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Água (II)

Por Carlos Arthur Ortenblad
postado em 27/02/2007

6 comentários
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A matéria-prima de todo nosso sistema é a água. Praticamente, todos os demais recursos naturais podem ser substituídos, menos a água. Ela é sinônima de sobrevivência, ou do desaparecimento da vida neste pequeno planeta chamado Terra, tributário de uma estrela de 5ª grandeza, conhecida como Sol. Água é vida, ou morte.

Ao escolher este apaixonante tema, fui juntando uma quantidade de material que, por uma questão de espaço, e de diversidade, vou dividir em três artigos. O anterior, veiculado em 06/02/2007, tratou "água" genericamente como recurso natural e matéria prima no mundo. O presente artigo vai cuidar especificamente dos recursos hídricos brasileiros. E o terceiro, abordará temas relativos à agricultura.

Embora a superfície da Terra seja constituída em 70% por água, destes, apenas cerca de 2,75% é de água doce, que pode ser consumida pelo ser humano, em qualquer de suas atividades: industriais, agrícolas e pessoais. Água é um recurso natural renovável, mas não infinito.

A escassez de água, hoje restrita a uma parcela de regiões da Terra, tende a se alastrar. Segundo o International Water Management Institute, já em 2025 o Brasil poderá ter falta de água para atividades econômicas, se o acentuado quadro de degradação atual não for revertido. A existência de vastas bacias fluviais (embora concentradas ao norte), e de chuvas abundantes em boa parte do território, torna o Brasil detentor de 15% da produção total de água do planeta. Este percentual inclui a benção do "Aqüífero Guarani", reserva de 16% de toda água doce do mundo. Abrange 1.200.000 km², o que corresponde aos territórios da França, Inglaterra e Espanha, somados, e está presente nos subsolos dos estados de SP, MG, MS, MT, GO, PR, SC e RS, além de atingir porções da Argentina, Paraguai e Uruguai. Ao Brasil cabem 70% desta imensa reserva de água doce. Apesar de ter sido descoberto há quase 40 anos, apenas em 2000, os 4 países começaram a discutir sua utilização econômica, e gestão sustentável conjunta. Não consegui obter dados confiáveis de avanço nesta área, apenas que a data de apresentação do relatório final foi prorrogada.

Pela sua pureza, a água oriunda de afloramentos do Aqüífero deveria ser destinada ao consumo humano, e não à indústria, serviços e agricultura. E, mais importante ainda, estes afloramentos (como ocorrem em Ribeirão Preto e Campo Grande, entre outras) deveriam ser protegidos contra contaminação (lixões, defensivos agrícolas, poços sem vedação, infiltração de efluentes industriais etc.). Não é o que ocorre.

Com a poluição dos rios, cada vez mais o Brasil aumenta a exploração de suas águas subterrâneas. É uma pena, pois como os rios Tamisa e Sena estão aí para provar, mesmo os rios degradados e poluídos podem ser recuperados e ressuscitados, por mais lento que seja este processo. Nas palavras do Professor Murgel Branco, uma vez cessada a poluição de um rio ou represa, ocorre a reconstituição daquele corpo aquoso, já que as águas, e também a poluição, vão seguir o seu caminho. Nem mesmo os famigerados metais pesados permanecem no fundo de forma infinita, afirma ele.

Outro problema brasileiro, malgrado a aparente abundância de água, é a sua má distribuição geográfica. Ou, se preferirem, a má distribuição populacional, já que o Nordeste tem 28% da população e apenas 3% da água doce (2/3 na bacia do Rio São Francisco), ao passo que o Norte tem 72% da água e apenas 7% da população. O potencial médio de água doce nos rios da região Norte é 20 vezes maior que os do Nordeste. E, além disso, a variação entre estados é brutal: Roraima pode oferecer, a cada um de seus habitantes, um dilúvio de 1.700.000 m³ de água por ano, enquanto em Pernambuco e na Paraíba, esta oferta cai, respectivamente, para 1.440 m³ e 1.320 m³ de água por habitante / ano - quase 1.300 vezes menos que em Roraima, e tangencialmente dentro da quantidade mínima e crítica para a reles sobrevivência de um ser humano, que é de entre 1.000 e 1.500 m³ de água por ano, calculada pela OMS / ONU (Organização das Nações Unidas) (ver tabela abaixo).

