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Motoserra sem ideologia

Por Xico Graziano
postado em 02/06/2010

8 comentários
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Há quem imagine que pequenos agricultores sejam mais ecológicos que grandes produtores rurais. Políticos que se julgam da "esquerda" propagam que a agricultura familiar faz bem à natureza, enquanto o agronegócio destrói o meio ambiente. Pura ideologia. Nunca nenhum estudo da realidade comprovou isso.

O equívoco desse pensamento mostra origens remotas. Desde 1775, quando o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em seu famoso discurso sobre a origem da desigualdade, conceituou o "bom selvagem", constrói-se certa imagem de que o homem perdeu sua pureza no processo civilizatório. Antes, vivia em harmonia total. Depois, chegou a maldade sobre a Terra.

O raciocínio bem-aventurado procura se aplicar, hoje, aos indígenas. Ambientalistas argumentam que os povos da floresta, na Amazônia, por exemplo, vivem de forma ecológica. Avatar, belo filme, sublima essa questão, agradando sobremaneira aos defensores da natureza. Antropólogos, todavia, não corroboram facilmente tal ideia.

Orlando Villas Bôas, uma legenda nacional, afirmava serem os índios, que conhecia tão bem, nada ecológicos. Ao visitar a Unesp de Jaboticabal, nos anos 1980, contou uma pequena história aos alunos de Ciências Agrárias. Disse o grande indigenista que, certo dia, ao ver um índio derrubar uma palmeira de açaí para lhe retirar o cacho e colher os negros frutinhos, perguntou-lhe: "Por que você não sobe e corta apenas o cacho, sem derrubar a palmeira?"

O índio não entendeu: "Qual é o problema?"

"Ora", retrucou Villas Boas, "evitar a devastação da floresta!"

Mas o índio explicou: "Não se preocupe. Eu corto esta palmeira aqui, mas lá tem outra, outra lá adiante, tá cheio de açaizeiro por aí...". Para o índio, era infinito o estoque de palmeiras. Podia surrupiar à vontade.

Sem entender a História não se compreende a questão ambiental de nosso tempo. A pressão sobre os recursos naturais do planeta tornou-se um problema apenas após a intensa industrialização do século 19. Sua plena percepção ocorreu tão somente há 50 anos, quando a agenda da degradação entrou na preocupação pública. Quem criou o problema ecológico foi a explosão populacional humana.

Nem os brasileiros coletores da floresta, nem os índios norte-americanos caçadores de bisões tinham pensamento ecológico. Estes, quando descobriram os rifles dos mercadores de peles, ajudaram a destruir, sem piedade, o rebanho dos peludos bichões. A tecnologia potencializou a destruição da natureza.

No Brasil, a discussão sobre ecologia e tamanho da propriedade permeia os estudos sobre reforma agrária. Os agraristas ortodoxos, normalmente de origem comunista, nunca mostraram nenhuma predileção pelo tema da preservação ambiental. Sempre propugnaram pela desapropriação das "áreas ociosas" no campo, pouco se importando se elas estavam cobertas com florestas originais. Sua visão produtivista se aproximava da manifestada pelos desbravadores do território, com a diferença, claro, de que a terra deveria estar dividida, não concentrada. Menos mal.

Na história da reforma agrária brasileira contam-se infindáveis casos em que os projetos de assentamento rural recaíram sobre valiosas áreas naturais, seja em florestas densas do Pará ou de Mato Grosso, seja nos remanescentes de mata atlântica interiorana, seja nos frágeis ecossistemas litorâneos do sul da Bahia ou no Rio Grande do Norte. Onde procurar se acha um estrago ecológico, cometido em nome do combate à miséria rural.

O complicado tema veio à tona da opinião pública em 1997, num relatório apresentado à CPI do Congresso Nacional que investigava a atuação de madeireiras asiáticas na Amazônia. O então deputado federal Gilney Vianna, do PT-MT, demonstrou que 50% do desmatamento da região advinha dos assentamentos de reforma agrária. Os pequenos desmatavam tanto quanto os grandes. Deu um quiproquó na esquerda.

