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Agricultura "fashion" (I)

Por Carlos Arthur Ortenblad
postado em 08/05/2007

11 comentários
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Desculpe-me, dileto leitor, pelo anglicismo da palavra fashion. Este é um hábito que procuro evitar, mas que por vezes não consigo, já que o inglês é a "língua franca" dos nossos dias.

Preocupações com agricultura e comida "éticas", principalmente nos países ricos do Hemisfério Norte, têm levado a algumas práticas, que, embora bem intencionadas, nem sempre dão o resultado esperado. Ao contrário, por vezes apresentam resultados opostos aos desejados. Essas "práticas fashion" são:

Agricultura Orgânica, que traduziria uma forte preocupação com o Meio Ambiente.
Buy Local ("Compre no local", onde é produzido), que seria a atitude típica das pessoas que não gostam de empresas transnacionais, menos ainda da globalização, e também são ligadas a temas ambientais.
Fair Trade (que passou a ser grafado como Fairtrade, e poderia ser traduzido como "troca justa" ou "comércio justo"), que pretende ajudar agricultores pobres, de países pobres - através de subsídios oferecidos pelos próprios consumidores.

Hoje vou falar sobre Agricultura Orgânica. Naturalmente, meus poucos (mas fiéis) leitores sabem que não sou, e nem pretendo ser, técnico neste assunto. Aliás, em nenhum outro, exceto talvez em economia e geopolítica. Minha qualificação, portanto, resume-se à de uma pessoa que tem curiosidade intelectual, e que (ainda) não perdeu a capacidade de raciocinar por conta própria.

Em uma palestra na New York University, que li há meses atrás, a professora e nutricionista Marion Nestle [1] afirmou: "Quando você consome alimentos orgânicos (produzidos organicamente), você está votando para que a Terra seja menos agredida por pesticidas, para que se preserve solos mais ricos, e mananciais de água mais puros". Será?

Como já estou afastado há quase dois anos dessa atividade, consultei antigas e confiáveis fontes para saber se houve alguma revolução de produtividade em Agricultura Orgânica, e eu é que estaria defasado. Que pena. Não, não houve nada nesta dimensão. Mas, por outro lado, e isso é uma boa notícia, sou informado que os "agrotóxicos" mais modernos são cada vez menos agressivos ao meio ambiente.

Bem, mas afinal, o que é "Agricultura Orgânica"?

Há diversas definições, que creio poderem ser resumidas, de forma simples, em: reduzir drasticamente o uso de fertilizantes e defensivos sintéticos, banir organismos geneticamente modificados (OGM), e alterar práticas culturais. Métodos "orgânicos" utilizam esterco, adotam tratos culturais que "mexeriam" menos com o solo (mas nem sempre), e promovem constante rotação de culturas. Isso é considerado como sendo mais saudável para o meio ambiente, e também para os consumidores. Será?

Um fato irretorquível é que qualquer agricultura é ruim para o meio ambiente. Isso é inerente à própria atividade. Não é possível fazer omelete sem quebrar os ovos. O que se pode (e deve) fazer é minorar este efeito negativo. Desde que agricultura, como atividade regular, teve seu início há mais de 10.000 anos, a derrubada de florestas aconteceu no mundo todo, e em escala maciça. Mas também, desde que a "Revolução Verde" da década de 60, precursora da agricultura de precisão foi implantada, com uso mais racional do solo, e utilização de fertilizantes e defensivos agrícolas mais eficientes, a produção de alimentos no mundo triplicou, com pequeno acréscimo de área plantada.

O cientista Norman Borlaug, laureado com o prêmio Nobel, exatamente por suas atividades pioneiras no desenvolvimento da "Revolução Verde", considera como "ridícula" a noção de que agricultura orgânica é melhor para o meio ambiente, e mais saudável para os consumidores. De fato, não há qualquer estudo sério que comprove que produtos orgânicos são melhores para a saúde, do que os oriundos da agricultura tradicional, se bem conduzida.

