no Estado de Rondônia. Essa idéia foi aplaudida pelo secretário que disponibilizou a sua equipe para ajudar na sua montagem.
Estaremos, a partir de fevereiro, implementando essa idéia a partindo para a montagem da Câmara. O seu artigo veio também nos dar maior força naquilo que pretendemos.
Abraços.
Dirceu Moraes
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Produção de caprinos de leite
postado em 15/01/2007
Marina,
Muito boas as suas colocações a respeito da organização da cadeia produtiva. Realmente a criação e o fortalecimento das câmaras setoriais específicas, pode ser uma alternativa plenamente realizável, para aumentarmos o consumo de nossos produtos caprinos e ovinos com sustentabilidade.
Parabéns
Paulo
Maria Selma P. de Andrade Hage
Novo Repartimento - Pará - Produção de caprinos de corte
postado em 21/01/2007
Acredito na cadeia produtiva da ovinocultura, faz-se necessário a organização da classe, divulgação do setor e apoio para que os produtores tenham acesso as linhas de crédito. E porque não ao uso de biotecnologia, no objetivo de agregar valor ao produto? Entendo que hoje é uma grande saída para os pequenos produtores rurais.
Um grande abraço!
Lavras - Minas Gerais - Consultoria/extensão
postado em 05/02/2007
Antes de se pensar em organizar uma cadeia produtiva, o mais importante é conhecê-la com as suas caracteristicas regionais. Não será permitido orientações emanadas de Brasílias para todo o universo brasileiro.
Outro fator importante a ser considerado na organização da cadeia é termos técnicos capacitados, que tenham a visão do todo, que saibam relacionar alimentação com melhoramento genético, não é possível continuarmos cada um olhando para seu próprio umbigo.
É difícil trabalharmos nessa visão multidisciplinar, mas é necessário e obrigatório. Produtores, pesquisadores e extensionistas jogam dentro da mesma equipe. Temos que acelerar as pesquisas e simultaneamente o programa de difusão e transferência de tecnologia.
A afirmativa de que essas atividades são a longo prazo é um paradigma que temos que romper e poderemos romper com a organização racional da cadeia e com a participação concreta, efetiva e objetiva de todos os atores da cadeia. É tarefa difícil, mas não impossível.
Ribeirão Preto - São Paulo - Consultoria/extensão
postado em 09/02/2007
Marina,
Em minha opinião elo mais fraco da cadeia é a produção. Na maior parte, ela está (des)organizada em módulos familiares e com forte predominancia cultural.
Precisamos entender isto como um negócio rentável e de futuro. Só assim, conseguiremos reunir os principais atores deste cenário e em conjunto dinamizarmos a produção. Quanto a demanda é só comunicar bem ao mercado as qualidades do produto e seus beneficios que automaticamente crescerá.
Parabéns pelo seu trabalho e sucesso para todos.
Belo Horizonte - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 09/03/2007
Marina, parabéns pelo seu editorial.
Aqui em Minas, além da Câmara na Secretaria de Agricultura temos uma comissão técnica na Federação da Agricultura -FAEMG, a qual tenho a honra de presidir desde o ano passado. Ambas têm atuado de forma muito positiva. A câmara e a comissão ajudam a liberar entraves, mas solução da maior parte dos problemas está na mão dos próprios produtores.
Desde que comecei a trabalhar pela ovinocultura, há quinze anos, sempre ouço falar em desorganização da cadeia produtiva. Há três anos resolvemos arregaçar as mangas e fundamos a Procordeiro - Cooperativa Mineira dos Produtores de Cordeiro.
O trabalho é imenso, principalmente o de mostrar para o produtor o quão importante é nos organizarmos e também fazer nossos colegas entenderem que os donos da cooperativa somos nós, todos os cooperados. Apesar das dificuldades fizemos avanços importantíssimos (sem apoio governamental) e hoje só acredito em organização da cadeia produtiva quando nos inserimos nela, participando ativamente de todos os elos.
A Procordeiro vivencia hoje os problemas desde a produção até o beneficiamento e a comercialização da carne, o que nos dá uma ampla visão de como interferir efetivamente para a desobstrução dos entraves da atividade.
São Paulo - São Paulo - Consultoria/extensão
postado em 03/05/2007
Marina,
Acredito que precisamos divulgar os benefícios da carne ovina, para que o consumidor tenha curiosidade e queira experimentar a carne. Precisamos de uma iniciativa que difunda o consumo da carne ovina, pois enquanto não houver um aumento do consumo, os preços não irão baixar, se encontramos o Kg de carne de porco ou frango, abaixo de R$ 1,00, ninguém vai pagar os R$ 10,00 ou R$15,00 que é cobrado pelo Kg da carne ovina.
Portanto vamos divulgar os sabores do cordeiro!
Santana do Livramento - Rio Grande do Sul - Produção de gado de corte
postado em 07/05/2007
Meus parabéns Marina,
Finalmente alguém que fala com autoridade, conhecimento, dando ênfase a todos os aspectos da cadeia produtiva. Na nossa região de Campanha, RS, temos um dos melhores meio-ambiente para a ovinocultura.
Quando a lã valia bem, era um dos negócios mais rentáveis da pecuária. Depois do advento do sintético, as populações de ovinos foram reduzidas pela metade. Só em Livramento, tinhamos cerca de 1.000.000 de cabeças, e hoje não mais de 400.000.
Quanto a carne ovina, os negócios sempre foram desorganizados. A meu ver deveriam ter seu marketing: As carnes de animais jovens (não mais de 2 dentes), serem supervalorizadas como de fato merecem.
Quanto os produtos de descarte, deveriam ter seu valor adequados a sua realidade, pois ovinos adultos e velhos, tem execesso de gordura, pouca rentabilidade na panela, não bom aspecto na refrigeraçã (mesmo com boas técnicas), nem boa palatibilidade.Os preços ao consumidor são quase iguais, e a dona de casa se retrai na aquisição desta mercadoria, muito sabiamente.
Aumento de produtividade, de maneira que o abate seja cada vez de animais mais jovens, e que o consumidor tenha certeza da oferta do produto no mercado. Encampando tudo que a Sra disse, me atrevo a colaborar com mais estas considerações.
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Arnaldo dos Santos Vieira Filho
Araçatuba - São Paulo - Produção de ovinos
postado em 10/01/2007
Marina,
Gostaria que TODAS as pessoas, que de alguma forma estejam ligados à ovinocaprinocultura, pudessem ler este artigo, pois tenho certeza que este entendimento faria nossa atividade caminhar por um curto caminho na busca de suas necessidades de estruturação.
Parabéns e um abraço.
Arnaldo.