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Debate sobre o setor no Fórum Internacional de Carne Ovina - Parte I

postado em 03/11/2009

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Bruxelas foi sede nos dias 8 e 9 de outubro do Fórum Internacional de Carne Ovina para Produtores e Indústria, que contou com a presença de vários especialistas e membros do setor ovino de vários países, entre eles, a comissária de Agricultura da União Europeia (UE), Mariann Fischer Boel; o secretário de Estado do Ministério da Agricultura da Suécia, Rolf Eriksson; o membro do Parlamento Europeu, do Comitê da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Liam Aylward; e o presidente do Meat & Wool New Zealand (MWNZ), Mike Petersen. Confira abaixo os pontos principais dos discursos - Parte I no evento.

Mariann Fischer Boel, comissária da Agricultura da União Europeia (UE), disse que o consumo de carne ovina está caindo na Europa. Em 1997, nos 15 membros que faziam parte da UE, o consumo era de cerca de 3,6 quilos per capita. No ano passado, esse foi de 2,4 quilos - e isso é parte de um declínio de longo prazo. A produção também parece estar enfraquecendo. A redução foi especialmente surpreendente de 2007 para 2008, quando caiu em 7%. O rebanho ovino também está caindo há muitos anos. Ao mesmo tempo, muitos criadores de ovinos já estão sentindo efeitos financeiros.

Diante desses desafios, Boel dividiu o problema em duas partes: "aspecto de mercado" e "aspecto público". Com relação ao "aspecto de mercado", Boel disse que para que a produção de carne ovina se mantenha, é necessário que haja compradores. Para isso, é necessário tentar parar o declínio no consumo e, se possível, reverter o processo.

Ela destacou as qualidades nutricionais e de sabor da carne de cordeiro, dizendo que acredita que campanhas promocionais podem aumentar a demanda pelo produto, especialmente em mercados onde o produto é bastante consumido, como Europa, Oceania e América do Norte. Ela disse que espera que isso aconteça em outras partes do mundo, à medida que a população cresce e aumenta o gosto por consumir carne. Disse ainda que, embora existam vários países onde o consumo de carne de cordeiro é baixo comparado com o de outras carnes, isso pode ser mudado se o produto for apresentado de forma certa e for acessível. O aumento de longo prazo nos rendimentos globais também pode ser útil nesse ponto.

Boel disse que existem na Europa fundos voltados ao financiamento de promoção de produtos que possuem rótulo de qualidade nacional ou europeu (essa categoria inclui esquemas orgânicos). Segundo ela, a Comissão não recebe muitos pedidos por financiamento para promover a carne de cordeiro, de forma que há possibilidades nessa área. Boel alertou para a necessidade de que haja iniciativas de promoção de carne de cordeiro fora da Europa.

Outros fatores que influenciam o sucesso do setor de carne ovina no mercado incluem a estrutura do setor, investimentos em equipamentos e conhecimentos profissionais. Segundo ela, assim como em qualquer outro setor, o setor ovino pode se beneficiar de investimentos - seja de capital físico ou capital humano.

Com relação ao "aspecto público" da produção ovina, ela disse que não pode ser negligenciado. Em termos de valor econômico, a produção ovina significa uma porção relativamente pequena do setor rural da Europa. No entanto, em vários países europeus, existem grandes trechos de terras onde os principais habitantes são os ovinos. Os ovinos mantêm os pastos muito valiosos, que poderiam ser mantidos de outras formas. Isso é importante para a biodiversidade e para a beleza natural da paisagem rural, além dos pastos serem também importantes reservatórios de carbono.

Boel disse que as partes da Política Agrícola Comum (PAC) que são relevantes para a produção ovina se desenvolveram durante os anos. A UE costumava fazer pagamentos diretos aos produtores de ovinos que eram 100% dependentes da produção. Um relatório publicado em 2006 sugere que esses pagamentos podem ter estimulado uma superlotação de animais em algumas áreas. Agora, após a reforma da PAC de 2003 e o Health Check (avaliação da saúde da PAC) feita no ano passado, a maioria dos pagamentos diretos de subsídios ao setor ovino da UE estão "desacoplados" da produção. Concordou-se com uma taxa de 50% de acoplamento para ovinos premium, para os Estados Membros que quiseram.