Também não há evidência que Agricultura Orgânica seja mais eficiente quanto ao uso de energia. Ao contrário. Estudo da Universidade de Edinburgh afirma o inverso, que o uso de energia por tonelada de produto é maior na agricultura orgânica que na tradicional, por causa de sua menor produtividade, e a necessidade de constantes arações ou gradeações para controle de pragas. Além do mais, apenas 20% da energia gasta na "cadeia alimentar" é despendida no campo.

É irônica essa possível necessidade de se "mexer" mais com o solo para controle de pragas na agricultura orgânica. Pois o único ponto de concordância entre as duas linhas de pensamento, é o de que "plantio direto", normalmente associado à agricultura orgânica, é realmente uma atividade "benigna" em relação ao meio ambiente.

Há outras aparentes inconsistências no rígido conceito geral de agricultura orgânica, um negócio de US$ 30 bilhões/ano em nível mundial, além do sistema de controle de pragas. Uma delas é a "permissão" de se usar cobre - um metal pesado - como fungicida "orgânico", com a alegação de que é um insumo "tradicional".

Como a agricultura orgânica, principalmente em larga escala, é muito menos eficiente que a moderna agricultura, o que aconteceria se a agricultura orgânica substituísse, como em um passe de mágica, a agricultura que praticamos hoje? Teríamos que optar entre:
• Derrubar mais florestas tropicais, e aumentar a área plantada, o que decididamente não seria bom para o meio ambiente.
• Diminuir compulsoriamente a população mundial, para adequá-la a uma menor produção de alimentos, o que talvez não fosse agradável para a humanidade. Eu, pelo menos, não tenho a menor intenção de entrar em jejum permanente, nem de abandonar este planeta antes da hora. E você?

O conceito de "comida ética" é admirável, e não deve ser motivo de chacota, mesmo quando deságua em conceitos extravagantes. Afinal, nada há de errado em tentativas para proteger o meio ambiente, estimular desenvolvimento sustentável, e procurar formas de comércio mundial mais justas.

Mas, por mais valentes que sejam esses modernos Dom Quixotes, a solução para estes problemas está na esfera dos governos. Enquanto não houver diminuição das colossais proteções que os países desenvolvidos - na Europa principalmente - dão a seus ricos, e nem sempre eficientes agricultores; enquanto não houver cobrança de taxa mundial punitiva para emissão de gases que causam efeito estufa; e enquanto não houver reforma séria no sistema de comércio internacional, os conceitos de "agricultura fashion" permanecerão sendo apenas isso: galantes iniciativas individuais, que podem aplacar consciências pessoais, mas não fazer o mundo melhor.

Por falar em comida, na firme intenção de perder alguns quilos acumulados durante as férias, quilos estes acrescentados durante a sempre frenética faina da declaração anual de Imposto de Renda, estou indo para um spa. Assim, caro leitor, você estará livre de mim durante algum tempo, enquanto luto contra os lipídeos, tri glicerídeos, e "gostosídeos" em geral. Mas tentarei concluir o segundo artigo sobre esse tema (que será Buy Local), antes do final do mês.

[1] Autora de "Food Politics" (2002) e "What to Eat" (2006).

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Carlos Arthur Ortenblad    Rio de Janeiro - Rio de Janeiro

Consultoria/extensão rural

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Comentários

José Eduardo Do Val

Ribeirão Preto - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 08/05/2007

Artigo muito bom concordo plenamente com quase tudo exceto com o décimo primeiro parágrafo, onde se comenta que o plantio direto está associado a agricultura orgânica. Isso não é verdade pois no plantio direto ocorre uso maciço de agrotóxicos e isso é muito conhecido e divulgado no meio técnico.

O que não desmerece o conteúdo do artigo, que salvo essa falha, foi muito bem desenvolvido. Precisamos argumentar e esclarecer pessoas que dizem o que querem sem nenhuma responsabilidade, conhecimento e experiência de como se pratica agricultura que alimenta o povo.

