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Mercado do cordeiro brasileiro

Por Ana Carolina Prado Zara e Antonio Sérgio Villas Bôas
postado em 12/02/2009

3 comentários
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Onde se esconde o mercado do cordeiro brasileiro?

Porque sabemos tanto sobre os outros mercados e não conhecemos o que está nos nossos próprios quintais?

O Brasil tem crescido anualmente em cabeças de ovinos e nada é falado sobre o cordeiro brasileiro. Faz sentido pensar que o aumento do rebanho reflete em aumento da oferta de carne ovina.

O marketing da carne ovina brasileira ainda é muito pouco trabalhado. Costumamos dizer que o cordeiro brasileiro vem acompanhado de sobrenome: o Cordeiro do Zé, o Cordeiro do João e assim por diante porque eles não são necessariamente iguais. O que isso significa? Que o cordeiro brasileiro ainda não representa um cordeiro padronizado. Aliás, não há consenso quanto ao peso desejável de carcaça. Tampouco existe padrão para identificar uma boa qualidade de carne.

E quem de fato domina esse mercado? Quem domina o mercado é o país ou região que produz cordeiros. Observa-se uma estruturação da cadeia, crescente em regiões menos tradicionais. Até mesmo o consumo que tem crescido em regiões onde a produção é pequena, caracterizando importações de quantidades importantes de carne. Mas, se de um lado há uma indústria de carne que reclama a falta de oferta, de outro lado, os produtores reclamam que não conseguem vender seus cordeiros. A verdade é que os dois lados parece não se encontrarem.

O produtor de carne de cordeiro conta com uma falta de marketing de sua carne e um valor discutível pago pelo seu cordeiro. A grande questão é que competimos com o cordeiro uruguaio, ou neozelandês, ou chileno, cordeiros renomados, dignos de sua fama por receberem uma classificação de carcaça e aceitação do consumidor. Alia-se a este, o fato de possuírem escala em sua produção, escala esta capaz de abastecer a redes de mercado importantes. E as importações se sucedem!

Os grandes produtores nacionais de carne de cordeiro hoje são a região sul e nordeste. Os cordeiros provindos do sul são vendidos por R$2,50/Kg do peso vivo. Esse preço pode até apresentar boa liquidez por seu baixo custo de produção. Já os cordeiros produzidos no sudeste, mesmo com preços 60% mais altos, muitas vezes não fecham um balanço azul quando se analisa o custeio. Isso se deve a sua necessidade de arraçoamento, pequena escala de produção, custo da terra e manutenção de alimentação extra durante parte do ano.

A produção sulista, ou mesmo o produto importado, dado o seu baixo custo de produção e a escala produzida, puxam o preço de mercado do cordeiro do sudeste para baixo. Não há chances de comparação entre os preços pagos pelo Kg do cordeiro vivo entre uma região e outra.

Além disso, excluídos fatores ligados a custo de produção, é reconhecido que cordeiros criados somente a pasto apresentam um menor rendimento de carcaça. Esse fato se agrava com a idade de abate. Cordeiros criados em regime exclusivo de pasto fatalmente terão o peso para abate em idade maior do que cordeiros confinados, e isso interfere fortemente no rendimento de carcaça. Essa diferença da chamada "quebra" ou rendimento de carcaça promove diferenciação importante dos valores pagos ao produtor. Valores bons e ótimos giram em torno de 47-50% de rendimento sucessivamente. Animais criados em regime extensivo dificilmente atingem tal rendimento (entende-se rendimento de carcaça por peso morto/peso vivo x 100). Logo, quanto maior esse resultado, mais seguro para os frigoríficos comprarem cordeiros pagando melhor. E o inverso torna-se verdadeiro. Um baixo preço a ser pago pelo peso vivo do cordeiro é mais seguro ao comprador. Risco por risco, o frigorífico paga a menos, para minimizá-lo.

Entende-se então, que com competidores tão fortes no mercado e um notado nivelamento de preços por baixo, a obrigação do produtor brasileiro é a de produzir qualidade. Conquistar o consumidor pelo paladar fino e delicado que um cordeiro de boa qualidade pode oferecer.

É importante ressaltar que essa obrigação é exclusivamente do produtor; não é possível ao frigorífico melhorar uma carne ruim. E daí, os produtores não deveriam ser mais bem remunerados por apresentarem uma melhor qualidade?

Sem dúvida os frigoríficos brasileiros podem pagar pela qualidade de um bom cordeiro. Há um ano, o preço de mercado na região sudeste girava em torno dos R$3,00/Kg do peso vivo para o animal cruzado; hoje já se fala em R$4,00/Kg com perspectivas de melhora. Até que ponto se deve contestar esse preço e até que ponto se deve aceitá-lo?