A OMS (Organização Mundial da Saúde), órgão da ONU estima que o mínimo de água para a simples sobrevivência de um ser humano é de 1.000 a 1.500 m³ / ano. O Brasil ainda está muito longe desta situação, exceto em alguns estados nordestinos. Mas ao contrário do que se pensa, água é um bem finito, onde o desperdício e mau uso - se mais elevados que a renovação orgânica - inevitavelmente levará à escassez.

Entre o mau uso, o mais sério é o desmatamento, seguido da crescente urbanização, à expansão da indústria, e à não menos importante, a mecanização da agricultura. Está na agricultura, aliás, 70% a 90% do consumo de recursos hídricos. Vale a pena repetir: água é um recurso natural renovável, mas não infinito.


*** Critério OMS / ONU

Como a memória é fraca, já praticamente nos esquecemos do "apagão" elétrico de alguns anos atrás, motivado pela deficiência hídrica em nossas hidrelétricas. E não se está falando em água para beber, e sim para gerar energia, que, apesar de consumir 16.000 m³ para produzir 1 kw, é, em princípio, totalmente reutilizável. Ou seja, não é verdadeiramente "consumida" ao produzir energia elétrica.

A opção de abandonarmos, no Brasil, a recuperação de rios e lagoas, e passarmos a captar água de fontes subterrâneas, é a decisão mais fácil, mas também a mais temerária, pois exaure, desnecessariamente, reservas que virão a nos faltar quando a abundância de água a baixo custo, vier a ser, inexoravelmente, a linha divisória entre o sucesso e o fracasso, entre a riqueza e a miséria. Estamos abrindo mão de um recurso de valor inestimável no presente, e insubstituível no futuro.

Vamos a um pequeno exemplo prático. Em 2004, o Professor Carlos Gabaglia Penna (PUC / RJ) tentou sensibilizar a então governadora Rosinha Garotinho (sic) a criar a APA (Área de Proteção Ambiental) do Rio Guandu, que abastece boa parte do consumo da cidade do Rio de Janeiro. Não conseguiu. A governadora não vislumbrou "dividendos políticos" no ato. Em conseqüência, o estado do Rio de Janeiro gasta uma fábula anualmente fazendo manutenção artificial, ao invés de utilizar um sistema natural de filtração biológica. Vou dar a palavra ao Professor Gabaglia Penna:

"Nova York era uma cidade famosa pela má qualidade da água, que envenenava seus moradores até meados do século XIX, mas que hoje consegue tratá-la com pequenas doses de cloro e flúor. Hoje a água de Nova York é uma das mais limpas dos Estados Unidos. Como? Simples. Pela proteção dos ecosistemas que formam a bacia hidrográfica de Catskill e Delaware, o coração do sistema de purificação e abastecimento da água da cidade. Há muitos anos atrás, esta máquina natural, altamente eficiente, começou a dar sinais de pane por causa da construção de mais estradas e casas de veraneio, e também por vazamentos de esgoto e despejo de fertilizantes e defensivos agrícolas. As autoridades viram-se diante do seguinte dilema: construir um sistema artificial de tratamento de água ou recuperar o sistema natural de filtração biológica. O primeiro custaria de 6 a 8 bilhões de dólares, com custos anuais de manutenção da ordem de 400 milhões de dólares. O segundo, natural, ficaria entre 1,5 e 2 bilhões de dólares."

Obviamente, optaram pelo processo natural, mais barato e mais duradouro. Mas isso nos Estados Unidos, onde há genuíno respeito pelo dinheiro do contribuinte, e grande temor pelo voto dele. Já em um grande país ao sul do Equador, em geral se opta pela recuperação artificial.

Será injustiça de minha parte suspeitar que onde se gasta dinheiro do contribuinte, além do necessário, tende-se a ganhar comissões mais polpudas?

