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MST, 30 anos

Por Xico Graziano
postado em 06/02/2014

11 comentários
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Há três décadas era fundado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Naquela época, com inflação galopante, pouco importava produzir. A terra configurava excepcional reserva de valor. Por outro lado, cresciam as cidades, inchadas pelo êxodo rural, provocando crise no abastecimento popular. Tempos difíceis.

Originado na luta dos colonos gaúchos que acamparam na Encruzilhada Natalino, entre os municípios de Ronda Alta e Sarandi, o MST surgiu nos braços católicos da Teologia da Libertação. Favorecia suas ações o clima político do País. Em 1982 haviam sido, afinal, realizadas as primeiras eleições livres após o golpe militar e a oposição elegera a maioria dos governadores. No Rio Grande do Sul, Leonel Brizola brilhava com sua retórica.

Com a redemocratização em marcha, grupos alinhados à esquerda botavam suas asas para fora. No Leste, capengava o comunismo soviético; aqui, ao contrário, se animavam as ideias socialistas. Chegara a hora do ajuste de contas com o passado colonial. No campo, isso significava derrotar o latifúndio por meio da reforma agrária distributivista. "Terra para quem nela trabalha" - o slogan alimentava o sonho da justiça social.

Com José Sarney na Presidência da Nova República, o governo surpreendentemente anunciou seu ousado Plano Nacional de Reforma Agrária. Prometia assentar nos lotes, em quatro anos, 1,4 milhão de trabalhadores sem terra. A meta era, objetivamente, impossível de ser cumprida, mas todos nela acreditaram. Formulada nos anos 1960, a teoria do desenvolvimentismo nacional exigia quebrar a concentração da propriedade rural para fazer o País progredir. Reforma agrária, na lei ou na marra.

Nesse contexto vingava o MST, rivalizando com a tradicional Contag, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, entidade criada pelo sindicalismo de Getúlio Vargas. Manipulada historicamente pelo governo, a Contag tornara-se útil ao jogo do poder político. Pelega, como se dizia. A sociedade, querendo mudança, torcia pelo MST, que passou então a simbolizar a nova utopia agrária.

Durante seus 30 anos de existência o MST passou por três fases. Na primeira, logo se expandiu pelo País. Dirigida por jovens lideranças, a organização deixou o sul e rumou, inicialmente, para o Pontal do Paranapanema (SP), Pará, Mato Grosso e Pernambuco. Arregimentou e treinou quadros, articulou invasões, enraizando-se estrategicamente pelo território nacional. Aonde chegavam, contrastavam aqueles jovens loiros, de olhos claros, sotaque sulino, com as pessoas pobres e analfabetas, amorenadas pelo sol escaldante, mãos calejadas, estas parecendo ouvir profetas da redenção humana. Ninguém como o MST soube misturar a luta ideológica com o apelo messiânico.

Na segunda fase o MST radicalizou sua tática, construindo uma "fábrica de sem-terra" a partir da massa de desempregados urbanos. Até veículos com alto-falantes se utilizavam na periferia vendendo o passaporte da felicidade no campo. Bastava pagar uma taxa de inscrição, montar uma barraca de lona preta na beira da estrada e pronto: o excluído transformava-se num sem-terra. A moda pegou. Dezenas de movimentos "revolucionários", com nomes assemelhados, surgiram alhures, destinados a invadir fazendas. Jagunços gostaram da ideia, montaram seus esquemas criminosos e o banditismo rural se expandiu. Junto, cresceu a violência.

Nesse mesmo período, todavia, avançava a modernização capitalista da agropecuária. Progressivamente, quem, na verdade, estava derrotando o latifúndio era a tecnologia, a produtividade puxada rentabilidade do mercado. Mais adiante, após a estabilização da economia e a globalização, o Brasil começou a consolidar um modelo de produção rural altamente competitivo, tropicalizado, hoje admirado mundialmente. Os recordes na safra de grãos expressam facilmente tal revolução produtiva no campo. Mas na pecuária também se verificou um salto extraordinário: o Censo do IBGE mostrava, em 1980, uma relação de 0,68 cabeça de gado por hectare de pastagem; em 2006, a relação subiu para 1,1. A produção de leite por vaca/ano passou de 934 litros para 1.618 no mesmo período. Incrível.