A saída encontrada por alguns produtores para agregação de valor no mercado segue a criação de marcas independentes. Este pode ser um reflexo da reprovação do produtor ao preço pago no mercado. Agregar valor a carne vendida é uma maneira de ganhar mais por cordeiro, podendo aumentar mais de 100% em relação ao valor pago pelos frigoríficos. E é possível, desde que a carne seja diferenciadamente melhor. A dificuldade desta opção é manter a marca estável, principalmente se considerada a escala com que se consegue produzir dentro de uma mesma fazenda. Tem sido observado um número grande de produtores que optam por essa alternativa e não conseguem manter abastecido até mesmo um pequeno nicho de mercado regional.

Os restaurantes, por sua vez, objetos de desejo de todo aquele que faz a sua marca, pagam pela facilidade da pronta entrega e pela possibilidade de comprarem carne resfriada (não congelada), aumentando com isso, o preço. Mas a exigência contínua e, nesse caso, crescente dos pedidos faz com que essas marcas naturalmente desapareçam do mercado, após as primeiras vendas. Além disso, a sobra das chamadas "carnes de terceira", como pescoço, costela ou garrões representam uma dificuldade a mais na comercialização. O consumidor deseja cortes com porções generosas de carne e não há uma destinação muito clara para os cortes de terceira.

A tendência para o mercado de cordeiro na região sudeste é que o peso vivo ao abate aumente. Da mesma forma que o preço, há um ano cordeiros de 30-32Kg eram aceitos pelos frigoríficos. Hoje, cordeiros maiores têm sido requeridos pelo mercado com peso entre 35-40Kg, na certeza de mais carne com menos abate. Porém, para o produtor, essa exigência torna-se cada vez mais cara, uma vez que o cordeiro deve ser a categoria de giro mais rápido na produção. Fazê-lo crescer mais 5 a 7 kg representa um gasto a mais e maior tempo de ocupação do confinamento, diminuindo o giro e a rentabilidade da atividade. Dentro de pouco tempo o aumento de preço se poderá diluir com o aumento do peso vivo requerido pelos abatedouros.

Considere-se ainda, que somente o Brasil paga o preço de cordeiros vivos. Todos os outros países classificam e bonificam os diferentes tipos de carcaças. Essa atitude, se adotada, fatalmente selecionaria os "produtores de carne" dos "produtores de Kg de peso vivo". A eficiência econômica não está em "com quantos quilos se pode abater um cordeiro", mas "com quanto tempo isso pode ser feito". A velocidade da produção pode levar o cordeiro a ser abatido com pouca idade e isso promove a melhoria de sua eficiência produtiva, qualidade de carne e custo de produção, além de acelerar todo o sistema, chegando a aumentar a prolificidade do rebanho.

A vantagem da formação de uma marca como saída para se obter um melhor preço de venda termina no momento em que os custos de produção são aumentados. Vindo de encontro com o mesmo tabu existente na relação com os frigoríficos: não havendo fomento para o sistema de produção como um todo (preço), o produtor não produz. E a demanda por cordeiros brasileiros, muito maior do que a sua produção deixa a porta aberta aos exportadores de plantão.

É necessária uma avaliação técnica competente para tornar eficiente o ganho de peso do cordeiro. Isso é capaz de tornar o sistema de produção como um todo, mais rápido e naturalmente econômico. O produtor deve se encaixar na margem ganha por cordeiros, onde um cordeiro arraçoado tem lucratividade mais baixa do que um cordeiro criado no sistema extensivo, porém seus ganhos estão no giro mais rápido do sistema de produção. Isso é mais efetivo para majoração dos ganhos, mais do que somente agregar valor ao produto vendido. Além disso, é importante salientar que cordeiros confinados apresentam melhor qualidade de carne, no que se refere a sabor e suculência, e é isso que o consumidor está disposto a pagar. Verdadeiramente, a obrigação e o zelo pela qualidade são ainda de quem quer vender. Produzir um cordeiro bom é uma forma de vender bem o cordeiro.

A necessidade de espaço capaz de alojar quantidades importantes de animais faz com que a margem pequena de lucro não possa ser aumentada pela escala. Essa característica é devida à estrutura fundiária da região. As propriedades rurais pequenas tendem às monoculturas; sítios e pequenas chácaras não deixam outra opção ao produtor rural que não seja a intensificação sistemática de seu modelo de produção, mesmo com limitação quanto a capacidade de alojamento de grandes projetos. A solução podem ser as associações e cooperativas que viabilizam a venda deste pequeno produtor para o mercado legal.

Em geral o frete é suprimido pelo frigorífico a partir de 150 cordeiros terminados. Essa opção, além de formar um pool de vendas, também promove a venda profissionalizada do produto. E esse produto faz falta para o mercado. As pequenas produções são importantes pela "qualidade" do que podem produzir. Além disso, são capazes de somar cordeiros para um mercado que pode e precisa ser estabelecido.