Além disso, pela política de desenvolvimento rural da UE, existem muitas opções para dar suporte aos produtores ovinos. Existem, por exemplo, pagamentos para produtores em Áreas Menos Favorecidas (LFAs, da sigla em inglês) - muito importante nesse contexto, considerando que 80% dos ovinos da UE são encontrados nessas áreas. Finalmente, muitos produtores de ovinos europeus também têm acesso a vários esquemas agroambientais. O objetivo explícito dos pagamentos LFA é manter a produção em locais onde a produção agropecuária é essencial para o meio-ambiente. Os pagamentos agroambientais visam maximizar os benefícios ambientais trazidos pela produção agropecuária.

A principal questão é: de que forma essa política mudará no futuro, quando a UE tiver terminado de debater como a PAC deverá ser depois de 2013?

A comissária disse que não poderia dar uma resposta completa para essa questão, porque as discussões sobre o futuro da PAC ainda não terminaram, mas disse que acha inconcebível que os aspectos ambientais da produção agropecuária recebam menos atenção após 2013 - e é provável que recebam mais atenção do que atualmente. Dessa forma, mesmo se a UE não tentar influenciar diretamente no mercado de carne ovina, deverá continuar usando dinheiro público para pagar por bens e serviços públicos fornecidos por propriedades ovinas ambientalmente responsáveis. Se esses ovinos desaparecerem, os bens públicos desaparecerão também, com conseqüências potencialmente sérias.

Com relação à mudança climática, Boel disse que no caso da produção extensiva de ovinos, existem muitos recursos para limitar o impacto dos ovinos no clima. No entanto, isso deve ser feito de forma cuidadosa, sendo essa uma das muitas áreas onde a cooperação internacional no setor pode ser muito útil. De qualquer modo, é necessário equilibrar as emissões de gases de efeito estufa do setor ovino com as coisas boas que esse setor gera.

Como ponto final de seu discurso, Boel disse que, assim como outros produtores rurais, os produtores de ovinos precisam de ajuda para se adaptar aos efeitos da mudança climática. O financiamento para isso já está disponível na UE através do orçamento de desenvolvimento rural e isso deverá quase que com certeza estar disponível no futuro também.

Rolf Eriksson, secretário de Estado do Ministério da Agricultura da Suécia, após comentar sobre a presidência da UE pela Suécia (de julho a dezembro de 2009) e sobre os impactos e desafios da mudança climática, disse que acredita que existe um grande futuro para a produção e a indústria ovina. Isso porque os consumidores em todo o mundo apreciam os produtos ovinos e o número de consumidores está crescendo a cada dia.

Segundo ele, a indústria alimentícia é a indústria do futuro, não somente porque as pessoas precisam comer, mas porque as pessoas gostam de comer. Durante os anos 50 e 60, questionava-se se as pessoas precisariam gastar tempo comendo no futuro. De acordo com especialistas, só seria necessário tomar pílulas contendo todos os nutrientes necessários. Comer foi reduzido a algo que fosse o mais rápido possível e o mais saudável possível.

"Eu acho que nos esquecemos da significância social e cultural do alimento. A sensação de fazer uma boa refeição junto. Não consideramos o prazer de escolher entre linguiças e patês nas prateleiras das lojas de alimentos, ou a alegria de contar a nossos convidados a história selvagem de caça do alce que está em nosso prato. Muitos de nós estamos dispostos a pagar muito dinheiro para ter essas experiências".

Eriksson disse que hoje a produção de alimentos está em um grau maior, governada pela demanda do consumidor e isso é, sem dúvida, uma coisa boa para todos os produtores de alimentos de alta qualidade. "Na minha opinião, isso é progresso".

Para a Suécia, livre iniciativa, economia de mercado e atitude aberta em direção ao comércio internacional é crucial. "Favorecemos políticas que encorajam o conhecimento e a iniciativa. Damos um claro apoio em favor da cooperação internacional na resolução de questões globais, como agricultura e mudança climática".

Terminando seu discurso, Eriksson disse que a Suécia continuará trabalhando para superar os desafios do clima e da segurança do abastecimento. "Acreditamos fortemente que os esforços necessários para combater a mudança climática não devem ser considerados como limitantes da economia. Ao invés disso, eles podem ser usados como alavanca para novas tecnologias verdes e para novos produtos verdes. Por exemplo, carnes produzidas de forma benéfica ao meio-ambiente ou vestimentas naturais".

O artigo Parte II apresentará os discursos de Liam Aylward e Mike Petersen.

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