Fontes e bibliografia

1. "Água no século XXI - Enfrentando a Escassez" - José Galizia Tundisi
2. Banco Mundial 2004-2005
3. "Cadillac Desert" - Marc Reisner
4. Consultative Group on International Agricultural Research (2006)
5. "Grito das Águas" - Leonardo Morelli.
6. International Water Management Institute Report (2002/2004)
7. Levantamento do IBGE sobre condições ambientais de 5.560 Municípios brasileiros - 2005
8. Pacific Institute - Oakland, Califórnia - Peter Gleick
9. "Poluição - A Morte dos Nossos Rios" - Samuel Murgel Branco
10. "Pillar of Sand" - S. Postel
11. Professor Carlos Gabaglia Penna (Engenharia Ambiental - PUC/RJ)
12. The Economist (03/1998; 07/2003; 08/2006; 09/2006)
13. Unesco / OMS (ONU) 2003-2004-2005
14. "Water Wars" - Marq de Villiers

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Carlos Arthur Ortenblad    Rio de Janeiro - Rio de Janeiro

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Rafael Altoe Falqueto

Venda Nova do Imigrante - Espírito Santo - Consultoria/extensão rural
postado em 27/02/2007

Excelente. Temos que publicar estes tipos de artigos cada vez mais para pressionar a opinião pública. Não podemos aceitar que esta situação fique do jeito que está por causa da incapacidade, ignorância, desrespeito e descaso político com as questões que atingem a todos os contribuintes.

paulo ferreira dos santos

Viçosa - Minas Gerais - Produção de café
postado em 27/02/2007

Parabéns Carlos pelo artigo Água(II), claro, objetivo e conciso. Foca a qualidade e o volume desse bem precioso e finito que nós cidadãos,agricultores e governo, damos pouca ou nenhuma atenção. Amanhã o país poderá e certamente enfrentará uma situação crítica. Nossos netos não irão nos perdoar. Temos de iniciar uma campanha séria para mudar o atual cenário.

Paulo Ferreira.

Alcindo Lorenzi

Iporã - Paraná - Produção de leite
postado em 04/03/2007

Tão bom quanto o primeiro. Aguardo ansioso o terceiro artigo.

Nilson Henrique de Oliveira

Lins - São Paulo - Frigoríficos
postado em 05/03/2007

Parabéns Carlos pelos artigos sobre a importância da água, que mostram a situação emergencial em que se encontra a questão da água, como matéria-prima e fonte de vida. Quando se trata de questões ambientais, o discurso de pessoas como você são tratados com descaso, como foi o caso de Al Gore quando começou a pregar contra o aquecimento global, que deixou de ser levado a sério como homem público. Hoje, compreende-se a relevância de sua atitude.

O que precisamos entender é que não há tempo para realizar mais estudos e conferências, que resultarão em relatórios que terão adesão de alguns poucos comprometidos com estas causas.

Fala-se muito em conscientização para resolver os problemas ambientais, como o da água, e outros problemas, como a violência. Após o assassinato do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, foi pendurada uma faixa questionando: Não vamos fazer nada?

O colunista da revista Veja, Diogo Mainardi, questiona esta crença da conscientização, e diz que a responsabilidade é do governo.

E também no caso da água, se nossos representantes não tomarem alguma atitude, sofreremos com a falta de água em um futuro próximo. Gastamos muito mais dinheiro descontaminando a água, ao invés de proteger as fontes desta. E o que o estado fez para resolver o problema? O que o governo pensa a respeito disto?

Não vamos fazer nada? Podemos escolher melhor na próxima eleição.

Antenor Pereira de MOraes Netto

Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Produção de gado de corte
postado em 15/03/2007


Ótimo!

Concordo em tudo, porém aposto com quem quiser que a única coisa que o nosso querido governo do PT irá fazer, será instituir um imposto da água, dos poços, das nascentes e tudo mais que ele puder inventar para formar um fictício fundo emergencial das águas ou algo parecido, para quando estivermos em uma situação de risco ou seca prolongada, utilizar o dinheiro (se ainda existir algum) para mandar para São Pedro mandar chuva...

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