Na venda do boi gordo, as exigências mínimas são 16-18 arrobas com caminhões de 20 animais. Fugir dessas condições impõe ao produtor receber o preço da arroba de fêmea pelo seu animal. Da mesma forma, na cadeia do leite há a decadência de produtores que não atendem as exigências de qualidade para o consumo. Com o cordeiro a relação é inversa. A carne tem sido tão procurada, que o abate ilegal é capaz de agregar mais valor ao produto final do que a venda para frigoríficos. Esse é, lamentavelmente, uma constatação obscura que tem guiado a cadeia da produção por uma via sem retorno. Os bons cordeiros são vendidos nas fazendas, e os maus cordeiros chegam ao frigorífico. Com isso, não há preço que ajuste a relação preço:oferta.

A conclusão a que se chega é a de que o produtor da região sudeste deve, sem dúvida, produzir o que o consumidor quer: carne de cordeiros jovens, saudáveis, seguros, fiéis ao gosto do consumidor. Esse é o trunfo: agregar valor ao produto, pela qualidade oferecida. Abastecer e satisfazer a um mercado exigente, elitizado, de bom gosto, de tal forma que compense com preço a pequena quantidade produzida. Esse mercado está disposto a pagar, desde que a carne o agrade.

A produção em ciclo curto é capaz de atender a estes quesitos: conferir dinâmica ao processo de produção e melhorar a qualidade da carne. Ganha-se menos mas agrega-se valor. Além disso, cordeiros precoces podem abastecer o mercado na entressafra das importações, aumentando o potencial de venda e agregando valor.

E esse cordeiro faz falta! Dessa forma o cordeiro brasileiro cairá nas boas graças de um consumidor que espera por ele.

Saiba mais sobre os autores desse conteúdo

Ana Carolina Prado Zara    Cachoeira Paulista - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Pablo Costa

Pinheiro Machado - Rio Grande do Sul - Zootecnista
postado em 12/02/2009

Gostaria de parabenizá-los pelo artigo, que dá boas sugestões aos produtores, abrindo um "leque de caminhos" que podem ser seguidos visando aumentar a lucratividade das propriedades, no entanto gostaria de resaltar que o preço de mercado praticado hoje na região sul do Rio Grande do Sul está bem longe dos R$ 2,50 publicados acima, na verdade o preço oscila entre R$ 2,00 e R$ 2,10 o quilo vivo, o que possibilita cobrir apenas os custos de produção e têm levado muitos criadores a abandonarem a atividade.

Nelson Carneiro da Cunha Moreira

Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Mídia especializada/imprensa
postado em 12/02/2009

Este é um artigo que num primeiro momento mostra claramente um pouco da situação contraditória em que vive o mercado de produção de carne ovina. Há interessados em consumir, há um bom volume de produção mas não se consegue manter a oferta por 12 meses, no mesmo padrão de qualidade.

Mas fica estranho, depois de toda a sua análise bem sustentada, com dados muito interessantes, direcionar sua conclusão para uma solução regionalizada. Ou seja, que o sudeste deva se concentrar na produção de cordeiros confinados, buscando mercados diferenciados com maior valor agregado.

Isto aponta para um outro questionamento. Será a carne de cordeiro um alimento que só pode ser consumido por mercados diferenciados, com alto padrão aquisitivo?

Ou conseguiremos transformá-la em um produto a ser consumido por um grupo maior da popupalção, assim como a carne bovina? Conseguiríamos fazer uma boa análise do cenário atual e tentar indicar um caminho para se conquistar este objetivo?

Eu penso que sim, que é possível. Mas para chegarmos a isto, e dar os primeiros passos nesta direçao, é preciso que todos que atuam neste setor, olhem com franqueza para os problemas que existem e se disponham a realmente solucioná-los, sem ficar apontando de quem é a culpa. Olhar para o setor de frangos e suínos e ver como eles conseguiram reverter a situação em que viviam há 20 anos atrás e o que estão vivendo hoje, é um excelente começo.

Olha para outras experiências e se dispor a mudar a situação, de forma unida, com todos trabalhando pelo mesmo objetivo, deve trazer o resultado que todos estão querendo há anos, uma ovinocultura de carne forte, com produção sustentada o ano todo e com o mesmo padrão de qualidade. Isto vai fazer com que o mercado tenha confiança no fornecedor e passe a consumir cada vez mais o produto carne ovina.

Jose Caetano Jr

São Paulo - São Paulo - Frigoríficos
postado em 14/05/2009

Concordo, em parte, com as colocações dos autores. Porém, como player direto desse mercado, saliento que a maior parte do mercado consumidor, representada pelo segmento de food service, que é hoje o grande consumidor de carne ovina em São Paulo, não está disposta a pagar preços que podem ser 50% superiores por produtos oriundos de animais confinados, com relação a produtos vindos do RS, Uruguai ou Chile, ainda que a qualidade seja superior.

Enquanto negociamos a R$ 8,00 o kg de carcaça em São Paulo, no Rio Grande do Sul o preço é de R$ 5,50 e os cortes vindos do Uruguai e Chile custam mais baratos ainda.

Assim, enquanto essa situação se mantiver, só conseguiremos competir em nichos muito segmentados, que não proporcionam escala.

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