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Homo Vegetarianus

Por Fernando Sampaio
postado em 23/04/2010

14 comentários
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No início da semana, o programa Login da TV Cultura inseriu em sua programação um debate sobre vegetarianismo com a participação da nutricionista Licínia de Campos do SIC (Serviço de Informação da Carne) e George Guimarães, da Sociedade Vegana.

Descontando-se a inépcia dos mediadores que não conseguiram organizar um debate civilizado, e o péssimo hábito do Sr. Guimarães de não deixar outras pessoas falarem, foi possível pinçar alguns de seus argumentos que comprovariam a suposta superioridade de sua dieta.

Em primeiro lugar é preciso distinguir as várias nuances de vegetarianismo. Há os que comem peixe e frutos do mar, há os que comem ovos e leite, há os que não admitem o uso de nenhum tipo de alimento de origem animal e há ainda aqueles que só aceitam o que a natureza oferece de bom grado, não o que é tomado dela pelo homem. Lisa Simpson encontrou uma vez um ativista que dizia ser um Vegan Nível 5, que não comia nada que fizesse sombra (I don't eat anything that casts a shadow). Há aí também uma escalada ideológica implícita até para os próprios vegetarianos que vai dos menos aos mais perfeitos.

O primeiro argumento do vegetarianismo é que comer carne não é natural para o homem. Eu permito-me discordar. Durante o programa, notei que nas inúmeras ocasiões em que não conseguiu manter a boca fechada, mesmo George mostrou em sua arcada, dois pares de dentes conhecidos como caninos especialmente desenhados para estraçalhar carne. O fato de que nós como espécie, George inclusive, tenhamos saído de cima das árvores para evoluir, aumentar nosso cérebro e conquistar o mundo, deriva diretamente, como prova o antropólogo Richard Wrangham de Harvard, do consumo de carne e posteriormente do domínio do fogo e de técnicas de cozimento.

George também nos chama de carniceiros, comparando-nos a hienas e urubus, já que não comemos a carne quente logo depois do abate. Talvez George tenha experimentado carniça, e aí esteja a razão do seu trauma, mas eu sinceramente prefiro carne que tenha passado pelo abate, resfriamento e processamento em frigoríficos habilitados, já que é esta a garantia de que não haverá contaminação microbiológica na carne que estou comendo.

George também sugere que agora que já estamos evoluídos, não precisaríamos mais da carne, como se de repente pudesse surgir uma nova espécie, o homo vegetarianus. Acho que ele precisa de um pouco de perspectiva. Mais de 2 milhões de anos (comendo carne) se passaram para a espécie humana evoluir até aqui. Querer transformar nossa fisiologia no espaço de uma ou duas gerações me parece um pouco precipitado.

O outro grande argumento de George, e o mais apelativo, é o da crueldade. Comer carne é cruel. Meat is murder. O Homo vegetarianus tem essa pretensão de ser um indivíduo moralmente superior ao resto dos mortais. Eu gosto de assistir a National Geographic. Uma vez assisti uma caçada de leões. Um bando de leoas derrubou uma inocente zebra e enquanto uma segurava sua garganta as outras começaram a devorar suas tripas e membros enquanto a pobre zebra ainda berrava. Isso foi cruel. Acho engraçado esse pensamento de que animais na natureza têm uma vida idílica quando não estão sujeitos a crueldade humana.

Conheço várias fazendas e frigoríficos. Posso afirmar sem sombra de dúvida que é do maior interesse de pecuaristas e frigoríficos que os animais tenham no campo a melhor vida possível e sejam abatidos da forma menos estressante possível. Talvez George não acredite que essa gente seja tão boazinha, então é preciso que ele saiba que além dos motivos humanitários há também razões econômicas, já que o animal rende mais e a maturação da carne é melhor.

Eu vou dizer o que acho cruel. Acho cruel por exemplo que crianças, especialmente as mais carentes não possam comer carne e tenham anemia. Uma pesquisa da Dr. Ana Maria Bridi da Universidade Estadual de Londrina mostrou que o consumo de carne está ligado ao desenvolvimento cognitivo de crianças. Carne é fonte de proteínas de alto valor biológico, ômegas 3 e 6, vitaminas A, E e B12, ferro e zinco.

O Homo vegetarianus diz que tudo isso pode ser conseguido por outras fontes. Ah sim, isso é natural, tomar vitaminas e suplementos sintéticos todos os dias. Dizem que há tri-atletas vegetarianos e etc e tal.. Sou capaz de rasgar meu diploma se for na casa de um deles e não encontrar por lá nenhum suplemento ou nenhum desses potes coloridos tipo MegaMass2000 que se encontram em lojas de esporte, e talvez uma injeção ou outra de otras cositas más.

Nos países em desenvolvimento, a cada aumento de renda percebido há um aumento proporcional no consumo de carne. As famílias percebem a importância de colocar carne no prato dos filhos.

