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Vale do São Francisco e os paradoxos da produção versus consumo de carne ovina e caprina no Brasil

Por Gilmar Borges de Brito
postado em 23/10/2007

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O rebanho brasileiro de ovinos e caprinos, após queda acentuada entre 1990 e 1996, estabilizou-se em cerca de 15 milhões de cabeças, dando mostras de pequeno crescimento a partir de 2003. Esse rebanho concentra-se nordeste (60% ou 9 milhões de cabeças) e no sul (30%), regiões onde há tradição em consumo desse tipo de carne. Nos últimos anos, observa-se um aumento de plantel na região centro-oeste do país.

Por ser uma criação com ciclo de cerca de oito meses, a taxa de desfrute de um rebanho de cabritos ou carneiros é de aproximadamente 50% ao ano. Esses dados permitem concluir que cerca de 7,5 milhões de animais são abatidos por ano no Brasil, gerando cerca de 120 mil toneladas de carne, insuficientes para abastecer o mercado interno que importa cerca de 4% do consumo, ou 5 mil toneladas ano, praticamente toda do Uruguai. Essa carne importada é consumida principalmente na região sudeste, enquanto a produção, como o rebanho, se dá no sul e nordeste.

A soma da produção interna com as importações, 126 mil toneladas, dividida por 180 milhões de habitantes chega ao consumo per capita de 0,7 kg/hab/ano divulgado pela FAO (órgão das nações unidas para alimentação e agricultura). Tal nível de consumo é semelhante ao que ocorre nos EUA e muito inferior ao que ocorre na Oceania (17,7 kg/hab/ano em 2005), na Europa (2,8 kg/hab/ano) ou na África (2,4 kg/hab/ano).

No meio rural, a exemplo do que ainda ocorre com frangos e suínos, carneiros e cabritos são criações domésticas, com abates informais e oferta irregular. Nos centros urbanos, o abastecimento de aves e suínos é feito por grandes frigoríficos que integram produção, abate e distribuição não apenas de carne in natura e seus diversos cortes, mas também de produtos elaborados a partir dela. O mesmo já não ocorre com a carne ovina e caprina.

Para se ter idéia do tamanho da informalidade do setor no Brasil, o total de abates oficiais de ovinos e caprinos no ano 2006 foi de 225.688 cabeças, segundo o ministério da Agricultura (MA) o que representa apenas 1,4% do rebanho brasileiro ou 3% dos abates totais estimados. Cerca de 75% dos abates oficiais se dão no Rio Grande do Sul. Portanto, o nordeste, apesar de deter o maior rebanho, quase não participa do aumento de consumo nos grandes centros no qual o preço pago pelos clientes finais e serviços de alimentação é muito maior, mas exige garantias sanitárias do SIF, portanto abates oficiais. O primeiro paradoxo é, portanto, a distribuição geográfica da oferta e da procura e a grande informalidade na produção de carnes.

O nó da cadeia produtiva

O Brasil tem condições de produzir e consumir muito mais carne de cordeiros e cabritos se aumentar a oferta de produto. O mercado das grandes cidades, considerando consumo doméstico e fora do lar em restaurantes, em especial na região sudeste, está crescendo. Os consumidores consideram a carne ovina como exótica e apropriada para festividades ou ocasiões especiais, e alta gastronomia já descobriu essa iguaria. Os poucos produtores organizados conseguem comercializar tudo o que conseguem produzir com padrão de qualidade a bom preço. Entretanto, a maior parte da oferta formal vem de frigoríficos que adotam o sistema de mercado para obter os animais para abate.

O paradoxo da ausência de mais produção (com conseqüente demanda reprimida) pode ser explicado pelo o rendimento obtido pelo produtor. Considerando os valores médios de compra e venda, vemos, pelo gráfico 1, que o animal vendido pelo produtor por R$ 70, um cordeiro desmamado de 20kg, vai para a engorda e, menos de 2 meses depois, é vendido pelo terminador já com 35 kg por R$ 105. O frigorífico ou abatedor informal obtém metade desse peso vivo como carcaças ou cortes, vendidos em média por R$ 138 ao varejo. O consumidor final paga, em média R$ 184 pelas carnes que provém de um exemplar de cordeiro.

