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Alcides Amaral (ex-Citibank) analisa crise mundial

postado em 04/11/2008

4 comentários
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Alcides Amaral (arquivo Istoé Dinheiro, 2001)


A velocidade com que a crise se espalhou pelo mundo pegou a todos de surpresa. Como consequência, diante da escassez de crédito, os juros estão aumentando. A oferta de Adiantamento de Contratos de Câmbio (ACC), necessário à exportação, caiu 45,8% entre os dias 10 e 17 de outubro quando comparada à média diária de setembro, de US$ 238,84 milhões para US$ 129,38 milhões.

Segundo o Banco Central, o fluxo cambial em outubro até o dia 24 estava negativo em US$ 4,397 bilhões. A saída de dólares do país nesse período foi liderada pela conta financeira, que registrou saída líquida de US$ 6,131 bilhões, resultado de remessas de US$ 27,816 bilhões contra ingressos de US$ 21,685 bilhões.

Analisando estes e outros dados que confirmam a atual crise financeira mundial, confira abaixo a opinião de um dos articulistas mais respeitados e influentes do Brasil, o ex-presidente do Citibank, Alcides Amaral, em palestra realizada pelo Centro de Integração Empresa - Escola (CIEE) em Piracicaba, SP, na semana passada.

História

Segundo Amaral, a década de 80 foi marcada pela grande disponibilidade de "petrodólares" no mercado mundial, uma época de crédito fácil na qual foram patrocinadas grande obras de infra-estrutura no Brasil, como a ponte Rio-Niterói, a rodovia dos Bandeirantes, usina de Itaipu, etc. Já na década de 90, com a chegada da inflação nos EUA, houve um aumento dos juros no país de 7-8 para 20% ao ano, seguido da quebra de países emergentes que haviam adquirido dívida externa.

Naquela época, o então presidente da república, José Sarney, pediu moratória da dívida e o Brasil ficou isolado, sem crédito. Como resultado, a inflação chegou a 80% ao mês. Já na era Collor, em 1991, Pedro Malan é convidado para assumir o Ministério da Fazenda e propor a renegociação da dívida externa. Na época, o Citibank era o segundo maior credor do país, com US$ 45 bilhões.

Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, enfrentou várias crises durante seu governo, como a do México, da Argentina, dos Tigres Asiáticos e Rússia, entre outras. A taxa básica de juros do Brasil, a Selic - que por decisão do Comitê de Política Econômica (Copom) do BC no último dia 29 foi mantida a 13,75% - chegou a 45% para segurar a inflação e ajustar o câmbio, o que fez aumentar a dívida interna. Durante este período, o crescimento do Brasil foi de 2,5% ao ano.

Em 2002, diante das diversas expectativas criadas em torno da possível eleição de Lula e a incógnita de sua administração, o dólar foi a U$ 4,00. Desde sua eleição, nas palavras de Amaral, o presidente governou sob céu de Brigadeiro. De lá pra cá, cresceu a procura da China por matérias-primas na euforia de sediar os jogos olímpicos de 2008, e diante de crescimento invejável de sua economia, o país inflacionou o preço das commodities. O Brasil, então, levou vantagem nesse cenário. O Barril de petróleo chegou a U$ 145,00.

Gráfico 1. Preço do barril de petróleo - Jan/06 a Out/08

Fonte: ADVFN, 2008

Recapitulando, a década de 70 ficou conhecida como a época do "milagre brasileiro"; a década de 80 foi considerada a "década perdida", e, segundo o especialista, de meados de 1990 até hoje, testemunhamos uma época de oportunidades perdidas, principalmente porque o governo poderia ter reduzido gastos e não o fez. Na sua visão, o país está pouco preparado para enfrentar a crise. "Até 2007 tudo estava muito bem, o Brasil recebeu o investment grade. Hoje, as companhias de rating devem estar arrependidas", disse.