De fato eu não conheço nenhum vegetariano pobre. Há talvez alguns por fanatismo religioso em certos cantos da Índia, mas pela aparência eles não são exatamente do tipo que "vende saúde". Pode ser fácil para um Paul McCartney advogar o vegetarianismo do alto de uma fortuna de alguns milhões de dólares, ou para quem pode comer granola e iogurte natural no café da manhã e sushi no almoço. Mas para quem tem fome, carne é ao mesmo tempo necessária e desejada.

Aí vem a carta do meio-ambiente. Claro, a pecuária é devastadora. Vacas poluem mais que carros. Os argumentos vêm de um relatório da FAO de 2007, intitulado The Livestock Long Shadow, ou a Grande Sombra da Pecuária, sobre as emissões de GEE. Em 2009, depois do prof. Frank Milthoener da UC Davis contestar os dados em um congresso científico, a própria FAO admitiu que a metodologia usada foi falha, e que iria rever o relatório. George também não sabe que os pastos onde as vacas estão absorvem mais carbono do que o que elas emitem.

Além disso, fala-se de boi como se ele produzisse só carne, e não uma vasta gama de produtos que vão do couro até biodiesel, medicamentos e produtos de limpeza.

O outro argumento é que a pecuária usa muito mais espaço comparada à agricultura. Bem, eu sou agrônomo e sei que há terras boas para café, outras boas para banana, e outras boas para ... pasto. E nenhuma planta no mundo produz mais massa verde por unidade de área do que gramíneas tropicais. Infelizmente não podemos aproveitar esse potencial, ruminantes podem. E estamos evoluindo no modo de produção. Só no Brasil, entre 1975 e 2007, a produção de carne cresceu 227% para um aumento de área de pastagens de apenas 4%.

Vamos então imaginar que a humanidade passasse a se alimentar de frutas e legumes que a natureza nos oferece. Em 2050 seremos mais de 9 bilhões de pessoas no planeta. Para alimentar essa gente toda com frutas e legumes seria preciso derrubar todas as florestas existentes no planeta. É uma bizarra maneira de defender a natureza.

Não tenho nada contra quem queira ser vegetariano. Pelo contrário, acho que vai sobrar mais carne para mim.

Mas contesto veementemente essa suposta superioridade moral que os vegetarianistas de bandeira na mão alegam ter sobre mim, especialmente porque são baseados em argumentos falsos e equivocados.

Vi outro dia Lidia Guevara, a filha do Che, nua, boina na cabeça, pose de guerrilheira e armada de cenouras em campanha pelo vegetarianismo. Seu pápi, quando mandava na prisão cubana de La Cabaña fuzilava algumas dezenas de cubanos por dia. Sua suposta superioridade moral lhe dava essa liberdade, afinal o que fazia era pelo bem da humanidade.

A contradição moral é a mesma, o PETA por exemplo acha normal sacrificar 97% dos animais que recolhem pelas ruas (www.petakillsanimals.com). Os fins justificam os meios.

O Homo vegetarianus também se considera um ser moralmente superior, e acha que o que faz é pelo bem da humanidade. No extremo deste pensamento estão os ativistas que explodem carrinhos de hambúrgueres. No centro estão pessoas como George Guimarães que acham que devem impor ao resto da humanidade sua visão de mundo.

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Comentários

Antonio Luiz Junqueira Caldas Filho

Lins - São Paulo - Produção de gado de corte
postado em 23/04/2010

Seria muito bom se o artigo tivesse amplo alcance!!!
Deveria ser debatido nas escolas.
Gostei muito!
Abraço!

José Ricardo Skowronek Rezende

São Paulo - São Paulo - Produção de gado de corte
postado em 23/04/2010

Que cada um coma o que desejar ou puder, desde que não agrida sua saúde. Pelas razões que bem entender. Mas que não faça disto uma disputa moral. E tenha cuidado com os argumentos .

Att,

Francisco Fido Fontana

Curitiba - Paraná - Produção de gado de corte
postado em 23/04/2010

sem raivas e muito bem argumentado seu artigo. Os avatares como George provam que vegan radicais não comem com sombra e não pensam com sol, já que não fazem fotosíntese.

Enaldo Oliveira Carvalho

Jataí - Goiás - Consultoria/extensão rural
postado em 23/04/2010

Ao Sr. Fernando, parabéns pelo artigo.
Esclarecimentos para a sociedade dos benefícios de uma alimentação saudável, que inclui alimentos de origem animal, são sempre bem vindos e necessários.
Cabe a nós técnicos e pecuaristas, sempre estarmos atentos com a anti-propaganda feita aos produtos de origem animal, principalmente carne e leite.
O discurso do vegetarianismo, por si só, não vejo como o maior dos males, sendo que até evitaria o debate, pois partem para o radicalismo, como o sr. mesmo menciona.
Vejo como problema mais grave, as táticas agrssivas de marketing, de outras indústrias de alimentos- sucos, refrigerantes, complexo soja- com apoio de médicos e nutricionistas, embasados ou não em trabalhos científicos, mas que expressam suas opinões a milhões de pessoas. Esses, sim tomam mercado dos produtos de origem animal, e em contrapartida a população está se alimentando cada vez pior, no diz respeito a qualidade.