Nota do núcleo agrário do PT desmoralizou o relatório e enquadrou seu político rebelde, baixando o silêncio sobre o assunto. A senadora Marina Silva, defensora dos assentamentos extrativistas, também se aquietou. Mas não havia como tapar o sol com a peneira. Os sem-terra, tanto quanto madeireiros e grandes fazendeiros, faziam arder a floresta sem dó. Machado e motosserra não têm ideologia.

Novos estudos, mais recentes, especialmente os conduzidos pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), comprovam que boa parte da pressão contra a floresta amazônica se origina da reforma agrária. Sem maldade. Nem exclusivo é da Hileia. Na caatinga nordestina, que sofre uma tremenda ameaça, a lenha vira cinza na cozinha das famílias pobres do Semiárido. Subsistência básica.
Meses atrás, quando Carlos Minc ainda ocupava o Ministério do Meio Ambiente, patrocinou-se uma proposta estranha que concedia brechas no Código Florestal para os agricultores familiares, discriminando os demais produtores. Nada indica que esse favorecimento ajude a preservação ambiental do País. Reservas florestais belíssimas são mantidas por grandes fazendeiros.

A ideia do "small is beautiful" serviu a Ernest Schumacher, um visionário escritor inglês de origem germânica que defendia, na década de 1970, as tecnologias brandas, menos intensivas em recursos naturais. Seu famoso livro com esse título inspirou esse viés do ambientalismo, ultrapassado pelo avanço da tecnologia. Qualidade ambiental independe do tamanho do negócio rural.

Passarinhos que o digam. Eles nunca perceberam distinção entre as crianças que os caçam impiedosamente com estilingue e os adultos que os aprisionam para cantar na gaiola. Quem faz a diferença é a consciência humana. Depende da educação.

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Xico Graziano    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

José Casimiro Pimenta

Carmo do Rio Claro - Minas Gerais - Produção de café
postado em 02/06/2010

Excelente artigo!
Ele mostra que a ecológia é vista de acordo com a ótica do interessado. Sempre foi assim...

Quer coisa mais poluidora do que o esgoto das cidades?
E o lixo doméstico? e os gases dos escapamentos do veículos?

Todos nós, cidadãos, temos culpa nestes tipos de poluição e muito pouco se tem feito para o saneá-los,

Pergunto:

De quem seria essa responsabilidade?
Por que o ministério do meio ambiente não manda também multar as cidades poluidoras?

Na minha percepção, todas as pessoas com certa formação cultural e providas de educação, se preocupam com a preservação do planeta.
porém, nada como o exemplo para nos ensinar e, por isso, esse exemplo deveria vir dos escalões superiores.

Casimiro Pimenta

Marcio Carlos

Dona Emma - Santa Catarina - Estudante
postado em 02/06/2010

Que belo artigo. Pena que poucas pessoas que se intituilam de "ambientalista urbanos" leem tal explanação sobre o tema que nos faz refletir.
Só aqui para ter lei que impeça o crescimento do agronegocio. Não estou querendo dizer que não devemos preservar mas não ficar sobrendo pressão psicologica de uma turma de sem nada para fazer financiados por grandes empresas multinacionais que veem o nosso, tão glorioso, agronegocio crescer e por em risco os produtores de tais paises.
Vamos acordar e ver que isto não é uma questão de preservação e sim de interesse internacional sobre o nosso poder de crescimento do agronegócio brasileiro.

celso de almeida gaudencio

Londrina - Paraná - Produção de leite
postado em 02/06/2010

Senhor Secretário Xico Graziano a classificação de Mata Atlântica Interiorana causa espécie, não se sabe com que propósito foi traçados os Biomas Brasileiros, pode até ter sido uma bomba de efeito retardado, aos moldes das reservas Raposa acrescido de Terra do Sol, esquecendo dos arrozeiros entre elas.
Os Domínios Ecológicos Brasileiros, apresentados na ECO 92, são: Floresta Amazônica, Caatinga Nordestina, Cerrado do Brasil Central, Mata Atlântica, Florestas e Campos Meridionais, e Pantanal Mato-Grossense.
Qualquer outra classificação não atende à realidade ecológica em que atividade rural e a reserva florestal estão ou podem ser estabelecidas.
No Paraná, a produção rural está predominantemente localizada no Domínio Ecológico "Florestas e Campos Meridionais", em três planaltos e diferentes solos, entre os quais, latossolos vermelhos, roxos e brunos, podzólicos e litólicos, e não no ambiente costeiro.
Constitui erro de interpretação ecológica incluir a atividade produtiva do Paraná no Bioma Mata Atlântica. Caso fosse assim, o referido bioma costeiro alcançaria o sopé dos Andes, se não houvesse a fronteira com a Argentina e o Paraguai, constituindo uma aberração.
Tecnicamente não se pode aceitar tal diretriz, deixando de lado o que foi definido por numerosa plêiade de notáveis pesquisadores da Embrapa, na ECO 92.

