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Envelhecimento no campo

Por Xico Graziano
postado em 30/04/2014

10 comentários
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Nas comemorações do Dia do Trabalho, que ocorrem esta semana, sempre se costuma reclamar, com razão, do desemprego. Na economia agrária, porém, esse problema desapareceu da agenda. Ao contrário de antes, quando sobrava gente na roça e não havia faina para todos, atualmente o campo se esvaziou. Procura-se trabalhador.

"Apagão de mão de obra" foi destaque da Bienal da Agricultura, encontro recentemente promovido, em Cuiabá, pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato). Especialmente no Centro-Oeste, nas fronteiras de expansão da agricultura nacional, depara-se com forte escassez de pessoal. Segundo Alexandre Mendonça de Barros, consultor presente no evento, o grande desafio hoje é "encontrar, qualificar e reter o profissional" na fazenda. Nada fácil.

Nas novas regiões agropecuárias do Brasil central impera o mundo da moderna tecnologia. E a oferta de trabalho local não mostra tarimba capaz de operar os sistemas tecnológicos, mecanizados e computadorizados que funcionam na linha de produção rural. A "agricultura de precisão", conectada aos satélites de posicionamento global (GPS), avança maximizando a produtividade e minimizando o uso de insumos. Maravilha tecnológica da lavoura nacional, o plantio direto, que permite realizar duas ou três safras sucessivas na mesma área, ou ainda a integração entre a lavoura e a pecuária - sai a soja entra a boiada - são sistemas que exigem elevada qualificação profissional. Tudo mudou desde quando a enxada carpia o mato do milharal e as galinhas caipiras botavam ovos no ninho do curral.

Onde ocorreu a ocupação agrícola tradicional, como nas zonas cafeeiras de Minas Gerais e São Paulo, próximas das montanhas da Mantiqueira, o gargalo anda apertando na hora da colheita. No passado, sobrava gente para a apanha do café; hoje, é cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a subir os morros, derriçar os grãos, varrer o chão, ensacar o produto. Fora a qualidade. O que se fala, por aí afora, é que sumiram os trabalhadores dedicados, e os que se recrutam agora fazem meros bicos, sem gosto pelo serviço. Desejam ocupações mais "nobres" do que sofrer debaixo do sol escaldante. A escassez e a baixa qualificação da mão de obra afetam igualmente a colheita manual na citricultura. Pior, volta e meia se descamba para o litígio na Justiça. Em vários setores de produção no campo, a outrora alegria da colheita se transformou no desgosto da encrenca trabalhista.

Nesse contexto, a mecanização da colheita continua se impondo. Há meio século as primeiras colheitadeiras, mais simples, começaram a chegar às lavouras de milho e de arroz. Depois, mais elaboradas, avançaram para o feijão e o algodão. O progresso tecnológico nunca cessou. Complexas e eficientes máquinas dominaram também fases jamais imaginadas escaparem do processo manual, por serem difíceis, tais como o arranquio de batatas ou de amendoim. O último degrau da sofisticação da colheita chegou aos cafezais. Poucos conseguem imaginar como uma supercolheitadeira consegue, com seus múltiplos bastões, qual dedos vibratórios, derrubar os grãos de café por dentro da planta, derrubando-os automaticamente sem quebrar a galharia. Simplesmente sensacional.

Há tempos os economistas agrários discutem sobre este dilema histórico: a falta de trabalhadores estimulou a mecanização da colheita ou foi a introdução da colheita mecânica que expulsou os operários rurais? A difícil resposta, semelhante ao enigma do ovo e da galinha - quem veio primeiro? -, pouco importa aqui. Fundamental é mostrar que, na realidade da agricultura brasileira atual, existe falta de mão de obra generalizada, nas tarefas simples ou qualificadas, lacuna que em alguns lugares já está causando a desistência da produção rural. Nem se encontram mais facilmente trabalhadores permanentes dispostos a residir nas propriedades rurais. Desamparadas, cresce nelas o roubo vulgar.

Soma-se a esse cenário socioeconômico um terrível fenômeno demográfico: o envelhecimento dos agricultores. Não apenas os operários progressivamente se distanciam do campo, em busca das oportunidades e do modo de vida oferecidos na cidade grande, como poucos filhos permanecem ao lado dos pais, suportando sua trajetória, atavicamente apaixonados pelo ambiente agrícola. Os jovens saem para estudar e buscam fazer brilhar sua carreira longe da poeira do estradão. Nada segura a força de atração dos aglomerados urbanos.