SIDNEI TAVARES

Santa Maria - Rio Grande do Sul - Estudante
postado em 25/04/2010

Muito bem colocado!!
não deixarei de ser onívoro, porém estou sempre preocupado com o bem estar dos animais antes do abate, não só pela qualidade da carne como também não me sinto bem saber que posso estar estimulando o sofrimento deles. por isso sei da importância dos métodos de abate!

após termos solucionado o problema da fome no mundo, me preocuparei mais com este assunto!!

Antonio Silvio Abeid Moura ( Silvio Moura )

São Paulo - São Paulo - Produção de gado de corte
postado em 26/04/2010

Muito bom o artigo!

Sim, deveria ser mandado a outros meios de comunicação!!!!

Entendo que há gente que, devido a uma sensibilidade pessoal, repudia o sacrifício dos animais. Mas, como já dito, é uma coisa pessoal e que não deve ser imposta aos outros. É tarefa nobre dos animais alimentar os seres humanos.
Esse tipo de idéia atinge muitos os urbanóides, que não conhecem nem galinha e tem aversão à tudo que diz respeito à roça.

Ana Carolina

Catanduva - São Paulo - UltraBeef - Ultrassonografia de Carcaça
postado em 27/04/2010

Excelente artigo!
Concordo com Antonio Luiz J.C. Filho quando diz que isso deveria ser discutido nas escolas.
Parabéns!

Leonardo Siqueira Hudson

Belo Horizonte - Minas Gerais - Consultoria/extensão rural
postado em 29/04/2010

Prezado Fernado Sampaio.

Excelente abordagem. Parabéns pelo artigo e pela iniciativa em defender o setor.
Tambem concordo que este artigo deveria ser mais divulgado.
Abraço

Edison França Vieira

Santa Maria - Rio Grande do Sul - Consultoria/extensão rural
postado em 29/04/2010

Muito bom, é com argumentos sólidos e não com gritos que são derrubados radicalismos. Parabéns!

Wilmar Krüger D´Almeida

Curitiba - Paraná - Consultoria/extensão rural
postado em 29/04/2010

Parabéns pelo artigo.
O que se pode acrescentar é que quando o ser humano tinha na proteína e gordura animal oriunda de ruminantes, como alimento básico, sua longevidade se aproximava dos 120 anos, (3-4 mil anos passados), conforme fundamentos nos históricos da bíblia hebraico cristã.
Outra constatação, são as das enfermidades crônicas degenerativas, a exemplo de Parkinson, Alzheimer, Esclerose Múltipla, Osteoporose, câncer, obesidade, quadros de anemia, etc..., enfermidades que mais levam a óbito no mundo civilizado, com fortes indicadores serem elas oriundas de desequilíbrios nutricionais decorrentes do consumo excessivo de carboidratos, gorduras vegetais aquecidas e produtos de origem animal, processados pelo calor com o intuito da inocuidade sob o ponto de vista microbiológico.
Portanto, nosso desafio como técnicos de produção e saúde animal, pecuaristas, não é só o de fornecer alimento, mas saúde a nossa população.
Realmente, deveremos ter orgulho de nosso trabalho e produção, levando estas informações às escolas de formação de nossos técnicos de produção animal, aos técnicos de saúde e nutrição humana.

Luís Octávio Faustino Dias Brandão

São José do Rio Preto - São Paulo - Produção de gado de corte - pecuarista
postado em 29/04/2010

Este artigo realmente deveria ser discutido nas escolas. Como bem denominou o senhor Antonio Silvio Abeid Moura, os "urbanóides" precisam parar de agir como se pensassem que o alimento nasce no supermercado e é naturalmente embalado.

Fernando Silveira Ferolla

Macaé - Rio de Janeiro - defesa sanitaria estadual
postado em 30/04/2010

Chará este negócio de homo eu já conheço. Não dá pra aturar estas pessoas querendo aparecer, acho até que a colega não deveria ter ido no programa. É um festival de baboseiras. Faz o seguinte: da próxima vez chama eles pra um churrascão e assa uma cebola para eles.

Eduardo Claudino

Osasco - São Paulo - OUTRA
postado em 01/05/2010

Bebês de pais vegetarianos tem que ter acompanhamento pediatrico para sobreviver sem carne. Tomar bastante leite em pó enrriquecido.

Ah! e o leite da mãe, diga-se de passagem é de origem animal, afinal somos todos animais no sentido puro da palavra.

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