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Que tipo de cordeiro o Uruguai deveria produzir frente aos competidores?

postado em 11/10/2012

4 comentários
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*O artigo é do uruguaio Gianni Bianchi, integrante da Cátedra de Ovinos e Lãs da Estação Experimental "Dr. Mario A. Cassinoni" (Eemac) de Faculdade de Agronomia.

O Uruguai tem acesso a poucos mercados de carne ovina. Diferentemente da carne bovina, onde vendemos pouco a muitos, no ovino ocorre o oposto. O país é "Brasil dependente" no que se refere às vendas de carne ovina. Mais de 40% de nossas exportações têm esse destino.

Também temos uma cota com tarifa zero para a União Europeia (UE) de 5.800 toneladas que, salvo nos dois últimos anos, temos cumprido rigorosamente. Nas exportações de cortes sem osso congelados, "repartimos" os cortes do traseiro para cobrir a cota com a Europa, dado o maior valor pago pela carne. Enquanto o resto da carcaça: paleta, assado e french rack "curto" é destinado ao Brasil. Esse país apresenta um status sanitário inferior ao nosso e não temos acesso limitado à carne ovina com osso que é - diferentemente da bovina - de maior valor que a sem osso. O terceiro mercado em importância (mas longe dos outros que, juntos, representam mais de 70% do total exportado) é o Oriente Médio.

Esses mercados não somente definem em que momento vale mais o produto, mas também, o calibre (tamanho) dos cortes. Isso é muito importante e é o que explica porque os frigoríficos uruguaios pagam mais por carcaças mais pesadas, mas até 22 quilos de carne; valor a partir do qual começa a castigar o preço.

Certamente, outros países exportadores de carne ovina, basicamente Nova Zelândia e Austrália, que controlam 90% do mercado mundial de carne ovina, também têm sua produção subordinada às exigências dos mercados internacionais, mas, diferentemente do Uruguai, têm acesso a mercados de maior poder aquisitivo e/ou muito mais cotas livres de tarifas.

Ponto GR

Os resultados obtidos na EEMAC no que se refere à relação entre medidas de gordura de cobertura (ponto GR) e de peso da carcaça mostram que os cordeiros mais pesados alcançam (como é lógico) maiores valores de gordura de cobertura e, em consequência, teriam (se isso for pago, como na Oceania) mais possibilidades de ser classificados em uma categoria com descontos no preço.

Nos cordeiros da raça Corriedale, o ponto GR aumenta 1,07 (US$ milhões) por quilo de carne; enquanto que o mesmo quilo de aumento em média dos cordeiros cruzados se faz em 0,92 (US$ milhões). Esses resultados sugerem que a superioridade dos cordeiros cruzados, em termos de menor teor de gordura, manifesta-se e/ou aumenta ao maior peso de carcaça. Porém, mais importante é que, existem raças que permitem chegar a pesos de carcaça muito altos, sem que isso venha acompanhado de um excesso de gordura. Enquanto que em outras, não é nada conveniente alcançar esses pesos, já que não somente serão menos eficientes (conforme cada quilo de peso vivo extra custará mais deposição de gordura), mas também, em um eventual mercado que pague incentivos pela carne magra.

Os dados

Os nossos dados mostram que o mesmo aumento na quantidade de carne determina que se a carcaça é de um cordeiro filho de ovelhas Corriedale e de pais Ile de France, engorda a metade do que se o cordeiro for filho de ovelhas Corriedale, mas de pais Hampshire Down ou Southdown.

Em termos gerais, podemos afirmar, com razoável precisão, que em média (porque podem e de fato existem diferenças entre carneiros dentro de uma raça), os cordeiros filhos de carneiros das raças Poll Dorset, Suffolk e Milchschaf (apesar de que essa é uma raça leiteira e muito útil para a geração de mães F1) produzem uma carcaça pesada e magra, enquanto que os filhos de carneiros Hampshire ou Southdown produzem uma carcaça que engorda ou alcança a terminação a um peso muito menor e se adapta melhor ao tipo de cordeiro que o Uruguai produz. As raças Ile de France e Texel produzem uma carcaça que admite um alcance de peso bastante amplo e sempre com uma boa terminação.

Não é casualidade que quase 70% dos cordeiros que a Austrália vende sejam produto de cruzamentos e que a raça paterna dominante seja a Poll Dorset ou Suffolk. Tampouco é estranho que a estrutura racial na Nova Zelândia tenha uma alta proporção de Romney Marsh ou raças aparentadas com essa em seu rebanho. Em ambos os casos, respondem ao tipo de carcaça (e obviamente calibre de cortes) que demandam quem principalmente compra a carne: Estados Unidos e Europa, respectivamente.

Não compete

Apesar de o Uruguai ter um mercado atual claramente delimitado aos 18 quilos de carcaça, não produz seus cordeiros utilizando as raças que melhor se adaptariam a esse produto. E mais, praticamente seus cordeiros são produto de um sistema laneiro dominante e, como tal, apresenta uma produção de safra muito heterogênea que não compete internacionalmente com o cordeiro da Oceania.

Isso não é nós que dizemos. A própria indústria diz que não se faz o suficiente para modificar tal situação. Basta ver que o quilo de cordeiro supera o preço do quilo de borrego em cifras mais declaradas que reais.

Vale dizer que há outro elemento que nos diferencia significantemente do que ocorre na Oceania: uma indústria frigorifica que dá sinais claros com relação a que tipo de mercadoria requerem os mercados. Basta analisar os sistemas de tipificação de um ou outro país e os sistemas de comercialização que algumas plantas já estão instrumentando na Nova Zelândia, onde não somente se liquidam os rebanhos por peso e ponto GR, mas sim, que tenham começado a operar - mediante raios x - prêmios pela quantidade de carne em diferentes regiões da carcaça.