É a modernização da agropecuária que explica, em parte, a terceira fase do MST: a decadência. Falta atualmente mão de obra em todos os setores da roça, uma escassez que eleva a remuneração do trabalho. Um tratorista, por exemplo, aufere ganhos que, em Mato Grosso, chegam a cinco salários mínimos. O que é preferível: padecer num lote distante da tecnologia e longe do mercado, ou conseguir um bom emprego, carteira assinada? Aguentar doutrinação velhaca, pagar comissão ao MST, ou crescer na vida emancipado?

Dentre as várias razões que explicam a derrocada do MST, uma delas recai sobre o sucesso da causa: o Brasil realizou, em 20 anos, a maior reforma agrária do mundo, distribuindo terras para 1,1 milhão de famílias. Dessas, 55% se encontram sob o domínio político da organização, que precisa, agora, cuidar da cria, mostrar resultado. Qualidade, não apenas quantidade. Um programa de reforma agrária, afinal, não pode virar rosca sem fim.

Perguntam-me sempre se foi importante o MST. Em termos, sim. Cumpriu papel histórico. Ao combater a terra ociosa, empurrou a burguesia agrária rumo ao progresso capitalista. Mas quando decidiu fazer justiça com as próprias mãos, tornando-se violento, manipulador dos miseráveis, passou a agredir a modernidade. Pior, ao participar do jogo da corrupção escondido entre os convênios do governo, maculou sua aura. Desviando dinheiro público, prostituiu-se.

Aos 30 anos, o MST perdeu o bonde da História. Sofre sua crise de identidade.


*Xico Graziano é agrônomo e foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.  

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Xico Graziano    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Fábio Homero Diniz

Juiz de Fora - Minas Gerais - Consultoria/extensão rural
postado em 06/02/2014

Observação: em 1982, Leonel Brizola foi candidato (e eleito) governador do Rio de Janeiro, assumindo em março de 1983.

carlos dario araujo portela

Teresina - Piauí - Produtor Rural
postado em 06/02/2014

Chico no PI o MST tá morto, e conto caso:

2006 nossa terra foi invadida lá idos de julho,gado gordo diferente de hoje
1- O governador, hoje Senador(WD) andando de mãos dadas, desfilando nas ruas da cidade com toda cambada do MST, idos de setembro.
2-600H de 3 donos diferentes e uma em divisão com 60 herdeiros 45h onde estavam acampados e fora as ameaças que todos já conhecem e o JUIZ (do 'RS') nada de decidir e sem fazer nada.
3- 21 de dezembro 2006 (seca de 6m sem poder alocar o gado na área restante sobe ameaça do MST) gado com fome, decidimos brigar e ganhamos a parada, briga feia, gente machucada dos dois lados.
4-28 de dezembro de 2006 JUIZ deu ganho de causa para nós e ordenou a retirado do MST após o conflito
5-Das +10 invasões do MST na nossa região somente em Murici teve ganho por parte dos donos de fazenda,onde manda assentado tudo acabado só as dívidas prosperaram e com com sucesso.
                         


  

Augusto Alves Santana

Formosa - Goiás - Consultoria/extensão rural
postado em 07/02/2014

Bom dia, Xico.

Parabéns pela matéria. Ela descreve exatamente, o que todos com um mínimo de olhar crítico já percebiam  acerca do MST e de sua relação com a agricultura.

Infelizmente, o saldo que ficou daquela política equivocada foi a criação e manutenção de milhares de favelas rurais espalhadas pelo país. Gostaria que algum governo voltasse sua atenção para a situação de miséria em que se encontra a maioria dos assentamentos  rurais.

geraldo jose correia de melo

Campina Grande - Paraiba - Indústria de laticínios
postado em 07/02/2014

É  preciso entender que nunca na história do mundo houve uma sociedade formada unicamente por patrões/proprietários de terra, como apregoado pelos dirigentes do MST aos seus filiados. O verdadeiro sentido de ocupação da terra/reforma agrária, foi desvirtuado pelo movimento.