Gráfico 1. Preço de Vendas e margens na cadeia por animal.


Fonte: Mercadotecnia

Observa-se que o produtor, que arca com a maior parte do custo, tem a menor parte do valor total pago pelo consumidor no varejo. Esse modelo é semelhante ao que ocorre na cadeia produtiva da carne bovina, na qual os frigoríficos detêm o poder de estipular preços e capturam grande parte do valor final do produto.

Portanto, do ponto de vista do produtor, o carneiro exige o nível de cuidado e tem ciclo curto como suínos, mas não têm o apoio de integradores como os últimos. Por outro lado, a venda se dá sem contratos, de forma spot, como bovinos, considerados reserva de valor que pode ser estocada e exige muito pouco cuidado (menor custo operacional). O paradoxo da falta de coordenação ocorre pelo fato de carneiros e cabras não terem ciclo tão rápido e produtividade das granjas de suínos e aves, nem poderem ser reserva de valor como bovinos pelo elevado nível de cuidado requerido e perecibilidade.

A atratividade do Vale do São Francisco (VSF) para a cadeia da Ovino-caprinocultura

O VSF pode contribuir significativamente para desatar o nó da cadeira produtiva atraindo produtores com:

- Disponibilidade de terra, secas e irrigadas, para pastorear e produzir alimentos para os animais;
- Mão de obra com alguma experiência em lidar com caprinos e ovinos com custos menores que outras partes do país;
- Possibilidade de envolvimento de pequenos produtores em busca de alternativas de renda;
- Tecnologia e apoio técnico da Embrapa local, que tem grande experiência na área;
- Existência de matrizes para formação de rebanhos comerciais em curto prazo;
- Alto grau de luminosidade na região, com efeitos positivos na fertilidade do rebanho;
- Áreas livres de aftosa, permitindo produtos mais seguros e possibilidade de exportação;
- Baixo índice de verminose, um dos maiores problemas de produção na região sudeste;
- Capacidade de trabalhar com raças nativas da região melhorando a produtividade com desenvolvimento e cruzamentos genéticos.

Atualmente estuda-se a viabilidade de se desenvolver a cadeia da caprino-ovinocultura no Vale do São Francisco. Este projeto está sendo desenvolvido pelo PENSA (Centro de Conhecimentos em Agronegócios da Universidade de São Paulo) para a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (CODEVASF).

O objetivo do projeto é atrair empresas do agronegócio para as regiões de atuação da CODEVASF demonstrando a atratividade de implantação de empresas do ramo de produção e industrialização de carne caprina e ovina nas áreas da CODEVASF, que oferece infra-estrutura adequada e apoio estatal, além de incentivos fiscais, linhas de financiamento e apoio em pesquisa por meio de instituições parceiras.

A idéia central é compor unidades de produção em áreas irrigadas e áreas secas (sequeiros) que entremeando os perímetros de irrigação já existentes ou em implantação pela CODEVASF. (Vide figura 2).

Figura 2. Exemplo de perímetro de irrigação no VSF com Áreas de sequeiro (marrom) em contraste com áreas irrigadas (verde)



A região também oferece benefícios ao processamento de carnes:

- Pela existência de frigoríficos que podem realizar abates
- Pela existência de curtumes que no momento chegam a importar couros para atender a demanda interna
- Pela proximidade do mercado. O hábito do nordestino em consumir carne caprina e ovina é
maior que no resto do país.
- Pelo fato dos miúdos serem valorizados para o preparo de pratos típicos, algo que não ocorre
no sul e sudeste do país.

O que os investidores precisam é da capacidade técnica e gerencial para organizar os fatores de produção na cadeia.

A Codevasf

A CODEVASF é um órgão estatal que tem como missão promover o desenvolvimento de forma dos Vales do São Francisco e do Parnaíba. Atuam nas Bacias Hidrográficas dos rios São Francisco e Parnaíba, perfazendo 953.000 Km², e abrange porções dos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Goiás, estreita faixa no Distrito Federal na Bacia do São Francisco, e partes dos Estados do Piauí e Maranhão, na Bacia do Parnaíba. Sua área de atuação central é a irrigação.

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Gilmar Borges de Brito    Ribeirão Preto - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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