Parabéns

Resposta do autor:

Prezado Dr. José Eduardo,

Realmente é estranho o conceito com o qual o senhor discorda (i.e. plantio direto ser "ligado" a agricultura orgânica), tanto que fiz uma espécie de ressalva quanto a isso em meu artigo. Ressalva esta, possivelmente pouco clara ou pouco contundente.

Contudo, os textos que li - de diversos autores - induziam a isso, de forma que reproduzi o conceito, o qual o senhor vem a esclarecer como inverídico.

Obrigado por haver enriquecido o meu texto.

Atenciosamente,

Carlos Arthur Ortenblad

Sebastião Feitosa Lima

Goiânia - Goiás - Consultoria/extensão rural
postado em 09/05/2007

A realidade é a tônica, e o paradoxo agricultura comercial x agricultura orgânica é meramente sofismo, não se produz em escala utilizando métodos pré-históricos.

Resposta do autor:

Prezado Dr. Sebastião,
Concordo. O mal não é a agricultura orgânica em si. E sim tentar transformar exceção em regra, e não ver que se trata apenas um nicho de mercado.

Atenciosamente,

Carlos Arthur Ortenblad

Octávio Rossi de Morais

Sobral - Ceará - Pesquisa/ensino
postado em 09/05/2007

Se os fiéis leitores "são poucos" eu não sei, mas que os que lêem seus artigos se deliciam com eles, disso não há dúvida: muita seriedade, consciência e consistência, com ótimo humor.
Bom spa!

Resposta do autor:
Prezado Dr. Otávio,
Uau !!! Muito obrigado. Nada como começar o dia com um elogio destes.
Abraço,
Carlos Arthur

Tenax Pre Moldados

Mineiros - Goiás - Revenda de produtos agropecuários
postado em 09/05/2007

Já que é difícil diminuir a população mundial poderia trocar o uso de grãos na alimentação e todo mundo passar a comer batata.

Resposta do autor:

Prezado sr. Marchió,

Eu pessoalmente adoro. Mas engorda muito.

Abraço,

Carlos Arthur

Edson Felix Costa

Altinho - Pernambuco - Produção de leite
postado em 09/05/2007

Há muito tempo não lia algo tão convincente nessa eterna briga entre o orgânico e o convencional.
Eu até que era dado a frequentar umas feirinhas de produtos "fashion" que ocorrem na minha cidade e acabava comendo umas folhas de alface furadas, umas cenourinhas pequenas e fibrosas e uns tomatinhos que não despertavam a atenção na mesa, para desespero da minha mulher e horror das minhas filhas, que só querem uma desculpa para não comerem saladas.

Os meus argumentos de que estaríamos contribuindo para uma maior permanência da raça humana na terra nunca foram suficientes para convencer por inteiro a minha mulher de que a feiura da salada nossa de cada dia era por uma boa causa.

Agora estou num dilema, mostro o artigo para minha mulher e aturo a gozação ou simplesmente deixo de ir à tal feirinha fashion, dando uma de desentendido?
Eu bem que desconfiava que essa história de orgânicos estava mais para moda de "intelectuais" do que para fundamentação científica.

Somente agora com o artigo acima encontro um ponto de apoio para questionar essa onda de agricultura fashion.

Parabés ao Carlos.

Resposta do autor:

Prezado sr. Edson,

Inicialmente, rolei de rir com seu dilema. Desculpe-me, mas sua carta é muito engraçada. Se o senhor me permite meter o bedelho em assuntos familiares, eu se fosse o senhor, não mostraria o artigo à sua esposa. Simplesmente iria "esquecendo" de comparecer à tal feirinha. A memória feminina é longa, e a vingança também.

Forte abraço,
Carlos Arthur Ortenblad

Nei Antonio Kukla

União da Vitória - Paraná - Consultoria/extensão rural
postado em 10/05/2007

Pois é, Agricultura Orgânica, Alimentos livres de OGM´s, Alimentos Ecológicos e muitos outros alimentos "verdes" viraram discursos de políticos, inclusive, bandeiras de partidos. Você vai à feira comprar estes alimentos, paga mais caro por eles e, tenha certeza, muitas vezes de orgânicos não tâm nada. Falo porque sei, sou da área e já vi casos "in loco".