Cenário atual

Em 2000, os juros nos EUA estavam a 1%, nos mesmos patamares de hoje (o governo norte-americano anunciou semana passada o corte de 0,5% em sua taxa básica de juros, a Fed Funds, correspondente à nossa Selic), mas no ano passado a mesma chegou a 5,25%, trazendo um efeito negativo para quem havia adquirido hipotecas imobiliárias (subprimes).

Amaral apontou algumas falhas nos EUA que desencadearam a crise, destacando entre elas a negligência na supervisão bancária por parte do FED, que não cumpriu com seu dever de fiscalizar os bancos. Também julgou precipitada a atitude das companhias de rating que deram nota máxima aos subprimes. Resultado: a bolha estourou e os preços das casas despencaram - e como nos EUA há leis severas neste sentido, quem deixou de pagar a hipoteca em 6 meses perdeu a casa para a Justiça.

A origem dos subprimes data de setembro de 1999, quando o ex presidente Bill Clinton assumiu o compromisso de facilitar o acesso a financiamentos de residência à população de baixa renda nos EUA. Hoje, Alan Greenspan, que na época era presidente do FED, o Banco Central americano, está sendo muito criticado por ter baixado os juros do Fed Funds naquela época, pois quando esta taxa tornou a subir, aumentaram-se também as inadimplências.

Alcides Amaral acredita que tempos piores virão. Para ilustrar sua opinião, ele lembrou a seguinte citação: "atualmente, as pessoas obtusas estão muito seguras de si, enquanto as inteligentes estão cheias de dúvida" - "e nós estamos cheios de obtusos no governo", emendou.

Num cenário não otimista, há projeções de crescimento de apenas 6% para a China no ano que vem. A grande preocupação hoje dos países desenvolvidos é que a crise não traga maiores consequências para os emergentes, pois ainda há esperança de que, entre as recessões já anunciadas, como a da Inglaterra, no terceiro trimestre, os países em desenvolvimento tragam algum equilíbrio à situação econômica mundial, para que o mundo possa crescer um pouco, na média. Até US$ 250 bilhões provenientes dos governos "ricos" estão reservados aos mercados emergentes.

Conforme noticiou o Jornal do Comércio, o Banco Central anunciou no último dia 29 que recebeu reforço de caixa de US$ 30 bilhões que poderão ser usados para atuações no mercado de câmbio sem afetar o nível das reservas internacionais. "A ajuda é resultado de um acordo com o Fed, que anunciou entendimento idêntico e em igual valor com México, Cingapura e Coréia do Sul", publicou.

Atualmente, há um deficit crescente na conta corrente do Brasil por conta da saída de dólares do país, bem maior quando comparada à evasão de divisas de outros emergentes como Rússia, China ou Índia. "As empresas estão mandando toda a receita gerada para as matrizes, que se encontram carentes de recursos", disse o analista. Diante deste cenário, ele considerou irresponsável a atitude do governo brasileiro de deixar o dólar chegar a R$1,55. O ex-presidente do Citibank também lembrou que, precipitadamente, 20 construtoras abriram capital no país só no ano passado, e agora devem enfrentar dificuldades.

Apesar dos EUA terem sido o pivô da crise, outros países estão depositando toda sua reserva financeira em títulos do tesouro americano, a juros zero, na tentativa de se protegerem da crise, pois o país ainda é a maior economia do mundo, teoricamente mais protegida de uma eventual quebra. Isso explica a atual valorização, até exagerada, do dólar diante de outras moedas internacionais, como o Iene e o Euro.

Na visão de Amaral, duas bolhas ainda podem estourar no Brasil: a imobiliária e a automobilística, fortemente relacionadas ao índice de empregabilidade do país. No setor agrícola, ele destaca a necessidade urgente dos usineiros em adquirir empréstimos, assim como a maioria dos agricultores, pois assumiram altos custos durante o plantio, e estão diante de desvalorização mundial das commodities. "Hoje não há liquidez, estamos sem linha de crédito, tanto interno como externo. O Senado aprovou na terça-feira, 28, uma medida provisória para socorrer os bancos", avaliou.