Planos

No ano de 1986, foi lançada a operação cordeiro pesado no Uruguai e, pouco tempo depois, foi colocado em prática o "Lamb Plan" na Austrália para raças de carne. Os aumentos registrados no peso médio da carcaça dos ovinos locais não são (como na Oceania) consequência da implementação de um programa de melhoramento genético dirigido a aumentar a quantidade de carne no gancho ou das melhorias no nível nutritivo reservado à ovelha, mas sim, que respondem ao lógico aumento, passando da produção de um cordeiro leve para um cordeiro pesado.

Para os mercados que atualmente abastecemos, todavia, temos uma margem importante de melhora, somente alcançável com genética apropriada (raças e dentro de raças melhoramento genético sério) e boa alimentação. Nenhuma coisa fizemos. Produzimos principalmente um cordeiro que está um ano (ou mais) dentro do campo, para poder retirar dele um velo. Certamente, a falta de sinais da indústria conspira para mudar drasticamente a forma de produzir, mas também há elementos ao alcance do produtor que não são levados em conta e que serão motivos de outra nota.

A ovelha tem demonstrado que é em superfícies pequenas onde melhor compete com outras alternativas. De fato, não é casual que quase todos os exemplos de sistemas exitosos, premiados por serem eficientes, são, quase sem exceção, estabelecimentos pequenos. Porém, nos estabelecimentos grandes (onde estão a maioria das ovelhas) tampouco somos partidários de um ciclo completo ineficiente, mas sim, acreditamos que muitos produtores poderiam se especializar em cria, melhorar seus indicadores reprodutivos que são - em média - muito ruins, manejando um pacote tecnológico que está provado que dá muito bons resultados no país.

Devemos nos desprender dos cordeiros para que outros produtores que têm alimentos e "sabem" fazer isso, pois estão familiarizados com toda a logística implicada na engorda eficiente (alambrado elétrico, pastoreio restrito, grão, etc.), encarreguem-se de terminar esse animal. Hoje, "a cadeia que não é cadeia", falha em dois pontos: a cria e a indústria.

Para onde vamos?

Há outra diferença importante entre os países da Oceania e o Uruguai. Enquanto na terra dos cangurus existem programas que coordenam tudo o que se refere à geração, difusão e adoção de conhecimentos vinculados à ovelha, com protagonismo da academia, no Uruguai em geral e em ovinos em particular, a academia não participa, é excluída. Paralelamente, gera-se um plano denominado "Plano Estratégico Nacional do Setor Ovino". Seus objetivos para 2015 são:

1) sacrificar anualmente 1,5 milhão de cordeiros;
2) produzir 48.000 toneladas de lã suja anualmente;
3) diminuir as lãs com micragem> 28 micras para 40% do total.

Hoje, não chegamos a 800 mil cordeiros (quase metade que o "previsto"), produzimos 32 mil toneladas de lã (66% do "previsto") e a categoria de > 28 micras praticamente não se moveu.

Parafraseando o cantor e compositor de Tucuarembó, Numa Moraes, em "Y por Cantar voy Cantando": "Não faz falta fogo grande quando não há o que churrasquear".

A matéria foi publicada no jornal uruguaio Sembrando Futuro e traduzida pela Equipe FarmPoint.

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Comentários

Laion Antunes Stella

Pejuçara - Rio Grande do Sul - Pesquisa/ensino
postado em 11/10/2012

Sou mestrando em zootecnia pela UFRGS, e realizei meu experimento no Secretariado Uruguayo de la Lana.
Temos muito que aprender com os programas uruguaios.
Ótimo artigo!
abraço,
Laion

José Aguerre

ooooooooo - São Paulo - Consultoria/extensão rural
postado em 15/10/2012

Es importante aclarar que dos de las tres principales instituciones dedicadas a la Investigación participan en este Plan (INIA y SUL). La Facultad de Agronomía también  fue invitada. Sería interesante saber cuál fue el motivo, según Bianchi, para no participar, si fue una exclusión o una autoexclusión.
El día que las señales del mercado (eficiencia económica) coincidan con la eficiencia económica, seguramente se lleven a cabo muchas de las cosas que ambiciona el autor del artículo; mientras seguirá siendo sólo un sueño, adaptable a situaciones intensivas de alta dotación ovina por hectárea.
Cuando entienda esto y trate de entender a los productores, no se sentirá tan frustrado y se dará cuenta que la obligación de un técnico es presentar el menú, el comensal elige qué plato va a consumir.

Victor Hugo Cunha

Lavras do Sul - Rio Grande do Sul - Ovinos/Caprinos
postado em 16/10/2012

Neste artigo , se mostrou o quanto nós produtores Brasileiros temos a desenvolver a produção de ovinos de corte no que diz respeito a produção de carne e também de lã de qualidade .

Sérgio Souza Fernandes

Pedras Altas - Rio Grande do Sul - Produção de ovinos de corte
postado em 17/03/2013

Estivemos no SUL e ficamos impressionados com o conhecimento científico de seus técnicos. Todavia entendemos que o país "ermano"  deveria alimentar melhor seus rebanhos, especialmente a época de parição e assim os cordeiros marchariam, ainda no que hoje entende-se como entre safra, direto da desmama aos frigoríficos. No Uruguay atrasa-se a época de parição para resolver o problema fome.

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