Não é exclusivo do Brasil. Na Europa, o envelhecimento dos produtores rurais vem sendo analisado há muito tempo. No relatório (2013) do Parlamento Europeu para a aprovação da atual Política Agrícola Comum (PAC), lamenta-se que apenas 7% dos agricultores europeus apresentam menos de 40 anos e que daqui a cerca de 10 anos 4,5 milhões de produtores rurais irão se aposentar. Esse drama agrário atrapalha a inovação, empaca a produtividade, reduz a ousadia. A notória perda de competitividade agrícola foi compensada com fartos subsídios, que seguram a renda familiar e confortam os agricultores, mas, ao mesmo tempo, os acomoda.

Nos EUA também se discute, nestes dias, a alteração nos vistos de entrada para trabalhadores estrangeiros, incluindo o programa H2-A, destinado aos assalariados temporários na agricultura. A Califórnia, especialmente, ressente-se da falta de mão de obra rural. Segundo a Western Growers Association, 80 mil acres de frutas e vegetais deixaram de ser cultivados no Estado em decorrência da falta de braços nas lavouras.

Como atrair gente para o trabalho na agricultura? Como estimular os jovens a permanecerem no campo? As respostas indicarão o Brasil que será construído no futuro.
 

Saiba mais sobre o autor desse conteúdo

Xico Graziano    São Paulo - São Paulo

Consultoria/extensão rural

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Comentários

Carlos Eduardo de Andrade

Viçosa - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 30/04/2014

Òtimo artigo...!!!
O marketing negativo, a legislação trabalhista e a falta de uma política voltada para a agropecuária que assegure renda ao produtor rural  contribuíram e ainda contribui  para a migração do homem do campo.  
Muitas das considerações  pejorativas se diz ao homem do campo. O homem do campo é o bobo,  o destruidor da natureza, o explorador da mão de obra, etc.
Em muitas das minhas palestras eu falo a muito tempo em tom de brincadeira aos presentes, quando se reclama da política agropecuária do Brasil,  que só ficou no campo, velho, menino e bobo.
Penso que a sociedade, urgentemente deve pensar nas perguntas  ao fim do artigo, pois até quando se terá comida barata como se tem no Brasil?

Rhudson Carlo de Souza

Presidente Kennedy - Espírito Santo - Produção de leite
postado em 30/04/2014

Sr Carlos
O Sr está com toda razão até quando a comida vai ser barata e o governo tentará manipular os preços dos alimentos pois a carência da mão de obra e a falta de estímulo dos jovens filhos de proprietários rurais está sendo bancada pela política suja de pessoas que não conhecem a realidade do campo , pois a leis trabalhistas e a falta de garantia de preços dos produtos produzidos no campo desistimula não só os jovem mas também os mas velhos que já estão na atividade onde o valor das terras são altos e o rendimento no trabalho da terra são muito mas baixo comparado nos outros ramos  

Antônio César Hruba

Ivaiporã - Paraná - Indústria de laticínios
postado em 02/05/2014

Com a crescente demanda por alimento no mundo todo, é inevitável que há necessidade de empregar novas tecnologia para maior produção.
Muitos patrões reclamam que não conseguem pagar salários e benefícios compatível com que pagam as industrias, ai esta a necessidade de produzir cada vez mais, escala.
Vejo também que os governantes tem parte na culpa do êxodo rural, principalmente quando começaram a transportar os alunos do campo para estudar na zona urbana, não mais é possível identificar qual é jovem da zona rural de um da zona urbana, já desde novos adquirem os hábitos e costume da zona urbana, deixam desde novos a se interessar pelos trabalhos e atividades do campo.
No dia a dia do campo, um dos fatores que os produtores e funcionários reclamam muito é os compromissos que é diários e muitas vezes fora de hora.