Eugenio Mario Possamai

Água Boa - Mato Grosso - Produção de gado de corte
postado em 03/06/2010

Isto o que o Xico Graziano coloca, é pura verdade, pois sem um conhecimento por parte dos agricultores assentados (agricultores entre haspas) pois muitos são desempregados sem o mínimo conhecimento da terra, e colocados em pequenos lotes de terra, o que primeiro eles veem, a floresta, e que da retorno financeiro imediato e sem muito trabalho. derrubam e a vendem sem a mínima consideração. Para apurarem uns trocados mesmo.

Breno Augusto de Oliveira

Alto Araguaia - Mato Grosso - Consultoria/extensão rural
postado em 04/06/2010

Excelente dr.Xico,
e o futuro professor, como integrar tantos costumes (pré-conceitos), analfabetismo, miséria e destruições ambientais, qual herança o senhor enxerga para futuras gerações?

Abraço,
Breno.

Artur Queiroz de Sousa

Cambuquira - Minas Gerais - Produção de café
postado em 05/06/2010

Prezado Xico Graciano. Obrigado pelo seu artigo inteligente e oportuno. Eu fico as vezes pensando, de onde é que originou a idéia de separar uma classe de agricultores e pecuaristas em pequenos e grandes. Somos todos produtores. Seria uma especialidade política da esquerda jogar uns contra os outros? - Ricos contra pobres, negros contra brancos,empregados contra patrões, e agora pequenos contra grandes produtores. É uma estratégia de marketing. Também me preoculpa a atuação marcante de ONGs no Brasil, agindo quase que exclusivamente na área rural. Não existe outros interesses nisso?- Por que não vemos o Green Peace, WWF, agora brigando com o Obama nos USA, com desastre do Golfo do México. Seria pela origem da BP?
Na verdade não vejo no mundo, nenhum país mais ecologico do que o nosso, e nem tão pouco produtores mais conservacionistas do que nós. Se alguem conhecer favor me informar.

José Antonio Padial Posso

Monte Carmelo - Minas Gerais - Produção de café
postado em 05/06/2010

Texto dotado de grande lucidez e clareza. Parabéns Chico.

MARCOS V. LENZI

Santarém - Pará - Produção de leite
postado em 14/06/2010

Xico Graziano ,morro na amazonia a 20anos e poço afirmar com certeza que os Sem terra hoje protegidos pelo manto da impunidade , saõ tratados como quase intocaveis naõ respeitam e não respondendo por suas atitudes . As derrubadas dentro dos assentamentos saõ feitas nas barbas do Ibama, e os assentados gostam de se gavar dizendo que o helicóptero da fiscalização quando chega em cima das derrubadas desvia faz que naõ viu.nas areas de assentamento de Novo Progresso PA naõ se encontra mais floresta é só capim,e a terra na maioria das vezes é moeda de troca. Em contra partida quando um fazendeiro , digo proprietario rural ,porque a palavra fazendeiro tem uma carga preconceituosa ,da igreja catolica ,do ministério publico, das ongs que imperam por aqui ,só em SANTAREM PA saõ mais de uma centena,quando um propreitario rural tenta cumprir a lei fazer projeto de manejo p/ aproveitar a floresta racionalmente ,encontra todo tipo de dificuldade demorando anos p/ aprovar um manejo florestal. Isso é o Brasil,"´ E qual é o problema?...... XICO te AGRADEÇO POR ESTE TEU EXCELENTE ARTIGO , VOU FAZER O POSSÍVEL P/ ESPALHA LO PELA AMAZONIA... CONTINUE DANDO NOS TEXTOS DESTE QUILATE .

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