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WikiLeaks aponta preocupação dos EUA com o MST

postado em 21/12/2010

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De acordo com documentos enviados a jornais brasileiros pelo WikiLeaks, diplomatas americanos que assistiram ao declínio sofrido pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) nos últimos anos recomendaram ao governo dos Estados Unidos que continuasse acompanhando as suas ações com atenção.

"Embora a base social do MST tenha encolhido, não desapareceu, e a crise econômica global pode dar gás à causa", escreveu em 2009 o cônsul dos EUA em São Paulo, Thomas White, em telegrama para Washington.

Os telegramas fornecidos pelo WikiLeaks mostram que os diplomatas se empenharam para entender as razões que levaram o MST a perder força política, consultando especialistas acadêmicos, funcionários do governo e aliados do movimento.

A conclusão dos diplomatas foi que o crescimento da economia, o agronegócio e os programas sociais do governo fizeram minguar o apelo do MST onde ele costumava recrutar militantes, revelam os despachos. Mesmo assim, os diplomatas disseram a superiores que era cedo para deixar de prestar atenção no movimento. "A organização está respondendo aos desafios radicalizando suas ações, distanciando-se do presidente e ampliando sua mensagem", anotou White num informe.

A embaixada entrou em contato com o ombundsman da Fundação Instituto de Terras de São Paulo (ITESP), Carlos Alberto Feliciano. Ele teria dito que o MST vinha tendo dificuldades de recrutar novos membros por causa do crescimento econômico e do sucesso do programa Bolsa Família.

"A economia em crescimento combinada com as políticas destinadas a melhorar as condições de vida da camada mais pobre parecem fornecer pelo menos a alguns militantes uma alternativa, e pode estar forçando os líderes do MST a repensar suas táticas", descreveu o cônsul Thomas White, em um dos despachos. "Muitos beneficiados pelo Bolsa Família estão relutantes em se juntar ao MST por medo de perder seus benefícios. É difícil para eles seguir as condições do programa - manter os filhos na escola e garantir que sejam vacinados segundo o cronograma - enquanto vivem em um acampamento".

Em outro telegrama, o consulado de Recife também ouviu fontes da igreja católica sobre o MST, em especial o padre Hermínio Canova, que reforçou que o Bolsa Família teria enfraquecido o movimento, que agora era forçado a "se reinventar".

A embaixada também procurou o professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, da USP, que descreveu uma "falta de vontade política" do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Para o professor, o agronegócio e as grandes propriedades "oferecem um modelo econômico melhor para o desenvolvimento rural".

Oliveira explicou que o lento processo de desapropriação tem enfraquecido o movimento. Se não há terras para distribuir, "muitas pessoas simplesmente desistem e voltam para as cidades". Por isso, segundo o documento, o MST tem feito ações rápidas destinadas a chamar a atenção da imprensa - e cita como exemplo os protestos conta a companhia de mineração Vale do Rio Doce.

"As ações contra a Vale, além de gerar publicidade, também são destinadas a satisfazer o nicho eleitoral do MST. Os líderes sem-terra acusam a empresa de explorar os trabalhadores e degradar o meio ambiente, e muitos integrantes da esquerda querem que a privatização seja revertida", diz ele no despacho vazado.

O cônsul de São Paulo descreve o confronto ocorrido no terreno da fabricante de transgênicos Syngenta, em 2007, que levou ao assassinato do líder Valmir Oliveira, conhecido como Keno. Os sem-terra protestavam contra testes de alimentos transgênicos que estariam sendo feitos próximos a uma reserva. "O fato de que os transgênicos continuam sendo um tema controverso nas mentes dos brasileiros também oferece uma oportunidade de propaganda vitoriosa para o MST ao atacar os produtores", escreveu o diplomata.

Segundo o texto, o consulado também procurou um pesquisador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos em Reforma Agrária da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), em Presidente Prudente (SP), Clifford Welch. Ele teria afirmado ao consulado que "o MST segue uma metodologia pré-planejada nas ocupações de terra que inclui contatos com o Incra para ajudar a selecionar alvos". De acordo com Welch, depois de negociar a posse da terra e distríbuí-la aos assentados, seria a hora de lucrar.

"Em uma prática cínica e irônica, os membros do MST algumas vezes terminam alugando para o agronegócio a mesma terra que eles conseguiram", descreve o despacho. Welch também teria afirmado que o MST tem informantes dentro do Incra, órgão do governo federal responsável por coordenar a reforma agrária. "Welch disse ao representante econômico da embaixada que o Incra não publica as informações que detêm e a única maneira de o MST ter acesso seria através de informantes dentro do órgão".

Em outubro de 2005, a representação norte-americana, que já acompanhava o MST, engajou-se ainda mais em investigar o movimento, depois da ocupação de um terreno de propriedade do gupo norte-americano Farm Management Company, baseado em Salt Lake City.

Na época, cerca de 300 sem-terra ocuparam a fazenda em Minas Gerais para exigir a aceleração da reforma agrária. O adido da embaixada para agricultura foi enviado ao local. Procurou o gerente da fazenda, Macedo Genevil, que relatou como a polícia estava agindo para proteger a propriedade. "De acordo com Genevil, policiais militares confinaram o MST à sede da fazenda, e o equipamento agrícola não foi danificado", escreveu a Washington o então embaixador, John Danilovich.

O gerente disse também que o governo mineiro tinha concordado em mandar policiais para a desocupação e estava apenas esperando a ordem de reintegração de posse. Eles ficariam na fazenda até a conclusão da negociação entre o juiz e o MST. Mas, segundo Genevil, o juiz que queria negociar com o MST havia sido substituído por outro juiz "novo e mais razoável". "Genevil pareceu muito contente com essa decisão e acreditava que a ordem de reintegração seria expedida durante a semana de 10 de outubro".

Danilovich descreveu ainda que a fazenda AgroReservas costuma ser usada como ponto de visitação pelo Serviço Agrícola no Exterior do governo norte-americano, levando visitantes da Associação Nacional de Fazendeiros e do Departamento de Fazendas dos EUA para mostrar a escala das operações no Brasil. "Essa invasão marca a primeira vez que o MST ocupou uma fazenda norte-americana, e, apesar de causar preocupação, não acreditamos que a invasão tenha sido motivada pela ligação da fazenda com os EUA", escreveu.

O cônsul conclui o despacho pedindo aos EUA para permanecerem em alerta com o MST.

As informações são da Folha de S. Paulo e do portal Opera Mundi, resumidas e adaptadas pela Equipe AgriPoint.

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