Wagner Beskow

Cruz Alta - Rio Grande do Sul - Pesquisa/ensino
postado em 08/02/2014

Graziano,

Acompanhei todos esses passos da história do MST, que me pareceram fielmente descritos.

Tenho trabalhado com produtores em assentamentos no sul e centro-oeste. Percebo que dos originalmente assentados restam de apenas 10-30%, dependendo do assentamento. A grande maioria dos lotes foi vendida. Embora uma operação irregular, percebo que a leva de produtores que assumiu trouxe outro tipo de perfil e experiência. Combinado com os que ficaram, temos hoje muitos bons produtores de leite em assentamentos.

Ocorre que estão abandonados e muitos não possuem condições legais de posse da terra para conseguirem financiamento bancário.

Muitas propriedades que atendemos encontramos pessoas tão capazes e desejosas de crescer quanto qualquer bom exemplo que se possa achar por aí. Em muitos destes casos se consegue dar um salto à frente apenas mudando rotinas de manejo, 'que por sua vez gera recursos extras e permite investimentos pequenos e continuados.

Em alguns assentamentos, no entanto, ainda tem aquele perfil de sangue-suga que não plantou uma árvore se quer na volta das casas e vive ou bebendo e jogando, ou fazendo tudo menos cultivar a terra. Nesses casos os vizinhos sofrem muito, desde conflitos de servidão (acesso por dentro de suas propriedade) até abigeatos frequentes. Creio que logo veremos estes também fora da terra, naturalmente substituídos por famílias de perfil produtivo.

Embora eu desaprove todos os métodos do MST, os recursos despejados sem critérios, as pessoas erradas recebendo terra, as destruições e traumas que causaram, também vejo hoje um saldo positivo. No entanto, só é positivo graças a esta seleção natural que te relato.

Tenho ótimos exemplos de produtores de leite em assentamentos, orgulho para o Brasil. Famílias exemplares, alta qualidade de leite, produtividade crescente e margens perfeitamente viáveis.

Soube, contado por um "insider", que no final do governo Lula ele teria feito uma reunião de avaliação da reforma agrária. Apresentados todos os dados (e imagino quão maquiados para melhor possam ter sido), o mesmo teria dito: "se isso é o resultado da reforma agrária, seria muito mais barato nós botá todo mundo em hotéis que eles estariam muito melhor acomodados e nós gastaríamos muito menos" (a pessoa que me contou isso esteve na suposta reunião). Não surpreende a conclusão, pois é o que todos vemos no campo. Só não sabe isso quem não convive com os assentamentos.

João B Almeida

Cachoeira de Minas - Minas Gerais - Produção de café
postado em 08/02/2014

Ufa !!! muito prazeroso ler um artigo assim. Um breve relato histórico norteando por 30 anos de existência de um movimento. um movimento que fugiu de seus ideais e hoje parece mais um movimento de indigentes. Impressionante que hoje ainda surgem movimento espelhados na desvirtuação destes ideais, e muitas vezes com apoio de órgãos públicos, como e o caso do movimento Indígena. Povo que eu respeito e admiro muito, meus irmãos de origem, que merecem todo apoio do serviço público, sendo integrado na sociedade com educação, saúde e qualidade de vida, e não ser conduzido a um destino como o do MST. Outros movimentos surgem, como e o caso agora dos protestos. O homem deve manifestar sempre, o problema é que em um tempo onde tudo parece que a bandidagem é geral, numa manifestação legítima, ocorre o desvio de foco, e tudo se transforma em baderneira. como vamos exigir dos nossos dirigentes políticos, se numa manifestação comportamos como eles, saqueando e  destruindo o patrimônio público e propriedades privadas sem distinção. Devemos manifestar sempre, protestar com firmeza no ideal. Que o dinheiro publico seja gasto no interesse publico e com responsabilidade, sem cartel e sem propina.

parabéns xico.