"Serão necessários pelo menos 5 anos para que a economia global se recupere e 2009 e 2010 serão anos críticos para o Brasil", declarou. "O governo assumiu uma postura lamentável, demorando para reconhecer a gravidade da crise. O presidente projetou suas despesas com base num crescimento de 5% ao ano, hipotecando os próximos anos num nível acima do que deveria, já que a taxa de crescimento do país em 2009 deve ficar entre 2 e 3%", disse. "Lula não vai cortar a folha de pagamento nem despedir nenhum funcionário público. Haverá corte de investimentos", sinalizou.

De acordo com a Folha de São Paulo de quinta-feira passada, apesar de ministros defenderem que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não será atingido pela crise financeira, o ritmo de gastos nas obras caiu, em média, mais de 70% em outubro em relação aos meses anteriores.

O conselho do analista é ficar de olho na crise e salvar dinheiro para 2009. Segundo ele, o mercado financeiro vende confiança - e por isso mesmo o governo, acertadamente, está dizendo que não vai deixar nenhum banco pequeno quebrar, pois uma quebra puxaria a outra, podendo ocasionar um efeito cascata. "A despesa é fixa, a receita, variada. Por isso, diz um amigo: devemos ver a receita com um olho e as despesas com os dois. Preparem-se para 2009", finalizou.

Comentário AgriPoint

A economia mundial passa por um período extremamente delicado, com problemas no sistema financeiro de todo o planeta e muitas incertezas sobre o futuro. Apesar da gravidade da crise e toda a sorte de dúvidas que ela despertou, como temores de recessão em diversos países do mundo, e também por não haver data certa para acabar, o agronegócio brasileiro deve ser menos afetado nos próximos anos do que a indústria automobilística, por exemplo.

A demanda por alimentos no mundo é grande, principalmente por parte dos países emergentes, que mesmo apresentando desaceleração no crescimento, devem continuar crescendo e comprando alimentos de outros países. Os possíveis problemas para o Brasil com a chegada da crise serão: falta de crédito, retração do consumo (principalmente de bens duráveis) e queda de preços devido a menor poder de compra de países exportadores de petróleo.



Alcides Amaral é jornalista formado pela Cásper Líbero, com curso intensivo de administração de empresas pela FGV, São Paulo. Possui larga experiência na área de administração de instituição financeira internacional, tendo participado de diversos conselhos de empresas industriais, de serviços e financeiras. Foi eleito líder empresarial do Mercosul em 2002 pela Gazeta Mercantil Latino-americana e um dos cinco líderes empresariais do setor financeiro do país em 1999.

Representou o Citibank S/A no comitê de renegociação da dívida externa brasileira em NY de 1991 a 1994. Tornou-se o primeiro jornalista do país a assumir a presidência de um Banco internacional no Brasil, o Citibank, de 1998 a 2001. É autor do livro "Os limões da minha limonada", de 2001.



Julio Frare e André Camargo, Equipe AgriPoint.

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Comentários

Fernando Affonso Ferreira

Itabuna - Bahia - Produção de leite
postado em 04/11/2008

É, quem nunca produziu nada alem de ficar especulando, levou o mundo para essa crise. Agora voltou a hora de produzirmos com preços baixos para resolver o problema causado por irresponsaveis.
Como a crise está fora do MEU controle, tenho que continuar trabalhando, produzindo, mesmo que os entendidos digam que não irei vender o que produzir.
Leite é alimento e todos temos que comer.

Evándro d. Sàmtos

Guarulhos - São Paulo - Frigoríficos
postado em 04/11/2008

Trocando em miúdos, a crise vai bater com força em todos os países.

Esta sem dúvidas é uma analise mais realista do que a dos nossos governantes.

Cabe-nos então avaliar esta conjuntura com a visão voltada ao nosso setor (carne bovina):

1) Diminuição considerável das exportações:

Sim, porque a economia domestica é implacável, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.

Países que têm sua população desacostumada a fazer economia, terão este quesito revisto.

A Rússia em especial, maior comprador individual das nossas carnes, demonstra uma grande fragilidade neste momento, até porque o principal produto que dá peso ao PIB daquele país é o petróleo, e este não deverá agregar valores parecidos com os que antecederam a crise tão cedo.