Homilton Narcizo da silva

Goiânia - Goiás - Produção de leite
postado em 03/05/2014

E a nossa mais pura realidade, o produtor rural  não tem em sua propriedade uma segurança que lhe garanta um fim de vida digno, pois seus filhos não teem interesse em dar continuidade ao que seus pais faz ou fizeram, pois não viu o cotidiano deles um futuro melhor, e como diz o velho ditado, o que não quero para mim tambem não servo para meus futuros filhos. E daí a lotação das cidades e consequentemente o abandono do campo.
Abraços Homilton

willian trevizan

Araguari - Minas Gerais - Produção de café
postado em 04/05/2014

Vai chegar o dia que vai se ter dinheiro e não ter o que comprar....provocado pelo desestímulo ao homem do campo...aos jovens que não querem nada com nada...aos pais que não criam seus "homens" para o futuro...aos políticos que não tão nem aí....este dia está perto...

itagyba de oliveira

Carmo de Minas - Minas Gerais - Produção de café
postado em 05/05/2014

Completando o que Carlos Eduardo Andrade colocou, é necessário desmistificar a meia verdade de que " é dura a vida no campo " . Era, hoje não é mais. Temos eletricidade, telefone, Internet, TV - no mínimo parabólica, inúmeros cursos do SENAR à disposição. A VIDA DO TRABALHADOR DA CIDADE QUE É UMA LOUCURA. Vou citar, apenas, algumas das centenas de profissões urbanas que são verdadeiros calvários - e sem falar da questão segurança contra assaltos à mão armada e o tanto de vida que se perde nas conduções: motorista e cobradores de ônibus, porteiros de prédios, ajudantes de pedreiros, pedreiros, médicos, professores da rede pública, caixas de supermercados (faz o check out, pesa, embrulha, cobra, empacota, atura o mal humor da freguesia... )entregadores de mercadorias, motoboys .... etc. etc. etc. Pare e pensem. Hoje, os trabalhadores das lavouras têm todos os benefícios da CLT (iguais aos das grandes empresas e multinacionais), muitos fazendeiros dão cesta básica, a maioria tem moradia e água de graça, terreiro pra ter sua horta e criar suas galinhas e porquinhos, condução escolar do governo (vários horários) para levar os estudantes - crianças, jovens e adultos - para as escolas na cidade, assistência médica gratuita que vem duas vezes por mês na roça, muito mais segurança do que na cidade. O que falta é uma política de marketing envolvendo Governo, instituições, cooperativas, enfim, toda a cadeia agrícola para propagar COMO É BOA A VIDA NA ROÇA ... e acabar com a lamúria da falta de mão de obra. Sem me estender mais.... Itagyba de Oliveira, Fazenda Ondas da Mantiqueira, Carmo de Minas-MG

Orlando Monteiro de Carvalho Filho

Aracaju - Sergipe - Produção de leite (de vaca) Consultor SEAGRI SE
postado em 05/05/2014

Recordando a nossa história agrária, em que alguns donatários sequer tomaram posse de suas capitanias - aliás nossos colonizadores, tradicionalmente mercantilistas, só aqui retornaram décadas  depois do nosso "achamento" para explorarem principalmente ouro e prata . Diferentemente da colonização americana, eles aqui vieram para explorar recursos e ostentarem-se, novos ricos, nas cidades portuguesas, que  cresceram, às custas do esvaziamento dos campos portugueses desde o século XVI, o que explica um pouco a nossa história. Assim, nossa história agrária na sociedade brasileira tem uma conotação  pouco meritória, sempre associada à casa grande e senzala, ao trabalho escravo e outros significados sociais depreciativos sobretudo no discurso socialista acadêmico.
No Nordeste, o meio rural é considerado um espaço de atraso em todos os sentidos, social, econômico cultural, educacional, etc,etc,. Neste contexto, a escolarização do jovem rural não o qualifica para ser melhor agricultor que seu pai, pelo contrário, contribui para um processo de drenagem dos melhores cérebros a tentarem carreiras urbanas, em que o jovem rural tem que matar dois leões para concorrer com os urbanos mais qualificados. E o pior de tudo, incentivados pelos pais, que não veem futuro para eles no campo, até porque a lida do campo é muito dura, não desejada pela nova geração tecladista "selfie", pouco inclinada ao trabalho. Esse processo é, ainda, bem mais acentuado no gênero feminino, o que adiciona a masculinização ao processo de envelhecimento do rural. Tudo isso sem considerar, ainda as esmolas governamentais, as limitações impostas pelo PETI que restringem os filhos de ajudarem seus pais agricultores, assimilando seus saberes, por sua vez não valorizados na escola, que lhes repassam conhecimentos descontextualizados.
Por outro lado, o agronegócio brasileiro,  ainda não valoriza a oportunidade de associar-se  à imagem internacionalmente desejada pelo consumidor - particularmente o europeu - de ambientalmente amigável ou ecologicamente correta. Pelo contrário, comprou uma briga com os ambientalistas de forma maniqueista ao tratar o falso dilema agricultura x meio ambiente. Do outro lado, o MST, apropriou-se da abordagem agroecológica, escudando-se na imagem socialmente justa da agricultura familiar, para "aparecer bem na foto" perante o consumidor urbano, afirmando estar a produzir alimentos saudáveis. Em muitos casos está mesmo é a destruir o bioma caatinga - no nordeste - para assentar favelas rurais e a plantar apenas um roçado de milho terceirizado, para justificar a posse do lote.
Enfim o tema é vasto, mas merecedor de uma abordagem mais enfática e interdisciplinar deste tema, numa perspectiva futura da agricultura brasileira, sob pena dela se restringir aos cultivos e sistemas produtivos robotizáveis, além de outras funções que o rural irá desempenhar para a sociedade. O problema é que o rural terá cada vez menos votos!!