André Medeiros

Quixadá - Ceará - Produção de caprinos de leite
postado em 08/02/2014

Otimo artigo Xico.
O movimento foi desvirtuado. E esta cada vez mais enfraquecido pois nao tem mais pra onde irem. Se todas as pautas possiveis e imaginaveis do movimento fossem atendidas eles acabavam pois nao saberiam mais o que fazer.
Uma pena pois embora o merito seja justo as formas foram manipuladas por aproveitadores.
Abraco

GINOAZZOLINI NETO

Londrina - Paraná - Produção de café
postado em 08/02/2014

Aqui no Norte do Paraná, os assentados do MST arrendaram suas terras para o plantio de soja. O empresário já gradeou as terras, está botando calcáreo e já vai para o plantio de inverno.  Agora,seim, as terras voltarão a ser produtivas.

Guilherme Alves de Mello Franco

Juiz de Fora - Minas Gerais - Produção de leite
postado em 10/02/2014

Prezado Xico Graziano: O grave problema do MST é que a grande maioria de seus integrantes nunca foi trabalhador rural. Pessoas, como o famoso José Rainha, aproveitaram a onda da "Encruzilhada Natalino" para se promover ou ganhar terras do Governo para fazer dinheiro com elas, o que originou o quadro descrito pelo amigo Wagner Beskow. Por outro lado, a ideia brasileira de reforma agrária beira ao populismo e não atinge, de forma nenhuma, aos anseios de quem quer a terra para produzir. Tomar a terra de quem não consegue recursos para tocá-la e entregá-la a outrem que os tem menos ainda, ou pior, dar recursos ao assentado para produzir, que poderiam ter sido destinados ao verdadeiro dono, solucionando o estado de estagnação em que a terra estava é, no mínimo, uma grande burrice, pois não resolve o problema e ainda cria um conflito social alarmante, como o que hoje se vê no Brasil.
Por fim, não existe mais a estrutura latifundiária especulativa de antes, onde o proprietário tinha terras a perder de vista, como investimento imobiliário. Dê condições ao dono da terra de produzir e não haverá um palmo de terra ociosa no Brasil.
Um abraço,

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
ALFA MILK
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
=HÁ NOVE ANOS CONFINANDO QUALIDADE=
www.fazendasesmaria.com
Facebook: Sesmaria Faz
  

Múcio Pereira Diniz

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de leite
postado em 10/02/2014

Prezado Xico Graziano,eu acho que só quem conviveu com o MST sabe o engodo que é a proposta de reforma agrária . O meu sogro teve sua fazenda invadida  por cerca de 20 famílias do MST , após ano e meio de tentativa de reaver o imóvel ,percebemos a má vontade do poder público em resolver o problema em contrapartida ficamos realmente admirados como o governo e as ONGs estrangeiras conseguem abastecer as pessoas de cestas básicas no mais distantes rincões do Norte de Minas . O assentamento realmente funciona quando o caminhão de cestas está por vir,são pessoas sofridas ,que deixam suas casas nas vilas para aguardar debaixo das lonas pretas aquela comida. Nestes 2 anos, vivia neste assentamento 2 jovens que faziam a segurança e 2 dois  senhores que sempre viveram da terra. Produção "zero" ,mas a cesta básica chegou.
        Infelizmente , ficar no escritório com ar condicionado ,tomando vinho francês e comendo caviar  pode fertilizar bem a cabeça da população e dos políticos a apoiar invasões de terras que em quase 100% das vezes são produtivas .
        Alguém,já viu MST invadir terra ruim, terra com mato ou terra distante de alguma comunidade urbana ? Se alguém conhece, parabéns vocês vão conhecer também a cabeça de bacalhau .
        Deixo a minha indignação ,mas esta deveria ser da população urbana que está achando que as invasões vão melhorar o abastecimento e na verdade estão tirando o dinheiro do imposto dos trabalhadores urbanos para comprar votos dos miseráveis das pequenas vilas . Além ,disto eu gostaria que alguém me explicasse o que faz uma ONG estrangeira dar cesta básica a assentados Brasileiro e não dão para os famintos Africanos ?

Carlos Brito

Itamaraju - Bahia - Mídia especializada/imprensa
postado em 10/02/2014

Muito feliz nesse artigo. Parabens

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