O mesmo podemos esperar, talvez, em intensidade menor dos paises do Oriente.

O Japão, que não compra nossa carne bovina, mas compra frangos, também deverá diminuir suas importações porque é um país exportador de tecnologia, tendo como seu principal cliente o USA.

Nos paises emergentes também o consumo tende a cair, hora por causa dos preços das carnes bovinas, proibitivas ao poder aquisitivo da população, hora pela economia que dona de casa implementará com certeza em seus lares e pela turbulência e medo da crise e da falta de emprego.

2) O encolhimento do nosso setor em se tratando de exportações:

Levará com certeza ao encolhimento dos números de planta ativas no país também, até porque os exportadores deverão atuar fortemente no mercado interno, sendo aqueles que estiverem mais frágeis do ponto de vista financeiro, deverão desaparecer.
Empresários do ramo que só estão acostumados o mercado interno, precisarão rever suas maneiras de ver e entender o mercado, sob pena de não agüentar a concorrência.

3) Os frigoríficos que têm parceiros externos e dependem deles, ou aqueles que fizeram compras antes da crise e se encontram debilitados financeiramente, estes também terão que agir muito rápido para não desaparecerem, um dos caminhos é certamente a fusão, porém esta terá que ser muito bem pensada, e muito bem escolhida, com quem?!
De certo não da para fazer uma fusão tipo Margen e Quatro Marcos, óleo e água não se misturam.

4) As vendas ocorrerão pelo menos no primeiro semestre no mercado interno, podendo se estender pelo restante do ano.

5) Inexoravelmente os valores das @s diminuirão. "O boi que falta hoje será o excedente de amanhã".
Também o pecuarista deverá preferir o preço menor, ao melhor preço agregado e maior risco.

6) Empresas de distribuição e charqueadas em sua maioria deverão desaparecer, os frigoríficos irão buscar estes nichos para eles próprios.

7) Os frigoríficos cada vez mais buscarão as vendas de maior liquidez, assim como também os frigoríficos partirão fortemente em busca de produtos acabados e semi acabados que possam agregar valor a sua matéria prima,a carne.

Também os movimentos dos frigoríficos em busca de diversificação, buscando oferecer aos seus clientes outras proteínas continuaram.

8) As contratações também mudarão, mais do que nunca os frigoríficos precisarão de mão obra especializada, nas indústrias eles já têm, agora precisarão em seus comercias também, critério que há bastante tempo foi abandonado, mais do que nunca esta medida se torna imprescindível.

Marcos Francisco Simões de Almeida

Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Produção de gado de corte
postado em 09/11/2008

Amigos, parece não haver dúvidas de que o momento é de ajustes em todos os mercados no mundo inteiro.

Agora, não esqueçamos que o mundo está globalizado e, numa situação de crise, àqueles países que têm menores custos de produção deverão ser menos penalizados, podendo inclusive tirar proveito da crise (ex. se fortalecendo no mercado da carne). Em situação oposta, os países que subsidiam seus produtores ficarão mais expostos. Para estes a situação é bem pior.

Enfim, seja pela opinião dos filósofos, seja pela teoria dos ciclos econômicos, devemos ficar atentos para tirar proveito dessa crise. Acredito que reunimos condições competitivas favoráveis para o produto carne bovina e isto será bom no médio e no longo prazo.

Outro aspecto: o ciclo de produção da carne é algo em torno de 24 meses, até lá teremos o quadro já definido.

Conclusão: meu sentimento não é de otimismo, mas também não é de pessimismo. Estou apreensivo e acompanhado tudo: mercado interno, volume e valor exportado, cotação do dólar (este sim não deverá cair, pois o governo já chegou a conclusão da bobagem que fez deixá-lo chegar abaixo dos R$1,90), relação de troca, produtos substitutos, etc.

Abraços

Sidney Affonso

Metepec - Mexico - México - Consultoria/extensão rural
postado em 24/11/2008

Caro Alcides,

Como sempre sua analise é coherente e abrangente.

Um forte abraco

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