Marden Cicarelli

Monte Carmelo - Minas Gerais - Produção de café
postado em 06/05/2014

Prezado Itagyba e demais,

Antes de mais nada, obrigado ao Xico Graziano pelo artigo e por "levantar a lebre".

Eu concordo totalmente com suas ponderações: eu mesmo abandonei a cidade grande (Belo Horizonte) e a carreira para dedicar-me completamente à produção rural. Moro na cidade, que é pequena, outrora bastante pacata -- hoje um tanto perigosa e violenta.

Mas o maior problema -- e isso transcende qualquer política do governo (ou seja, isso, pelo menos, não é culpa "deles"...) -- é a pressão do modo de vida atual ao consumo, e mesmo a uma certa ânsia de ostentação inerente às pessoas.

Não estou levantando bandeira contra o capitalismo -- ainda não se inventou sistema melhor. Mas é fato que a pressão consumista faz com que a pessoa prefira viver a miséria da cidade que a opulência do campo. Na roça, ele não pode exibir seu porquinho ou sua horta a ninguém, e se o fizer ninguém valorizará. Ele prefere comprar um carro zero em infinitas prestações, morar na periferia e ser cobrador, ajudante, caixa etc etc. Talvez pleitear um bolsa qualquer coisa, e viver de seguro desemprego de seis em seis meses. Isso é valorizado.

Lembrando, ainda, que a insegurança é constante também no campo. Todos os dias temos notícias de cafeicultores roubados, às vezes com violência. No campo, bandidos têm tido até mais liberdade para "trabalhar". OK, isso é culpa "deles".

Ou seja, estamos caminhando para uma situação que, em informática, chamamos "dead lock". A saída para essas situações geralmente é um drástico "restart" no sistema.

Abraços.

Flavio Schirmann

Formigueiro - Rio Grande do Sul - Ovinos/Caprinos
postado em 12/05/2014

Não tenho bola de cristal, mas por tudo nisso que foi levantado com muita pertinência, vejo que no futuro próximo teremos no campo grandes empresas produzindo alimento em enormes propriedades, fornecendo aos seus colaboradores excelentes condições de vida (no campo ou na cidade). Será tudo lindo e maravilhoso, o trabalhador rural terá um "status" adequado a sua real importância. Como no sistema capitalista, onde o mercado é que dita o "rumo", tudo tem um preço ou um custo, ALGUÉM VAI TER QUE PAGAR POR ISSO. Assim é certo e justo que o consumidor final do bem, produzido nestas condições, venha a pagar a conta. Eu me arrisco fazer a previsão que os alimento deverão ter uma correção de "no mínimo" três vezes no seu preço. Se não for assim será a "ditadura do proletariado" como é na China.

Rosangelo Carvalho de Araujo

Barbacena - Minas Gerais - Produtor Rural
postado em 14/05/2014

Concordo com ITAGYBA DE OLIVEIRA em tudo. Falta o marketing... pode ser.. mas se cortar o "bolsa família" já ajudaria bastante.
O grande agricultor pode mecanizar, dependendo do tipo de lavoura... mas o pequeno agricultor? como é que fica?
A política social do governo, criando "massa votante" ... de vagabundo, jovens delinquentes, população subversiva... "movimento dos sem vontade de trabalhar"... Enfim: política de do quanto pior melhor...

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