É preciso mais seriedade para quem está propondo trabalhar nesta área, agricultores e técnicos, e estes últimos que deixem seu lado partidário de lado e atuem com profissionalismo, como juraram ao se formar e conduzam seus trabalhos longe dos palpiteiros...

Há espaços para todos, mas com compromisso com o que se faz!

Nei Antonio Kukla
Técnico em Agropecuária
Administrador / Espec. Agronegócios

Resposta do autor:

Prezado Sr. Nei A. Kukla,

É uma pena, mas é isso mesmo. Certamente existem produtores sérios, que realizam à risca aquilo com que se comprometeram.

Mas existem também os "picaretas". Esta falta de seriedade e de profissionalismo acaba levando o Brasil para o buraco.

Lembra-me, como analogia, a certificação de rastreamento do Sisbov. São tantas as confusões, tamanho o descaso (geral), que ainda vamos acabar perdendo nosso maior, melhor,e mais rentável mercado, que é a Comunidade Econômica Européia. Aí vamos fazer o que: vender dianteiro a preço vil para o Egito?

Perfeita sua frase: Há espaços para todos, mas com compromisso com o que se faz!

Abraço,
Carlos Arthur Ortenblad

Guilherme Augusto Vieira

Salvador - Bahia - Pesquisa/ensino
postado em 12/05/2007

Sr.Ortenblad, parabéns pelo artigo. Tenho utilizado seus artigos em minhas aulas no curso de agronegócios, destacando aquele que o Sr. escreveu sobre preconceitos contra a agropecuária.

Quanto a este artigo, concordo com o Sr. em todos os aspectos. Veja o Sr. que há 2 anos fui participar como Palestrante de um evento que haveria um ´confronto´ entre a agricultura orgânica e a agricultura tradicional, sendo que fui defender a agricultura tradicional e industrial. Nunca fui tão fuzilado em minha vida e notei o quanto as pessoas são ignorantes (no sentido literal e cognitivo) em relação aos aspectos que o sr. abordou.

Fantástico, utilizarei seu artigo nas minhas próximas aulas e o enviarei para alguns ´eco-xatos´ (com X mesmo).

Mais uma vez parabéns.

Guilherme Vieira , Médico Veterinário,M.Sc.

Resposta do autor:

Prezado Dr. Vieira,

Agradeço suas palavras gentis. Desculpe-me, pois me diverti muito com seu infortúnio. Mas não sem razão. Há alguns anos atrás, fui convidado por uma
universidade para participar de um "painel" sobre Reforma Agrária. Burro que sou, aceitei. Quando me sentei" à mesa, vi que a plaquinha com meu nome
apresentava, como minha profissão: "LATIFUNDIÁRIO".

Pode-se imaginar a vaia que levei da isenta platéia quando abri a boca pela primeira vez.

Abraço,
Carlos Arthur

Wilson Mota da Silva

Curitiba - Paraná - Estudante
postado em 14/05/2007

Este artigo fortalece a minha posição, de que variáveis produtivas quando oferecem uma renda adicional ao agricultor são válidas, como é o caso da agricultura orgânica. Todavia eu NÃO concordo com posturas radicais do tipo "a agricultura orgânica é a única opção ética na produção de alimentos".

Se ocorresse da forma suposta no artigo, uma substituição mágica e imediata da agricultura convencional pela orgânica, o preço dos alimentos, devido à menor produção por área, aumentaria, e também aumentaria o número de pessoas sem acesso aos alimentos.

Resposta do autor:

Meu prezado Wilson,

É exatamente isto. Questão de simples bom senso. Querer tornar exceção em regra é um disparate. Porém, ter agricultura orgânica como um nicho de mercado, e apenas isso, é perfeitamente razoável.

Abraço,
Carlos Arthur

José Jairo Borges

Nova Resende - Minas Gerais - Consultoria/extensão rural
postado em 15/05/2007

Agricultura orgânica é um negócio como qualquer outro. Tem que haver demanda. E esta há. Pertenço a uma cooperativa que produz café orgânico. Fornecemos para uma que consumo produtos orgânicos. Há um ditado que diz que "tatú cheira tatú", o que quer dizer que os semelhantes se agrupam.

Então aqueles que não que não vêem problema em consumir produtos com resíduos de agrotóxicos que os consmomem. Aqueles que preferem consumir produtos orgânicos que o façam procurando onde encontrá-los. É por isso que a vida é boa. Há a livre opção. Não se trata de se desfazer de uma ou de outra, chamando a agricultura orgância de pré-histórica! O ato sexual, por exemplo, é pré-histórico e nem por isso está em desuso! Quem gosta de aplicar veneno que vá fazê-lo, principalmente aqueles que provocam dor de cabeça! Os hospitais de câncer estão se multiplicando a cada dia. Qual o motivo da proliferação da doença? Fazer campanha para construção desses tipos de hospitais, acho muito válido e homano, como também acho válido e humano indagar das cuasas da doença. Tenho certeza que a agricultura não é a causa!

Orlando Monteiro de Carvalho Filho

Aracaju - Sergipe - Produção de leite (de vaca) Consultor SEAGRI SE
postado em 16/05/2007

Talvez sem o charme do anglicismo "fashion", em nosso vernáculo, o vocábulo moda expressa muito bem a conotação jocosamente emprestada, pelo hábil articulista, à agricultura orgânica. De fato, há que se reconhecer a qualidade e o ecletismo de seus escritos, porém, neste particular artigo, o conteúdo carece de fundamentação mais circunstanciada, para que seus fieis leitores possam melhor refletir sobre o tema.

Entre outros juízos de valor, a rotulagem de "Dons Quixotes modernos", para pessoas conscientes das externalidades negativas geradas pela revolução verde, resvala para uma simplificação exagerada e irônica. Como considerar o fato de instituições como a EMBRAPA, além de respeitáveis universidades brasileiras, para não falar das européias e americanas, já estarem pesquisando sobre o tema; e organismos internacionais como a FAO, OCDE, UNCTAD e outras que o tratam com seriedade? Estariam elas, tais quais exércitos de Brancaleone, custeadas com recursos públicos, em busca de causas perdidas ou de objetivos aventureiros?

Parece óbvio que a suspensão imediata do excessivo uso de insumos externos, (aos agroecossistemas e ao País) - cuja alta dependência imposta pela revolução verde, responde em grande medida pelo endividamento do elo mais débil do nosso assimétrico agronegócio - poderia trazer perdas de produtividade, mas, certamente, traria prejuízos maiores para quem se apropriou da maior fatia da renda por ele gerada, e que já devem estar começando a sentir calafrios com a perspectiva da entrada dos chineses, no atraente mercado brasileiro, com seus agrotóxicos baratos. Serão mais eficientes? Ou serão usados mais perdulariamente, porque mais baratos?

A alegada e hipotética crise de segurança alimentar gerada por uma eventual e súbita substituição de paradigmas de produção, não poderia ser atribuída à falta de, mas ao pouco acesso aos alimentos, além do exagerado uso de grãos para alimentação animal, sem contar com o sobre-consumo de "alguns humanos", em detrimento de outros menos aquinhoados.

Não devemos nos esquecer, de novo, de que pesquisas científicas, quatro décadas concentradas na revolução verde, apenas engatinham na produção orgânica, em nosso País. Portanto, é prematuro cobrar altos índices de produtividade dos sistemas orgânicos de produção, até porque há limites para o crescimento da produtividade que devem ser respeitados em prol da sustentabilidade dos agroecossistemas. O que parece ser verdade é a sua difícil operacionalização na grande escala, já que não se trata de simples substituição de insumos.

Para além do fato de que, assim como não são muitos os produtores que observam rigorosamente normas de aplicação e prazos de carência de pesticidas, herbicidas, antibióticos, etc., ou que simplesmente lêem bulas, é igualmente óbvio que muitos de nós - Homo destructus, subespécie corruptus, de larga ocorrência no território pátrio, com altíssima densidade no planalto central - somos pós-doutores em toda sorte de fraudes, oportunismos e picaretagens, e é justamente nessa nossa expertise, que reside a grande ameaça à conquista de mercados, não só para os orgânicos, como para produtos convencionais como a exemplo da carne para a Comunidade Econômica Européia, como citado no artigo.

Esta sim é que, ao lado de outros equívocos, como a apropriação político-idelógica do discurso agroecológico, por vezes em detrimento da eficiência e da sustentabilidade que devem caracterizar os sistemas orgânicos de produção, pode desacreditá-los junto a produtores e consumidores.

Mas, afinal de contas, para que tanta preocupação e argumentação, se o que se trata é de apenas mais um modismo, ou, na melhor das hipóteses, de um nicho de mercado? Por que tanto tempo desperdiçado, se o tema estará "démodé" daqui a algum tempo, não é mesmo?

Menos maniqueísmo e mais pragmatismo é de que precisamos e, conforme palavras de um de seus leitores "Há espaços para todos, mas com compromisso com o que se faz."

Resposta do autor:

Uma bela, elegante e fundamentada carta, esta sua. Concordamos em divergir, o que é ótimo, pois a troca de idéias enriquece o debate.

Eu só me ressinto da conotação negativa entendida à menção a D. Quixote, cujos objetivos, de resgatar a pura virgem, eram nobres e corajosas, embora
mal sucedidas. Como estou no Rio Grande do Sul, e por alguns dias sem acesso ao meu laptop, não poderei reproduzir exatamente meu texto, mas lembro-me de ter mencionado que galantes iniciativas não deveriam ser tratadas com chacotas.

Quanto aos aspectos mais técnicos de ´revolução verde´ vs. agricultura orgânica, continuo entendendo que aquela é apenas um nicho de produção/mercado, e não
pode, nem deve, ser generalizada.

Quanto a outros aspectos de sua carta, convergimos inteiramente. Durante anos, fui citricultor em SP. Ao comprar insumos muito caros, como acaricidas,
eu acessava o site do ´Florida Citrus Mutual´ (cooperativa americana de citricultores).

Os preços de produtos com o mesmo princípio ativo custavam muito mais barato em dólar lá, do que aqui. Por vezes, menos da metade.

Atenciosamente,
Carlos Arthur Ortenblad

Ricardo Tucunduva Nardon

Passos - Minas Gerais - Indústria de laticínios
postado em 09/07/2007

Texto realmente bem escrito e ponderado. Só sugiro um esclarecimento: quando cita o estudo Universidade de Edinburgh que diz que "o uso de energia por tonelada de produto é maior na agricultura orgânica que na tradicional, por causa de sua menor produtividade, e a necessidade de constantes arações ou gradeações para controle de pragas", verifique qual o tipo de energia utilizada em cada produção.

Com certeza a agricultura orgânica utiliza mais energia, mas a maior parte dela é renovável, o que não acontece com a tradicional.

Obrigado

Resposta do autor:

Prezado sr. Nardon,

Infelizmente, não. Ou, pelo menos, ainda não.

Eu também gostaria que fosse energia renovável, pois aí haveria um certo equilíbrio de trocas (detesto ter de usar anglicismo, mas o termo exato seria trade-off). Mas estamos falando de energia "convencional" (hidrocarbonetos, carvão, e energia atômica), até porque nos países onde o levantamento foi feito, a existência de energia renovável ainda é - na melhor das hipóteses - incipiente.

Mas certamente, com determinação, pode-se chegar ao que o senhor deseja. Países como Brasil, Argentina, Estados Unidos e Austrália (entre outros), têm condições de oferecer este tipo de compensação benéfica. No caso do Brasil, saímos na dianteira com o álcool e biodiesel, mas não devemos ficar "deitados em berço esplêndido", pois outros países estão investindo pesado em pesquisa.

Neste aspecto, preocupa-me muito a evasão de cérebros que está em pleno curso na Embrapa.

Atenciosamente,

Carlos Arthur Ortenblad

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